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Pára
Reflete
Não pára
Persiste
Escreve
Pensa
Escreve
Rasura
Escreve
Pára
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Dúvida...
''A palavra foi dada ao homem para esconder o seu pensamento" (Stendhal)
Lá vem a menina de novo. Epa!! Está chorosa, a menina. O que houve? Queimou-se? Como? Onde? Conte-me tudo!
Foi assim... Há muitos e muitos anos, num reino muito distante daqui, vivia a alegre e faceira menina. Estava ela, como de hábito, encantada. Sim, encantada pela beleza da chama, que dançava intensa e harmoniosamente. Sorria com os olhos e a boca, com as mãozinhas infantis, aplaudia. Como era linda aquela chama, vermelha, amarela, alaranjada e azul... Como era forte e leve! Tão lindo que a menina teve vontade de tocá-la. E, sem nenhum receio, a tocou.


“...quando algo necessita ser feito e é inevitável, então o faça rápida e eficientemente...”
Maquiavel
Zunido incessante nos ouvidos, meu novo amigo Rossi nas mãos, fumaça no ar... Arrogante, me julgo senhor absoluto de minha existência, a ponto de querer definir meu destino. Como se a muito já não estivesse nas mãos das fiandeiras. Agora pouco importa, assim como os dogmas em que fui criado. Nem me lembro da primeira vez que “o amanhecer e o anoitecer” perderam o sentido. Existir. Talvez, pelas repetições cada vez mais intensas de minhas ambições, fosse necessário punir-me. Mas, a mesma coragem que me impede de antecipar o inevitável ciclo, como num balé pirotécnico, oscilante, revela-se covardia. Ironia que garante a integridade de meu corpo diante das punições merecidas. Inútil. Ainda que fosse punido fisicamente o tempo curaria as feridas. Agora o choque de meus “eus”, antes como um jogo de bolas de gude, agora se perfila a impetuosa catástase das galáxias que brutalmente tentam ocupar o mesmo lugar no espaço. Explosão.
Sou o reflexo dos pensamentos antiexistenciais que me acompanham. Nada com o que se preocupar, ninguém vai perceber a mudança, dado a superficialidade dos relacionamentos humanos e a facilidade de manipular as pessoas. Só vêem o que querem, ou o que é mostrado. Massa de manobra. Basta um sorriso no rosto, ainda que cínico, e lá vai a felicidade
Como um amálgama, misture: os rótulos, a insolidez, o êxtase, a psicodelia... Uma pitada de humor ácido, com requintes de cinismo gratuito, despeje numa fôrma untada com muita crítica e pronto descrevi-me da unha ao cabelo. Seria alguém capaz de coexistir pacificamente com o mundo sendo constituído por tão inflamáveis substratos? Respondo que sim. Sim, sim. H? Não, o perigo eminente não é cataclísmico.
Talvez, se fosse mais ignorante, ou volúvel, ou alienado, ou tudo isso, relevasse o que vejo e que sinto. E nem me importaria em saber qual é a verdadeira provação. Amanhecer? Anoitecer? Poderia ser... deliberadamente feliz. Não o sou. Não consigo me curvar ao bel prazer do vento.
Minha cabeça dói muito, meus olhos parecem querer saltar de minha face. Lembrei-me de um antigo provérbio oriental. “Numa floresta existiam muitas plantas, grandes arvores de caules majestosamente imponentes e de frágeis e numerosos bambus. As primeiras por suas características naturais, viviam isoladas umas das outras, não podiam ficar juntas, os segundos pelo contrario, só sobrevivem coletivamente. Inesperadamente, começou uma tempestade como nunca houvera ali. Seus ventos incontroláveis e violentos pareciam anunciar a chegada de um rei, obrigando seus vassalos a se curvarem. Os bambus se dobravam e desdobravam à vontade de sua mãe, pouquíssimos morreram. As grandes árvores, devido a sua formação, resistiram enquanto puderam, mas a natureza foi mais forte, e ainda assim umas poucas restaram...” De repente, empalideço, embora seja fácil determinar quem são as grandes arvores e os frágeis bambus, a mãe natureza é o ‘sistema’? Quando virá a tormenta?
Chega!!! Não sei! A essa altura posso naturalmente estar delirando, entorpecido pelos meus pensamentos. Entorpecido por mim mesmo. Droga. A mão é inábil, ante a mente. Esta raciocina velozmente, enquanto, aquela lentamente mancha o papel com palavras infundadas. O resultado quase sempre é insatisfatório, fartas idéias, parcos recursos. Esse disparate pode até ser-me útil, potencializando minha visão cubista da realidade.
O zunido se foi. O disparo não se repetirá, por enquanto. O balaço era primogênito, único e deficiente. Paralisia infantil? Pólio? Aproveitarei adiando um pouco mais a única certeza de todos. Quem sabe, antes de encontrar outra munição, encontre algo mais... destrutivo. Ragnarok! Uma alma gêmea.
Adhes Valhala
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Maria Clara Dunck
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Não! Esse não é um texto sobre Chaplin, tampouco acerca de seu clássico cinematográfico. Acho que nem seria capaz de tecer qualquer comentário a altura deles. Recolho-me em minha insignificância, optando por temas menos rebuscados. Falarei, então, de minha infância onde tenho o bônus do conhecimento da causa. Como todo menino de parcos recursos, sem uma caixa grande cheia de brinquedos para dominar meu dia inteiro, cresci acompanhado da TV. E adorava sua companhia. Talvez por isso, tenha ‘ficado’ insone. Ou o contrario, será que gostava tanto por causa da insônia? Sei lá. Nem me interessa! O fato é que assistia a desenhos animados, praticamente, o dia todo. Na minha época eles começavam, religiosamente, com o cantar do galo, às seis da manhã. Durante muito tempo, amanheci com o Gato Félix, não aquele tagarela colorido de voz insuportavelmente aguda que reinventaram uns anos atrás. Deliciava-me com o original em preto e branco, ingenuamente psicodélico (naquela época nem sabia que essa palavra existia, muito menos seu significado).
Falando
Tem mais! Infelizmente, assisti ao ‘genérico’ do Scooby-Doo. So-co-rro! Penso que era um ‘genérico’, prefiro crer nisso. Aquilo bem que poderia ser outro desenho, cujas personagens lembrassem o grupo da “Mistery Machine”. Acreditem se quiser, mas no meio de um episódio do ‘Novo Scooby’ aconteceu um show do “KISS” (sic!). KISS e Scooby!? Isso mesmo! Tudo bem que todo mundo sabe que o KISS é o maior projeto empresarial do mundo da música. Mas fazer propaganda no meio de um desenho? Uma banda que teve seu auge da década de 70 do século passado? Aí não! E como se não fosse possível piorar, quando a vilã é desmascarada e presa no carro de polícia, a banda aparece do nada e pergunta para meliante (uma linda adolescente loura, que queria acabar com o dia das bruxas porque seu aniversario coincide com o feriado estadosunidense, moradora de uma fazenda de milho que nem tem idade para votar, mas consegue criar espantalhos robôs – ufa!) quem pagará o cachê do show (sic!). O detalhe cruel é que o prefeito da cidade pode ser visto ao fundo da tela, sem participar da cena. Nesse momento, quase acertei a TV com um copo que tinha nas mãos. Por sorte, o bendito estava quase cheio de precioso café (tomo café no copo, sim, porque não tenho coordenação motora suficiente para manusear aquelas xícaras ‘afrescalhadas’ e minúsculas). Antes que seja mal interpretado, gosto muito do som do KISS, principalmente os álbuns do início da carreira com gravações ao vivo, mas nem por isso eles deixam de ser uma empresa (para céticos), ou um fenômeno mercadológico de grande apelo cultural (para sonhadores). Melhor não me comprometer, afinal, eles também podem ter sido reinventados no novo século. Alguém aí já ouviu falar em “The Doors 21th Century”?
Voltando ao que interessa. Ainda me lembro das lições de moral que a She-ra, o He-man, o Lion (Thundercats) ou o Quicksilver (Silverhawks – esse tinha uma música de abertura, emocionante, cheia de solos de guitarra) ensinadas no fim de cada episódio. Essas lições, definitivamente, moldaram meu caráter. A aventura nunca era gratuita, sempre havia uma motivação subliminar, que ganhava luz no desfecho da história. Certa vez, o príncipe Adam/He-man mostrou que nunca deveríamos mentir. As mentiras sempre eram descobertas e o mentiroso perdia a confiança da família e dos amigos, como aconteceu com o ‘Gorpo’ no episódio do dia. Quanta nostalgia! Se pudesse voltava no tempo.
Em meio a tanta modernidade animada me serve de consolo uma possível (in)explicação para - aquela que pode ser - a maior dúvida dos desenhos. Se o Pateta (Goofy), personagem antropomórfico como o Mickey, o Donald ou o Pão Duro McMoney, é um cachorro, que animal seria o Pluto? Minha única certeza se refere a ele ser o animal de estimação do camundongo mais famoso da história. Também sei que ele foi criado em meados de 1931, pouco tempo depois da descoberta do ‘último planeta’ do sistema solar (detalhe: em inglês eles têm o mesmo nome). Fazendo uma livre associação ao fato de Plutão hoje ser um não-planeta, afirmo, categoricamente, em tempos ‘modernosos’ como os atuais, que Pluto é um NÃO-CACHORRO (sic!!!).
A cada dia que passa, deixar de ser criança tem menos graça. Hei! Por obséquio, parem este orbe! Eu quero descer, nem que seja num satélite, num cometa ou não-planeta.
Rodrigo Duarte
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- Hhhhmmmmm... fez Coisas Belas e Sujas, aaahhh e fez Ligações Perigosas.
– Ligações Perigosas é um dos meu filmes prediletos...
– Meu também; concordo com ela... aaahhh e ele fez também Minha Adorável Lavanderia!
Pensei, e tentei me lembrar dos outros filmes do Frears, mas nada me veio à cabeça e logo desviamos do assunto.
Na verdade Stephen Frears já dirigiu coisas finas como Terra de Paixões, Alta Fidelidade e Liam, mas de uns tempos pra cá tem caído no esquecimento com filmes blasé como O Segredo de Mary Reilly, o recente Sra. Henderson Apresenta, além do já citado Coisas Belas e Sujas, pelo qual não nutro tanta simpatia. Eis então que Frears ressurge com esse delicado e estranhamente íntimo A Rainha - indicado a 6 Oscar, entre eles os de melhor filme, diretor, atriz e roteiro original – obra de uma austeridade que me pareceu casar muito bem com a proposta de seu diretor.
A Rainha é o filme que desmitifica o mito pra nos revelar o ser humano por trás da Rainha Elizabeth II, seus medos, fraquezas, no que talvez tenha sido um dos momentos mais difíceis de sua vida como monarca , quando da morte de sua ex-nora, a popular princesa Diana. Frears e a soberba Helen Mirren (sem esquecer do excelente roteiro de Peter Morgan) conseguem invadir a intimidade de uma das mais reservadas e solenes personalidades do planeta.
Mirren é pra mim uma das atrizes mais completas que já pude ver atuar. Dona de uma sensibilidade e inteligência impressionantes, ela compõe muito mais do que os trejeitos e modos de Elizabeth, lhe emprestando, sobretudo vida e firmeza no olhar e nos gestos, na ironia... Oscar garantido espero eu.
Frears nesse sentido me parece seguir a mesma lógica daquela história toda. Diana morreu sendo perseguida por paparazzis, sempre teve sua vida particular revirada pela imprensa e precisou encontarar na morte a paz que aqui nunca teve. O filme, nesse sentido me parece muito coerente quanto ao mostrar a vida da Princesa, ou seja, Frears, tentou invadir o mínimo possível a vida daquela mulher, utilizando-se apenas de cenas de arquivos da época, e nunca reencenando sua vida.
Uma figura naquilo tudo porém me pareceu pouco crível. Tony Blair aqui é menos o Primeiro Ministro britânico que nos acostumamos a ver nos telejornais e suas manobras políticas um tanto questionáveis, do que aquele homem compreensivo, ingênuo e sensato que o filme parece mostrar. Nesse sentido, Blair me parece ser o alter-ego do cineasta Stephen Frears, pois ambos estão em busca do ser-humano por traz da frieza monárquica de Elizabeth. E conseguem, seja na bela seqüência do cervo real, em que ela solta seu único choro, que é inclusive negado por Frears, que a mostra apenas de costas, seja na delicada seqüência em que ela retorna ao palácio de Buckigham para o funeral de Diana e encara todos os seus súditos que a massacram como vilã nessa trágica história, manipulada com tanta frieza pela imprensa e pelo partido socialista que quer o fim da monarquia e seus privilégios.
A Rainha é, na verdade, mais um dos muitos filmes contemporâneos que enfocam esse embate entre o velho e o novo. Entre tradição e modernidade, num mundo que renega o tempo todo o seu passado, sua história, em busca de um pensamento que pode ser tudo, menos humanista. Nesse sentido, é ainda mais questionável essa coisa da imagem, ou da construção de uma imagem principalmente feita pela mídia, nessa necessidade maniqueísta que o homem tem de separar o bom do mau, o mocinho do vilão. Frears parece nos querer mostrar que somos todos produtos do tempo e do espaço, e cada indivíduo é um frasco repleto de emoções ímpares, e que a chave de tudo é buscar compreender o próximo, sendo acima de tudo tolerante, e não assumir a beca da justiça e julgar as pessoas como se houvesse algum modelo de comportamento já predefinido.
A Mis- en- céne aqui é a da contensão, tanto na manipulação dos sentimentos de cada personagem, quanto na trilha sonora e na fotografia intimista criada pelo brasileiro Afonso Beato. A Família Real é fria, contida, rigorosa, e Frears assume essa postura em seu filme, mas sem perder a ternura, claro. Ao final, tanto Tony Blair, quanto Stephen Frears terão assumido sua paixão pela figura hipnotizante daquela Rainha. E se o espectador não chegar a assumir tal sentimento, ao menos enxergará aquela figura com outros olhos.
Me fez pensar muito nessa manipulação barata que a mídia do mundo todo faz quando pretende vender seu peixe, renegando uma alta carga de responsabilidade, que todo jornalista deveria ter. É o segundo filme que vejo essa semana – o outro é o primoroso A Conquista da Honra de Clint Eastwood – a questionar a imagem e seus desdobramentos. A imagem que fazem de nós, a imagem como ferramenta para manipulação das massas, nesse que me parece ser antes de tudo um forte e muito consistente libelo humanista.
Ou Dr. João da Silva, homem de bem.
...É Natal! Até ontem era natal, e o Dr. João da Silva, homem de bem, pai de família, cumpridor de seus deveres cívicos e morais foi a missa do galo com a família. Ele e a esposa criaram 3 filhos com esmero, dentro da mais absoluta moral cristã.
Ele era funcionário público, embora houvesse arrumado esse emprego com a ajuda do tio nos idos de 88, bem no apagar das luzes, era servidor dedicado. Chegava às 09 e saía às 05, certamente que com duas horas de almoço, porque afinal, família é muito importante, protegida pela Constituição! Até se tornar deputado.
Dr. João da Silva era boa gente, tudo sempre tinha solução. Fazia amigos por onde passava, sempre auxiliando aqueles conhecidos que precisavam de seus préstimos na repartição. Um dia o vizinho, José Oliveira, precisando de um contrato com a administração para engordar a conta da família e poder mandar a filha para o intercâmbio, falou com Dr. João. Este, homem de bem, pai de família, cidadão exemplar, logo deu um jeitinho para que o vizinho conseguisse seu contrato. Afinal, para que servem os amigos? Solidariedade com o próximo é uma virtude.
Não foi o José Oliveira, igualmente homem de bem, policial aposentado que arrumou para darem cabo daqueles dois moleques que rondavam a vizinhança incomodando todo mundo? Merecia este agradecimento, porque quem pode agüentar com dois marginaizinhos de 9 e 11 anos rondando a vizinhança, quando se tem filhas em casa?
Aliás, Dr. João da Silva é pai exemplar. Cuida das filhas como se flores fossem, tal delicadeza. Estão sempre belas e perfumadas, sempre bem vestidas e calçadas. E ai daquele que passar dos limites! Embora ele não tenha idéia de quais são os limites. Afinal, elas são meninas de bem, moças de família. Diferentes da Ditinha, aquela guriazinha faceira, filha da Maria, que Dr. João levou para a última pescaria de amigos, com mais uma dúzia de meninotas iguais a ela para entretê-los nas noites quentes na beira do rio.
É tão generoso, Dr. João da Silva, depois que se elegeu deputado, com a ajuda do primo Eduardo, dono da construtora, e do cunhado Dionísio, que dirige a companhia de eletricidade, ficou ainda mais caridoso. Acredita que deu emprego para mais de 100 bóias-frias? Pois é, vivem agora como reis em sua fazenda no Centro-Oeste – ou será no Norte, no Nordeste, no Sul ou no Sudeste? – têm até direito a refeição, sim senhor! Comem uma vez ao dia, dormem em barracão coberto de telha – com forro! E trabalham todos os dias. Como é bom, o Dr. João! Dá-lhes de comer, local para dormir e ainda lhes dá trabalho, tudo por uma mísera contribuição do dobro do salário.
E é tão caridoso, Dr. João, que cuida dos filhos dos bóias-frias, os meninos vão para a carvoaria, aprender a ser homem desde cedo e ajudar a família. ‘’Um homem sem trabalho e sem família não é nada!’’ As meninas... Bem, as meninas ele leva para a pescaria.
E é natal, ou era até ontem. Dr. João reuniu a família, foi a igreja, orou a Deus para que tivesse piedade dos pobres de sua cidade, do seu estado e de seu país. Coitadinhos dos pobres! Ao sair, deixou generosa contribuição e ainda deu uma esmola para o sem-teto que beirava a escadaria. Como é bom, Dr. João!
E é natal, ou era até ontem!
''O oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença.'' (Érico Veríssimo)