segunda-feira, 28 de maio de 2007

A simplicidade da Primavera

Contos de Primavera é um filme suave, sutil. O cineasta Erick Rhomer trata de relações humanas, de sentimentos e de coisas cotidianas de uma forma muito natural, acompanhando a vida de suas personagens à distância, como se estivesse as assistindo, sem participar de suas ações.
O filme conta a história de Jeanne e de Natasha, duas pessoas que se conhecem por acaso em uma festa e se tornam amigas rapidamente. Jeanne é uma professora de filosofia muito comunicativa e sozinha. Se vê desabrigada quando empresta seu apartamento pra uma prima e não deseja permanecer no apartamento do namorado, enquanto este está ausente. Natasha é uma jovem tão solitária quanto a amiga. Filha de pais separados, mora praticamente sozinha, uma vez que o pai está sempre com a namorada, que por sinal, Natasha detesta. Dessa maneira, a garota começa a ver na amiga, uma possível substituta para a namorada do pai e, aparentemente tenta fazer de tudo para aproximá-los.
O filme se baseia no discurso. Os diálogos são mais recorrentes e mais importantes que as ações. Muito se fala de filosofia, de relacionamentos, de sentimentos, de carências, de solidão, em vários jogos de palavras. E é exatamente através dessas falas que as personagens se revelam. Entretanto essas revelações são parciais. Como na vida real, não se sabe se o que uma pessoa diz é sincero e verdadeiro, ou se é uma imagem oportunista que ela quer passar de si mesma. Assim são as personagens de Rhomer: ora se mostram ingênuas e carentes, ora oportunistas e maquiavélicas.
Jeanne e Natasha falam muito de si, se entregam e confiam muito uma na outra, apesar de terem acabado de se conhecer. Surge uma cumplicidade entre elas, uma busca por saciar seu desejo de companhia, de ser o centro das atenções, de romper com a solidão. Ambas dão pouca importância ou quase nenhuma a seus respectivos namorados, tratando de forma egocentrista de seu universo particular. São personagens ressentidas com suas próprias vidas, e que, exatamente por isso, não conseguem falar de outra coisa.
Podemos afirmar que é um filme que trata sutilmente do universo feminino e de seus conflitos. As personagens principais são mulheres: fortes e fracas ao mesmo tempo. E outras personagens femininas assumem papel importante na trama, como Eve, a namorada do pai de Natasha ou sua mãe, da qual ela sempre lembra com críticas e melancolia. Enquanto isso, os homens assumem papel secundário na trama e se resumem em ser a razão dos problemas femininos. Por vezes, um toque de lesbianismo fica no ar.
Contos de Primavera, que faz parte da série intitulada Conto das Quatro Estações, traz muito da primavera que sugere no título. Apesar dos conflitos, as cenas da casa de campo no jardim florido, as cores suaves da fotografia, a sutileza com que é contado... tudo lembra a leveza da primavera.
O filme segue uma estrutura de causa e conseqüência ininterrupta, desde o momento em que Jeanne e Natasha se conhecem, até o desfecho da história do colar que havia desaparecido, sempre com uma coisa levando a outra. Apesar disso e de ter uma história facilmente compreensível, não é um filme clássico. É uma narrativa moderna, que desenvolve com naturalidade a trama das personagens sem querer emocionar ou explicar demais as coisas.
O final em aberto sugere a continuação da vida daquelas pessoas de uma maneira cotidiana, que dali pra frente pode ser diferente, exatamente porque uma cruzou o caminho da outra e isso deixou marcas; ou pode continuar seguindo seu curso normal, sem que nada se modifique, fazendo daquela história uma mera lembrança. Dualidade que acontece diariamente em nossas vidas. Trata-se de uma trama comum, com um roteiro simples e muito bem contada.
Camila Pessoa.
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terça-feira, 15 de maio de 2007

AMOR EM TRÊS TEMPOS

‘’Física quântica, a física das possibilidades.’’



Ana tem feito todos os dias o que sempre faz, deseja loucamente – ou talvez nem tanto – viver uma outra vida. Ela caminha neste momento por entre os edifícios da vizinhança. O sol já se foi, mas não completamente. Ela carrega as compras do jantar e naquele momento deseja quase tão suavemente quanto a brisa que lhe toca o rosto, simplesmente chegar a casa, sentir a poesia de Djavan e preparar o jantar.



Hoje, mais que nunca, Ana precisa de uma refeição amorosa, sutil, com gosto de felicidade. Um sorriso discreto ilumina seu rosto, faz brilhar seu olhar enigmático. É que as palavras ouvidas há pouco ainda ecoam em seus ouvidos e reverberam em todo seu corpo ‘’...eu lamento por você’’...



Por um instante nada em volta existe... Só o cheiro do fim de tarde e o imenso vazio, a dúvida – chega quase a ser dor - mas neste momento, no justo instante em que a nuvem cobre seu olhar, um feixe de luz se lhe apresenta. Parece tão claro: tudo pode ser!



Neste instante é como se não houvesse tempo ou como se ele pudesse ser seu amigo e permitisse que tudo acontecesse simultaneamente. Como se ao invés de simplesmente se virar e partir, ela tivesse ido ao encontro do homem que a fez tremer e duvidar. E juntos eles tivessem escrito uma história de plenitude. Ela quase podia ver os dois nus na varanda, sentindo o sol se pôr, sorvendo lenta e calorosamente o vinho e suas próprias almas. Sendo mais que o momento presente, sendo um novo dia a cada dia, sendo a cada instante uma nova história, sendo tudo na linha do tempo. Ela podia vê-los naquela varanda falando de velhas histórias vividas ou sonhadas por muitos anos. Sim, ela pôde ver cada instante daquela vida e assim os viu já na plenitude, na mesma varanda de mãos dadas como antes e todos os dias - conversando, conversando.



Entretanto, ao mesmo tempo, no mesmo lugar, ela opta por seguir em frente sem olhar para trás. Ela amava aquele homem e não queria ouvi-lo lamentando por sua vida, nem pela dele, mais que tudo ela o queria feliz – como fora antes – sem contratempos. Ela precisava dele inteiro e não distorcido por simulações e fraudes. Ela o preferia longe porque só assim poderia continuar admirando-o mais de perto. Ana não podia imaginá-lo outra pessoa, ela o queria, ele mesmo, inteiro, mesmo que à distância.


Ainda assim as possibilidades deles não se esgotavam. No mesmo espaço, naquela mesma tarde, não pensavam em nada, só havia a imensa presença, a perfeita conjunção. Sentiram-se simplesmente livres em seus corações e embora quisessem gritar ao mundo o que sentiam, embora quisessem compartilhar com todos a seu redor a imensa felicidade que sentiam, afogaram tal grito, bem no fundo do estômago e mesmo sentindo uma pontada de dor, permaneceram em seu anonimato, seguros e felizes em sua ilha de amor. Ainda que pequena - em tempo e espaço - era o mundo. Nele - aquele mundo - só eles viviam, e dela - aquela vida - só eles sabiam. Não partilhavam esse universo, porque lá não havia início ou fim, só o que eram e sentiam. E fora dali não havia nada, somente o cotidiano, o trânsito, as contas a pagar, o trabalho, enfim nada que valesse à pena mencionar.



‘’Lamento por você...’’ (Um homem, em algum lugar do passado)


‘’Não quero que vivamos em meio a simulações e fraudes, quero que continuemos a ser inteiros, para que possamos continuar nos admirando mutuamente’’ (Uma mulher, em algum lugar do passado)




Maria Cláudia Cabral
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quarta-feira, 2 de maio de 2007

Do Improviso e do Desapego

''Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapê
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros e nada mais''
(Zé Rodrix e Tavito)
Cá estou eu, correndo de novo. Escrevendo de improviso e atrasada - está virando hábito. Embora costume acordar segunda-feira cheia de idéias para o texto de terça, e ainda o faça, a mudança tem-me imposto novas rotinas. Questões urgentes para resolver, realização de sonhos. Ainda assim, sinto-me saudosa do som dos dedos no teclado. Sinto saudades de expor o pensamento e os sentimentos - e são tantos nesse momento de mudanças que talvez o ciberespaço seja pequeno para lhes dar cara.
Passada a semana em que me virei em mil para arrumar minha ''casa no campo'', passado o alvoroço da seleção, a vida vai aos poucos tomando seu rumo. Emprego novo, trabalho novo. Novos desafios, sonhos realizados e as coisas do dia-a-dia vão se assentando - ainda que a base de improviso e desapego.
Improviso, no entanto, não é privilégio do blog. Tenho exercitado dioturnamente essa qualidade como há muito não fazia. Desapego é desafio. Fazer caber o conteúdo de um apê de 140m, num loft charmoso de pouco mais de 50m é fazer o caminho de Santiago de Compostela. Creiam, é verdadeira viagem interna. Há que exercitar o desprendimento das coisas materiais. Há que exercitar a escolha. Isto ou aquilo - senão não cabe!
Rearranjar os móveis - escolhidos por outrem - num pequeno espaço e ainda deixar com a sua cara é tarefa das mais árduas - e das mais criativas também. Arrumar solução para uma cômoda pesada num espaço pequeno ou para um sofá-cama preto e volumoso, idem. Ter de abrir mão da sua Brastemp novinha e ultra moderna em favor da Cônsul da locadora - já meio carcomida pela longa vida - não é mole - mas nada que uma adesivagem não resolva, claro!
E os livros e cds, como ficam? Bem, depois de abrir mão de boa parte dos livros em favor de amigos e instituições, resta virar-se em mil para que os 'heróis da resistência' caibam no espaço do loft. Para isso usar os metros cúbicos, em lugar dos tradicionais metros quadrados na hora de calcular o espaço a ser utilizado, é fundamental. Funciona ou pelo menos está funcionando - mas ainda não acabou. Quanto aos cds - não me agridam, por favor - cometi o sacrilégio, segundo uma grande amiga, de digitalizar (esse verbo existe?) todos. Sim, todos! Música pertence à dimensão virtual, é intangível, amigos, cd é objeto da dimensão real. Como vivo lá e cá, optei por guardar minhas músicas lá, em seu habitat natural.
Deixar todos os bilhetes, cartinhas, objetos e coisinhas acumuladas. Abrir mão de roupas e utensílios que não se usa há anos, ''mas podem ser úteis em algum dia'' é um super exercício de desapego. Assim vai seguindo a mudança, abrir mão de objetos e coisinhas acumuladas até aqui vai ficando mais fácil a cada instante. Deixar ao longo do caminho aquilo que não é essencial, manter tão somente aquilo que se pode carregar sozinha é tornar a vida mais leve. Filosofia de vida.
''Eu gosto de ler os encartes, ver a ficha técnica e todas as informações que vêm no cd...'' (A.L., filósofo)
'' Como assim vai dar todos os seus cds???? Não, eu não consigo, preciso vê-los e tocá-los'' (C.A., jornalista)
Maria Cláudia Cabral
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