quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Sessão de cinema



Acaso não construímos dia-a-dia nossas próprias tragédias?


"Não me conheço com certeza suficientemente bem para saber se poderia escrever uma verdadeira tragédia; porém me assusto só de pensar em tal empresa, e estou quase convencido de que a simples tentativa poderia destruir-me”.
(Goethe)


Fazer tudo como se fosse a primeira vez
Eu vi pichado naquela parede fria
Porque cada livro, filme ou tato
É um achado inverossímil
Nessa dormência.

Pra quem já quis mil peças
Numa mesma imaginação,
Pedir uma presença é dureza.
Agora eu só sei que o acaso
Tem suas verdades incontestáveis.

Esses lugares-comuns da existência,
As brotoejas de um corpo carregado,
São os poucos espaços que ainda possuo.
Talvez tudo seja só um passado
Que continua afetando meus pulsos
Por ser o que me sustenta.

Cada cena daquele espetáculo
É um pedido de carência.
E eu já tenho tudo, menos satisfação.

Acostumei-me a pedir sem cobrar
E a receber sem recibo.
Na verdade eu nunca o quis,
Mesmo clamando na janela de Deus
Um gole dessa piedade sem adjetivos.

Maria Clara Dunck.
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Então é natal...

É incrível como as coisas mudam rápido. Num dia você dorme com sua cidade apagada e com a aparência rotineira. No outro, ela já está toda enfeitada com ornamentos cafonas e luzes douradas. É nessa hora que você se dá conta que o final do ano chegou e que o Natal está prestes a acontecer. Nada mais normal se essas mudanças não acontecessem no meio de outubro, mais de dois meses antes do dia 25 de Dezembro.
A cada dia parece que o “clima de natal” chega mais cedo. Já em outubro pode-se perceber que pessoas estão mais felizes. Os adultos estão ansiosos com o depósito da primeira parcela do 13º salário e as crianças já estão com suas extensas listinhas de presentes prontas. Mas, certamente, os mais radiantes com a chegada dessa data tão especial são os comerciantes.
Afinal, é nesse período que a maioria dos trabalhadores está recebendo um salário a mais. Um rendimento que teoricamente deveria ser “extra”, mas que quase sempre está comprometido há tempos. Isso devido às dívidas acumuladas no ano (o que de certa forma inclui as despesas do natal passado) ou aos gastos previstos para o natal que está para chegar.
Mas por que é no natal a época em que o comércio está mais movimentado? Para responder a essa pergunta podemos utilizar inúmeras explicações históricas e religiosas, as quais não nos interessa abordar nesse artigo. O mais sensato é pensarmos no caráter capitalista do natal. Assim como todas as outras datas comemorativas, o comércio e a cultura consumista construíram o evento como sendo uma desculpa para se gastar. Para você fazer parte da sociedade comum, você tem que dar presentes e consumir uma ceia farta nessa época. Ou então você é um alienígena e está fora do jogo.
Mas para tornar o natal a melhor data para o comércio brasileiro, foi preciso forçar um pouco mais a barra que nas outras datas. Para chegar a esse ponto, apelou-se para a força da família. O natal é uma data especificamente familiar. Não se ouve falar de grandes festas ou comemorações públicas na noite de natal. O dia 25 é uma data para se passar com os familiares. Família que é feliz de verdade tem que distribuir presentes entre si e passar a noite se fartando de comida.
A indústria cultural norte-americana tratou de criar o estereótipo das comemorações natalinas. Famílias reunidas num momento feliz, comendo o tradicional peru, cantando músicas natalinas e distribuindo os presentes depositados em baixo do frondoso pinheiro enfeitado com artefatos decorativos. Tudo isso sob a neve do inverno rigoroso.
Como bons subdesenvolvidos que somos, tratamos logo de copiar esse modelo, ainda que com algumas adaptações. A família reunida permanece, agora acrescida de alguns parentes mais distantes. O peru não é tão tradicional, mas também continua firme, podendo ser trocado pelo Chester®. As músicas natalinas se resumem ao CD da Simone lançado há décadas, mas que insistem em nos atormentar anualmente.
A distribuição de presentes também acontece. Entretanto, agora possui o nome de “amigo secreto”, uma maneira econômica de se distribuir presentes, já que normalmente pelo menos um item todo mundo recebe. O pinheiro decorado é bem semelhante. Porém, agora ele deixa de ser natural e passa a ser sintético. Alguns até com pontinhas de tinta branca simulando neve. A decoração permanece, agora acrescida de luzes piscantes coloridas que, às vezes, até tocam alguma música. Por fim, por incrível que pareça, até a neve nós tentamos copiar. É uma anomalia que no Brasil, em pleno verão tropical, as lojas enfeitem suas fachadas com espumas brancas que, acreditam os comerciantes, dão efeito de neve. Tudo extremamente cafona. Alguns lugares ainda forçam seus empregados a usarem gorros e jaquetas semelhantes ao que o Papai Noel usa. Isso em lugares em que ar-condicionado só existe na sala do chefe. Não consigo entender o motivo de tal escolha. Tudo bem que o Papai Noel é do pólo norte, mas será que não existem maneiras mais criativas de se representar o natal? Com certeza sim. Basta usar um pouquinho da criatividade.
Paulo Henrique dos Santos.
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Ser Inteiro e Não pela Metade



Por que não namoramos nossos melhores amigos?


''...somos feitos de silêncio e sons,
tem certas coisas que eu não sei dizer''
(Lulu Santos)

Boa parte das pessoas passa a vida a procurar a metade da sua laranja, a tampa da sua panela e outras expressões que igualmente denotam que somos apenas parte de algo que se completa só com outro. A busca fica cada dia mais difícil, porque no momento em que procuramos no outro a complementação de nós mesmos, projetamos nele nossa outra metade.
Sim, a meu sentir – e não estou sozinha – as metades que devem se encontrar são nossas metades. Porque todos nós somos feitos de antagonismos e complementaridades. Somos sim e não, somos côncavo e convexo, somos razão e emoção, posto que a metade racional não existe sem seu antagônico-complementar: metade emocional. Ao encontro harmonioso destas nossas duas partes, chamo de 'Ser Inteiro'.
Ser inteiro pressupõe aceitar, com todos os paradoxos inerentes ao encontro das metades que nos complementam e que são parte de nós. Ser inteiro é integrar-se pelo auto-conhecimento e pelo amor-próprio. Ao ser inteiro, interajo com o outro, troco, compartilho, entrego-me. Ao ser inteiro, aceito o outro tal qual ele é, e não espero que seja um modelo idealizado por mim, não tento encaixá-lo a todo custo em algo que existe só porque criei.
A simples busca de nossa metade ideal, já é problema na certa, mas a confusão não pára por aí.
Pois bem, nesse ponto começa o maior dos paradoxos. Temos amigos do gênero oposto (ou do mesmo gênero), com os quais temos uma relação de entrega total, de aceitação plena. Com tais amigos somos inteiros, não tememos mostrar nosso lado sombra, nem sorrir, nem chorar. Não tememos ligar no meio da madrugada, só para contar a grande besteira que fizemos e ouvirmos ''eu te avisei!”. Tais amigos nos conhecem do avesso, nos protegem, nos acolhem, brigam conosco, nos aceitam como somos – com todos os nossos defeitinhos chatos.
Por alguma razão não os vemos com olhos de sedução. São como irmãos - é comum dizermos. Por que não nos apaixonamos por eles? Por que não os namoramos? Se são eles que nos ouvem quando mais precisamos, que nos acompanham – mesmo de longe – nos bons e nos maus momentos?
Nosso melhor amigo é nosso parceiro perfeito. Está conosco haja o que houver, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, nas baladas e nos sábados chuvosos em frente ao dvd. Não raras vezes, é nosso companheiro nas viagens, nas histórias – são nossa história. Somos inteiros com eles, eles são inteiros conosco. Gostamos de nossos amigos do jeitinho que eles são, sem tirar, nem pôr.
E me perguntarão ''Como poderia namorar meu amigo?''. Respondo, usando a resposta de um grande amigo ''E quem quer namorar inimigo?''
''Com você sou eu mesma, sinto-me inteira'' (Amiga ao amigo, 03 de Dez de 2006)
''Não me sinto à vontade para falar algumas coisas com meus amigos homens, com algumas amigas, eu falo'' (Amigo à amiga, 03 de Dez de 2006).
Maria Claudia Cabral.
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Mídias ambientais também têm seu preço.


Cada vez mais cresce o número de jornalistas e outros profissionais que se interessam pela divulgação de temas ambientais, a conscientização ecológica alastra-se pelo universo da comunicação. No entanto, as mídias são verdadeiros problemas para os profissionais que pensam ambientalmente.
As pautas ambientais sofrem todo tipo de resistência, retaliações e, como não poderia deixar de ser, divergências entre os modelos implantados pelas cartilhas econômicas ortodoxas que reproduzem a mentalidade de países industrializados. As mídias ambientais produzem uma quantidade enorme de informação, mas acabam sendo obrigadas a pesquisá-la, traduzi-la, estudá-la, para reduzir tudo isso e enquadrar no espaço pequeno que lhe é disponibilizado na grande mídia. Quando conseguem um espaço maior, esse é disputado a tapas com as pautas convencionais nos cadernos de economia, ciência, agricultura, entre outros.
A falta de mídias especializadas deriva de um modelo jornalístico que acompanhou toda evolução do capitalismo. O público precisa de informações rápidas, úteis e em rápido prazo. Não há mais o interesse por avaliação de temas e por isso os profissionais da comunicação não tem mais o compromisso de educar e conscientizar. E quando nos referimos a uma mídia especializada, como são as mídias ambientais, estamos, em primeiro lugar, nos posicionando como "educadores". Aqueles que formarão quadros para liderar, estimular e orientar jovens para assumir responsabilidades e representar as futuras gerações.
O jornalismo diário é essencial para o mundo de hoje, principalmente para oferecer empregos para todos os que estão aí, saindo das faculdades e procurando oportunidades para estarem na mesma pirâmide social que o atual modelo de consumo aspira. No entanto, é necessária a existência de mídias especializadas, principalmente as ambientais, elas procuram no seio das redes eletrônicas a estratégia para suas organizações, a fim de implantar um modelo econômico sustentável.
Para quem ousa participar, ou mesmo incentivar veículos de comunicação especializados, há muito a se fazer, uma vez que todo modelo que vigora foi construído sobre uma perspectiva ultrapassada, com as necessidades de consumo, velocidade extremamente rápida e capacidade de se obter a matéria prima extraída predatoriamente do meio ambiente.
A mídia ambiental é uma potencial forma de fomentar uma economia sustentável. Seus profissionais muitas vezes pagam e, na maioria dos casos, com voluntarismo, boa vontade, compromisso e abnegação para verem a consolidação e a democratização da informação ambiental. Tudo isso porque os amantes da ecologia acreditam que só uma revolução sócio-ambiental pode dar uma nova chance à sobrevivência e a boa vivência da humanidade.

SEU JEITO DE OLHAR

Com um olhar mais atento
Verá o Planeta em agonia
Verá a vida ameaçada
Verá destruição da ecologia
Verá água e ar contaminados
E entenderá a minha teimosia

Q seu olhar, atinja seus sentimentos
Q sua reação seja de preservar
Q assumas compromisso pessoal
O que foi destruído ajude a recuperar
Q o meio ambiente seja protegido
Q seja cidadão, o seu jeito de olhar
Para que as flores não sejam de papel
arvores não deixem de existir
Para que a vida prevaleça no amanhã
A consciência precisamos difundir
Para que os animais não sejam dizimados
Precisamos urgentemente reagir

Sem amor não haverá sensibilidade
Sensibilidade é condição para o agir
Sem o respeito à diversidade da vida
O equilibrado, não vamos conseguir
Se o homem não parar para pensar
Que aguarde
O pior está por vir

Virgilio - Ecologista

Eula Lôbo
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quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Editorial nº 6 : Acho que estamos todos muito sentimentalistas....

Essa edição da Arca Mundo vem para refletir sobre os sentimentos humanos: existência, poesia, felicidade, simplicidade, preconceito, inclusão. Num ensaio mais subjetivo que informacional, ovacionamos nossos sentimentos, particulares e universais. Numa expressão bonita e sincera! A cada edição, trilhamos um caminho, e que assim seja sempre!
Pedimos desculpas pelo atraso da sexta edição! E sem mais demoras: leiam-nos!

Camila Pessoa.
Copyright Arca Mundo. Todos os direitos reservados.

Uma homenagem ao mestre Fernando Pessoa

Vou me limitar essa semana a divulgar um poema do mestre Fernando Pessoa que tem me consumido a mente há alguns dias. Provavelmente alguns já o conheçam, mas vale a pena ser reafirmado e relembrado aqui por ser uma expressão única e maravilhosa de sobriedade diante das angústias humanas acerca de nossa existência. É realmente, uma expressão muito mágica e, ao mesmo tempo muito lúcida de uma noção que acho que todo ser humano, em algum momento de sua vida tem de si e talvez, de sua insignificância, diante das coisas do mundo e de sua finitude....

      TABACARIA

    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

    Janelas do meu quarto,
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
    (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
    Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
    Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
    Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,
    E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

    Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
    Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

    Falhei em tudo.
    Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
    A aprendizagem que me deram,
    Desci dela pela janela das traseiras da casa.
    Fui até ao campo com grandes propósitos.
    Mas lá encontrei só ervas e árvores,
    E quando havia gente era igual à outra.
    Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

    Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
    Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
    E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
    Gênio? Neste momento
    Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
    E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
    Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
    Não, não creio em mim.
    Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
    Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
    Não, nem em mim...
    Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
    Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
    Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
    Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
    E quem sabe se realizáveis,
    Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
    O mundo é para quem nasce para o conquistar
    E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
    Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
    Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
    Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
    Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
    Ainda que não more nela;
    Serei sempre o que não nasceu para isso;
    Serei sempre só o que tinha qualidades;
    Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
    E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
    E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
    Crer em mim? Não, nem em nada.
    Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
    O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
    E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
    Escravos cardíacos das estrelas,
    Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
    Mas acordamos e ele é opaco,
    Levantamo-nos e ele é alheio,
    Saímos de casa e ele é a terra inteira,
    Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

    (Come chocolates, pequena;
    Come chocolates!
    Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
    Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
    Come, pequena suja, come!
    Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
    Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
    Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

    Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
    A caligrafia rápida destes versos,
    Pórtico partido para o Impossível.
    Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
    Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
    A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
    E fico em casa sem camisa.

    (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
    Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
    Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
    Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
    Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
    Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
    Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
    Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
    Meu coração é um balde despejado.
    Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
    A mim mesmo e não encontro nada.
    Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
    Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
    Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
    Vejo os cães que também existem,
    E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
    E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

    Vivi, estudei, amei e até cri,
    E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
    Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
    E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
    (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
    Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
    E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

    Fiz de mim o que não soube
    E o que podia fazer de mim não o fiz.
    O dominó que vesti era errado.
    Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
    Quando quis tirar a máscara,
    Estava pegada à cara.
    Quando a tirei e me vi ao espelho,
    Já tinha envelhecido.
    Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
    Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
    Como um cão tolerado pela gerência
    Por ser inofensivo
    E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

    Essência musical dos meus versos inúteis,
    Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
    E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
    Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
    Como um tapete em que um bêbado tropeça
    Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

    Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

    Sempre uma coisa defronte da outra,
    Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
    Sempre o impossível tão estúpido como o real,
    Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
    Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

    Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
    E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
    Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
    E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

    Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
    E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
    Sigo o fumo como uma rota própria,
    E gozo, num momento sensitivo e competente,
    A libertação de todas as especulações
    E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

    Depois deito-me para trás na cadeira
    E continuo fumando.
    Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

    (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
    Talvez fosse feliz.)
    Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
    O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
    Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
    (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

    Álvaro de Campos, 15-1-1928
Camila Pessoa
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A FELICIDADE

Com força e com vontade
A felicidade há de se espalhar

Há de mudar os homens
Antes que a chama apague
Antes que a fé se acabe
Antes que seja tarde.

(Ivan Lins e Vitor Martins)

Esta semana fui surpreendida por uma indagação curiosa. Um amigo especial queria saber com que livros fiz minha receita de felicidade. Isto porque quando nos conhecemos, afirmei que me considero uma pessoa feliz. Haverá receita de felicidade?

Refleti um tiquinho sobre o meu sentido de felicidade. Acho que qualquer coisa que eu diga vai soar muito clichê. O fato é que, sendo ''clichê'' ou sendo acadêmica, a noção de felicidade passa pela noção de amor, portanto, farei uma viagem indo do teórico ao empírico, e quem quiser que conte outra.

Falar de felicidade é lembrar de Ortega y Gasset, filósofo espanhol do século XX. Acho fantástico como ele coloca o amor no centro das coisas, como mola propulsora. Acho interessante o seu ''eu sou eu e minhas circunstâncias'', que eu diria ''eu e minhas possibilidades''.

Falando em possibilidades, não poderia deixar de citar o ótimo documentário, que assisti recentemente: ''Quem somos nós?'' Afinal, é ciência - portanto ainda estamos na academia - física quântica, a física das possibilidades e a nossa capacidade de criar realidade. O meu sentido de felicidade passa pela idéia de escolha, de optar por criar a felicidade dentro e em torno de mim.

Mesmo não sendo afeta a livros de auto-ajuda ou fórmulas prontas, citaria algumas frases, que embora bastante clichês – não há como fugir - são verdadeiros ''mantras sagrados'' no caminho da felicidade que criei para mim. Ei-las:

1. A dor sempre vai existir, o sofrimento é opcional; Eu escolhi aceitar a dor, quando inevitável, mas escolhi também não sofrer. Como diria Roberto Shinyashiki, ''Ter problemas é normal, ser derrotado por eles é opcional''.

2. A felicidade depende exclusivamente de mim, de mais ninguém.

Essa é uma de minhas prediletas, porque realmente acredito que nossa felicidade afetiva não está nas mãos de outra pessoa, seja amigo, namorado, marido, seja quem for. A responsabilidade por nossa felicidade está em nossas mãos. Não é justo transferí-la para os ombros de outro.

3. Sou responsável por minha vida, por minhas escolhas, por meus sentimentos e por meu comportamento diante da vida. Só posso mudar a mim mesmo. Mudar a mim mesmo é escolher mudar minha atitude diante da vida, e isso já é um passo bem grande (e difícil).

Aqui vale uma observação: Sou dona das minhas ações, das minhas escolhas, mas não sou Deus. Isto significa que não tenho o controle de tudo a minha volta, ao contrário, tenho governabilidade sobre nada, salvo minha forma de reagir aos fatos. Isto é muito importante, ajuda a evitar a ansiedade. Tendo feito minha parte, aguardo os acontecimentos.

4. Ninguém dá aquilo que não tem. Amar-se é fundamental, só então posso realmente amar outra pessoa.

5. Sou minha melhor companhia. Se eu não me acho uma boa companhia, como posso esperar que os outros gostem de estar comigo?

6. Faço coisas inéditas, extraordinárias, ao menos uma vez por ano.

Resolvi fazer coisas extraordinárias no Reveillon de 2003. Decidi que no Reveillon de 2004, em lugar de estar na frente da TV assistindo a queima de fogos no Rio, eu correria a São Silvestre. Preparei-me durante todo o ano de 2004, e no dia 31 de dezembro, lá estava eu – uma ex-sedentária – correndo os 15km do percurso da 80ª São Silvestre. Cruzei a linha de chegada, depois de 1h53min da largada, exausta, na presença de milhares de pessoas que aplaudiam os grandes vencedores daquela prova. E entre eles, estava eu, que venci minhas próprias limitações. Acreditei, investi e realizei algo extraordinário. Dali em diante tenho feito isso sempre, ao menos uma vez por ano realizo algo inédito em minha vida.

5. Auxiliar os outros é uma grande forma de ser feliz. Vale a pena experimentar.

O que mais posso dizer? Não sei, sinceramente sou Maria Cláudia, não sou Dalai Lama. Não sou perfeita, estou longe disso. Ainda tenho um longo caminho a percorrer. Estou percorrendo o caminho, ''porque o caminho só existe quando a gente passa''.

''Acho que a 1ª vez que nos falamos, você disse que era feliz.''(Um amigo, 20 de novembro de 2006).

"Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito". "Ela é feita de pequenas coisas". (Roberto Shinyashiki)



Maria Claudia Cabral

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Caminhada



Das privações que a vida pode impor ao ser humano, creio que a incapacidade de andar é uma das piores. Depender de alguém ou de algo, além das próprias pernas, para locomover-se fisicamente nesse mundo que parece não ter fim é avistar um fim de perto: o olhar facilmente se perde quando não se pode mais andar para fingir ou concluir que ainda se tem muito chão para vislumbrar. Mas, penso comigo, que talvez o incapacitado seja aquele que tem pernas e não as usa: tem fôlego e não age, pensando que o pôr-do-sol finda qualquer resquício de esperança, mesmo que de fato não exista.

Por isso, ou por nada, vi a necessidade de transformar em poesia o andar nosso de cada dia e todas as suas farpas adquiridas ao longo do caminho; ou pelo menos uma tentativa, pois para o bom brasileiro, ou não, talvez o melhor slogan seja caminhar é preciso, pelos olhos de outros poetas: os de nós mesmos.

Caminhada

Hoje eu aprendi o significado do “caminhar para espairecer”

Que sempre me disseram entre rugas,

Mas nunca pude compreender.

Porque minhas pernas inquietas, chatas e estranhas

Não conseguem mais suportar toda a angústia

De quem pouco tem a ansiar ou desistir.

Pois eu sei, mais do que meus próprios ossos,

Que andar é negociar com os sentimentos,

E eu ando.

Então descobri, que além de escrever

Pra estragar e consertar,

Posso caminhar e respirar o orvalho.

Então direi aos interessados

Que as lágrimas vieram da madrugada,

Das pessoas que entoavam preces nas esquinas,

E das que paravam em fila dupla pra fumar um cigarro.

E eu que não sabia que às vezes é preciso parar...

Eu cantei e esqueci que o dia veio

Pra que eu pudesse ver claramente a realidade.

Deitei e esperei a noite chegar

Pra sonhar aquilo que eu não consegui ver.

Insista, me disseram, nesse eterno espairecer.

Ontem eu insisti, e por volta das 20 horas eu morri.

Volto inadequada, insana e veloz pra lhe dizer

Que não dura, aqui, a hipocrisia,

Pois ela é cansativamente esmiuçada em segredo.

Ordem, calma e regresso.

No outro dia é preciso acompanhar a volta,

Mesmo que tardiamente:

Já que nem mesmo no caos eu me acho

Devido à minha incapacidade de lidar com o incoerente.

Maria Clara Dunck.

Copyright Arca Mundo. Todos os direitos reservados.

A representação dos negros nos quadrinhos

Pensar os quadrinhos no Brasil, bem como a questão racial no país, é uma tarefa complexa e delicada, sempre margeada pela problemática da exclusão e consubstanciada pela indiferença. No âmbito da discussão racial a problemática toma contornos maiores, tocando questões como direitos humanos, transformação e redimensionamento histórico das formas de preconceito, a apropriação simbólica de um grupo, o negro, pelo outro, o branco – esse outro portador dos meios e canais de difusão comunicacional – capaz de construir hegemonicamente não somente o discurso sobre si mesmo e demais grupos, mas apropriar-se da realidade social e histórica, redimensionando-a para criar simbolicamente um universo moldado pelo seu olhar.

Em relação aos quadrinhos, a questão da marginalidade, menor em dimensões pragmáticas, mas também importante nos limites desse editorial, configura-se igualmente no universo da apropriação discursiva: as mídias surgidas em fins do século XIX e difundidas durante o século XX são vistas pela maioria como instrumentos de massificação, moldadas dentro da lógica da utilidade econômica, diluídas em termos de profundidade teórica e submetidas ao compromisso com a lógica do prazer demandada pelo capital, em detrimento do compromisso com o conhecimento. Essa visão academicista e textualista sofreu transformações à partir da década de 70, com o advento da semiótica. Á partir daí, a imagem alcançou novo patamar na compreensão dos processos da produção de sentido, antes limitada à análise do texto.

O binômio quadrinhos e representação do negro pode ser bem percebido no Brasil em Ziraldo e Maurício de Souza. Maiores produtores de quadrinhos no país desde a década de 70, conseguiram superar as sérias restrições a quem tenta sobreviver de HQ's por aqui, criando universos significacionais de relações extremamente complexas. No primeiro, destacam-se as histórias da Turma do Pererê, publicadas à partir de 1960. Do segundo, a Turma da Mônica, de 1970.

A Turma do Pererê é um universo mitológico criado por Ziraldo, claramente ancorado no nacionalismo modernista. Herdeiro da tradição lobatiana, também influenciado por outros nomes do modernismo – a exemplo de Mário de Andrade – o autor foi capaz de discutir a realidade nacional de forma extremamente crítica através de um universo lúdico infantil, protagonizado por Saci-Pererê, mito do folclore brasileiro redimensionado pelo autor e inserido em um universo cujo epicentro espacial é a Mata do Fundão. Aí, Pererê convive com um grupo composto por duas negras (além do próprio Pererê), Boneca-de-Piche e Mãe Docelina e dois Índios, Tuiuiú e Tininim, além de um grande grupo de animais típicos da fauna brasileira humanizados e batizados com nomes como Moacir (jabuti), Galileu (onça) e Alan (macaco). Os dois brancos presentes no núcleo principal de personagens, o caçador de onças Compadre Tonico e seu companheiro Sêo Neném, são dimensionados com características típicas de vilania, apresentando-se como antagonistas no universo em questão.

A Turma da Mônica de Maurício de Souza, universo quadrinizado mais popular do país, apresenta características bastante distintas da realidade forjada por Ziraldo. As quatro personagens principais, Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão, são construídas através de estereótipos e características muito bem definidas, de onde é extraído o humor nas tiras. A primeira, dentuça e com enorme força física, sempre carrega um coelho de pelúcia azul. È freqüentemente almejada por planos infalíveis que sempre falham de Cascão e Cebolinha, o primeiro com aversão a água, o segundo, troca a letra R pela letra L ao falar. Magali, companheira de Mônica, tem um apetite voraz e insaciável, sem, com isso, engordar. A habilidade com que Maurício constrói estórias baseadas nos estereótipos supracitados é notável.

Além das personagens centrais, destaca-se ainda um enorme núcleo de personagens secundárias, acionadas em momentos muito específicos, normalmente quando é necessário para a história formar grandes grupos. Servem, portanto, como um universo de reserva. Nesse núcleo secundário, encontram-se diversas personagens que se encaixam no que podemos chamar de minorias: O mudo Humberto, o japonês Nimbus, os negros Jeremias e Pelezinho (esse já não publicado), a deficiente visual Dorinha e o cadeirante Luca, estas, personagens recentes.

O que se vê portanto, é uma configuração base seguida por Ziraldo e Maurício de Souza, centrada na utilização de um núcleo central de protagonistas que atua como agente causal. Entretanto, Ziraldo, ao fazer a Turma do Pererê, tomou o cuidado de adequar suas personagens à realidade étnica do país, enquanto Maurício de Souza fez justamente o contrário. As minorias de Maurício de Souza são mera propaganda social, enquanto a turma do Pererê assume contornos muito maiores. Jeremias só é utilizado quando são necessárias personagens secundárias que dêem continuidade à cadeia de acontecimentos da trama. A função dele na Turma da Mônica, nesse sentido, é muito precisa: ser negro. Ele não tem nenhuma característica destacada ou excentricidade como as outras personagens, serve somente para o autor se mostrar politicamente correto. Obviamente, isto não deve ocorrer de maneira proposital. Entretanto, é mais uma daquelas lacunas quase imperceptíveis, involuntárias e mesmo inocentes, em que percebemos que a problemática do racismo e da exclusão está muito longe de seu fim.

Cesar Henrique Guazelli.

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terça-feira, 21 de novembro de 2006

Editorial nº 05: Para discutirmos....


Diariamente somos surpreendidos com acontecimentos que nos levam a pensar, a refletir e a discutir nossa realidade.... A quinta edição da Arca Mundo discute.....

sobre cinema de ação, sobre amores e descobertas, sobre arte, sobre liberdades...

Não só descobrimos as liberdades que a Internet nos proporciona, como também fomos descobertos. Amanhã (22/11) será votado um projeto de lei que controla o acesso de todos os brasileiros à Internet. Foi lançada a enquete: e você? O que pensa sobre isso?

O que eu espero, companheiros, é que depois de um longo período de discussão, todos concordem comigo!” Winston Churchill

P.S: Gostaríamos de parabenizar de maneira pública e solene, nosso colaborador Paulo Henrique dos Santos, pela exibição de seu primeiro documentário, Além dos Outdoors!!! Um filho que finalmente nasceu e só tem a dar mais e mais frutos!!!

Camila Pessoa.

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A Menina e o Gato.


...Era uma vez, num reino muito distante, uma Menina levada e inteligente. Ela sabia de tudo e sobre tudo perguntava. Se alguém sentava ao seu lado, ela logo indagava o nome, a profissão, a cor favorita. Tão esperta a menina, que ninguém resistia a uma boa prosa com ela.

Um dia a Menina viu um gato. Ela nunca havia tomado contato com gatos. Ficou tão curiosa, tão intrigada. Interessou-se imediatamente por compreender o gato. Queria conhecer o que é um gato. Aproximou-se devagar, num misto de vontade e receio. Os gatos mordem? Eles podem machucar? - perguntava a criança a si mesma

O gato a olhava fixamente, parecia adivinhar suas intenções. Observador e cauteloso, o gato a olhava. Ela sorria, gostava da idéia de entender o gato, se é que é possível entender gatos.

Ela se moveu lentamente em direção ao gato, foi estendendo sua mãozinha pequena e curiosa. O gato a olhava. Ele se aproximou um pouco mais, parecia também querer conhecer a criança. O gato conhecia meninas, mas talvez – nunca se sabe o que passa na cabeça de um gato – quisesse saber sobre cada menina. Quis, talvez, conhecer essa Menina. Quem sabe?

Tranqüilamente ele se aproximou um pouco mais. A Menina, não entendendo o gato, com olhos fixos, retrocedeu um tiquinho, mas ela queria muito desvendar o mistério do gato. Então, aproximou-se só um pouquinho. Ele permaneceu.

O gato aproximou-se um pouco mais. Ele chegou a tocá-la, ela saltou e soltou um gritinho – misto de susto e de alegria – por sentir finalmente o gato na ponta dos dedos. Ele assustou-se, recuou.
Ela já não era mais a mesma menina, havia tocado o gato, embora não entendesse um gato. Queria tocá-lo novamente, queria sentir um pouco mais sua textura, seu cheiro, se pudesse, queria provar seu gosto! Queria saber o gato, como saber um gato?

Foi então que, cuidadosamente, aproximou-se de novo – pulsavam, ainda e mais, o medo e a vontade de sabê-lo. A Menina lançou-se em direção ao gato. Ele, imediatamente, ronronou algo que ela não pôde compreender. Ela assustou-se. Ficou ali parada sem entender. Olhinhos fixos no gato. E o gato, olhos fixos nela, virou-se e lentamente saiu. Ela chamou o gato e ele a olhou com desdém.

A Menina até aquele momento não conhecia tal indelicadeza e não entendia o que havia feito de errado. Não quis mais brincar com gato. Também virou-se e saiu batendo pés, olhinhos marejados por causa do gato-bobo. Humpf...

Sua mãe tentou, sem sucesso, explicar-lhe que gatos são assim mesmo, arredios às vezes, mas são muito boas companhias. Disse que ela devia rir da reação do gato, porque quando um gato permite que uma menina o conheça e presta-se a conhecer a Menina, são os melhores amigos de tooodo o mundo. Seu pai, por outro lado, dizia: - Esqueça esse gato, minha filha, ele é só mais um gato-bobo. Que tal brincar de outra coisa. Há tantas outras coisas interessantes no mundo, porque você cismou com esse gato?

A criança teimosa continuava lá, tentando saber o gato.

'' Desarme-se. Amar faz bem para a alma, para a pele e para o cabelo.'' (Uma jornalista, em 17 de novembro de 2006).

'' O que é amar?'' (A criança, hoje e sempre)

Maria Claudia Cabral.

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Na tentativa de controlar

Projeto de lei no Senado prevê controle da Web brasileira

O Senado brasileiro discute na quarta-feira, em reunião da Comissão
de Constituição e Justiça, um projeto de lei que prevê o controle do
acesso à internet, a exemplo do que se pretende estabelecer na China,
um dos países que mais controla o uso da rede.

Conforme o projeto, cujo relator é o senador Eduardo Azeredo, do PSDB
de Minas Gerais, qualquer usuário precisaria se identificar quando
acessasse a internet ou qualquer outra aplicação como o acesso a e-
mail ou a criação de blogs.

Dessa forma seria possível monitorar precisamente o que cada usuário
faz quando está online, sabendo que sites visita ou que tipo de
arquivos está baixando da rede, como músicas ou filmes.


Além de extinguir a privacidade, o projeto prevê fazer do acesso não
identificado crime passível de reclusão de dois a quatro anos.
Provedores de acesso ficariam responsáveis pela veracidade dos dados
cadastrais dos usuários e seriam sujeitos às mesmas penalidades.

Dados cadastrais

Para obter o acesso à internet, os usuários precisariam fornecer
dados pessoais comprovados como nome completo, endereço, número de
telefone, RG, e CPF aos provedores de acesso.

A favor do projeto estariam administradoras de cartões de crédito e
bancos. Procurada pela reportagem, no entanto, a assessoria de
comunicação da Febraban - Federação Brasileira dos Bancos, afirmou
que não irá comentar o projeto por enquanto.

Os provedores de internet são contrários à medida, que estabeleceria
um novo encargo burocrático para os provedores. Analistas também
criticaram a justificativa do projeto, de extinguir a privacidade dos
internautas brasileiros, já que suspeitos de crimes digitais podem
ser rastreados e identificados por meio do seu endereço IP (internet
protocol), número que é atribuído a cada usuário no momento em que
ele acessa a internet.

Agência Estado de Notícias

Discutamos, portanto, a noção de liberdade, de comunicação independente que colocamos em debate com a criação da Arca Mundo. Um dos maiores motivos pelo qual buscamos a Internet para a publicação de nossos pensamentos, foi, justamente, a não necessidade de patrocínios, financiamentos, ligações políticas, censuras, limites... É claro que essa ausência de limites é, ao mesmo tempo aliada a “causas” como a nossa e a pessoas que praticam crimes como rackers e pedófilos. Uma das grandes conseqüências inevitáveis do mal estar na civiliazação: tudo o que é novo, útil, acaba sendo subvertido de todas as formas, para todos os fins.

O fato é que os grandes monopólios de comunicação, aliados às formas de governo sempre tiveram o controle absoluto dos registros de informação, do que é colocado em pauta na sociedade, e agora, de alguma forma, isso está sendo corrompido, impedido. Longe de mim pintar as empresas eios im pintar como grandes viltoa todos os fins.como grandes vilãs ou colocar a culpa “no sistema”. Acontece, que um dos últimos meios livres, novamente, está na iminência do controle. É legal que seu sigilo telefônico ou bancário seja violado ou controlado diariamente? Por que seria legal, portanto, que seu acesso à Internet o seja? Deve-se, sim, procurar uma saída que evite os crimes cometidos via web, e todos sabem que não é essa necessariamente. Como na ditadura, as censuras foram estabelecidas para nos salvar da ameaça comunista, agora, querem nos controlar, para nos salvar da ameaça online. Sim, é um exemplo extremista, mas por que não sermos exagerados agora?imes cometidos via web, e todos sabem que ns do Mal Estar na Civiliazaraticam crimes como rackers e ped

Posso estar fazendo um alarme trivial, mas a maioria esmagadora da sociedade, simplesmente não sabe como o seu direito de comunicar e de receber informações é violado diariamente, sem que ninguém perceba. Alguém, alguma vez, pensou que poderia reclamar à Globo pela porcaria dos filmes ridículos e repetidos que passam, no mínimo, cinco vezes por ano em sua programação? Ou questionar por que os jogos de futebol são comprados para serem exibidos sempre depois da porcaria da novela das nove, fazendo com que você vá dormir de madrugada, se quiser comparecer ao estádio na quarta feira? Alguém se interessou ou buscou pesquisar qual seria o melhor plano de tv digital para a sociedade? Alguém se manifestou a favor do diploma para os jornalistas, quando queriam abolir sua necessidade para o exercício da profissão? As pessoas simplesmente acompanham passivamente o que acontece, sem ter a noção de que a cada dia são mais podadas e impedidas de se expressar!

Sejamos todos a favor de maneiras que impeçam atitudes criminosas, mas que não limitem mais esse meio de comunicação. Não sabemos no que isso vai dar, mas declaro aqui a minha indignação!

Camila Pessoa.

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Decifrador de sonhos


Não há motivos coerentes pra avivar os gestos frágeis

Do ser que se vê passional mas se faz cego aos apelos dos sonhos.

Engraçado como é indiferente seus atos falhos e seu pobre caráter

Frente a uma palavra que confessa a todos o que não precisa a mim dizer...

A mecha de cabelo que interrompe nossos olhares sinceros

Mente ao solidificar na ausência a espera de um sinal augusto:

Todas as mortalhas sabem que a minha busca é pelo que me abala

Nas gigantes manhãs em que nada se dá ao sol que o acordar de bem.

Sempre cri no talvez, o odiando mais que amar a quem se idealiza...

De alguém que, conscientemente nunca amou,

Forjado nesse mundo de esperas e de pestes loucas e verossímeis:

A minha quase inquietação se metadiza pois é vã na morte e na vida.


Maria Clara Dunck.

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O Cinema de Ação em cinco filmes


- O Casal Osterman, de Sam Peckinpah

- Bala na Cabeça, de John Woo

- Sonatine, de Takeshi Kitano

- Eleição, de Johnnie To

- Miami Vice, de Michael Mann

São cinco filmes em questão, e quatro deles giram em torno de um. Não por um motivo qualquer, O Casal Osterman de Sam Peckinpah, é o filme base para uma reflexão maior sobre o cinema de ação contemporâneo, pois é dele que vem a rica fonte de influências que se estruturaram para a criação desse gênero que hoje é cultuado por muitos, e tem cineastas de primeira linha como representantes. Peckinpah é mesmo o maestro da ação e da violência, por que ele simplesmente enxergou no registro cru e em slow motion da violência, uma vertente bem mais profunda, e que poderia dar ao gênero uma maior austeridade e possibilidade de reflexão do mundo em que vivemos bem maior do que o cinema vinha fazendo até então. Em O Casal Osterman, Peckinpah coloca um casal as voltas com agentes soviéticos disfarçados, nesse que é um filme de espionagem com a ação sendo construída aos poucos. Ou seja, O Casal Osterman é um filme de ação, e não um filme com cenas de ação, certo de que ação não diz respeito apenas às seqüências de luta, tiroteios, explosões (ainda que tudo esteja lá). Peckinpah irá antes de qualquer outra coisa, priorizar o cinema, o homem, e a selvageria inerente a ele.

De Peckinpah passamos a John Woo, especificamente de sua fase chinesa em meados da década de oitenta. Woo surgia como a grande revelação do cinema de ação quando fez Money Talk em 1980, e depois dele, fez ao menos três filmes memoráveis como The Killer, Bala na Cabeça e A Outra Face. Fato é que a fase criativa de Woo termina, a partir do momento em que ele adere ao cinema de ação conservador americano, diluindo bastante a fórmula que fez dele um mestre na China. Em Bala na Cabeça, Woo reúne o estilo operístico de um Sergio Leone com a violência crua a lá Peckinpah, para criar uma sinfonia da brutalidade e da guerra, num filme que se as vezes se leva a sério (mas sempre nos momentos certos) em outras, injeta humor e ironia pra colocar o gênero da “ação” num patamar que vai além da simples diversão como nos filmes do Michael Bay, por exemplo. Um elogio ao espetáculo do caos, do sangue, da violência, mas nunca simplesmente da violência pela violência. Woo aqui, não soará gratuito. A violência brutal, é antes ferramenta para a não-violência, e em Bala na Cabeça, a idéia é exatamente essa.

Eis que surge então Sonatine, de Takeshi Kitano. Kitano não é um reciclador do cinema clássico de ação como bem foi John Woo. Ele opta por uma outra abordagem do gênero, abordagem essa que mais tarde irá se tornar a marca desse que é um dos grandes autores do cinema contemporâneo. Sonatine é o anti-filme-de-ação por excelência. Primeiro por que todos os códigos do gênero estão lá: tiroteios, explosões, pancadaria, humor, máfia, gangues e tudo mais. Mas Kitano opta pelo existencialismo antes de tudo. O minimalismo, o tempo, os pequenos momentos, são valorizados antes da ação. É ai que ele se aproxima de Peckinpah, pois ambos querem abordar o ser-humano antes de qualquer outra coisa, e a violência é apenas um reflexo, uma faísca. Mas se Peckinpah primava pelo balé, pelo espetáculo da violência, Kitano prima pela frieza. A violência aqui vem crua e simples, sem qualquer outro artifício. Mas Kitano faz com Sonatine – e também com seu próximo filme, Hana-bi – um filme de ação visceral e contemplativo. Uma gratificante obra-prima.

Voltando ao presente, hoje temos Johnnie To como o maior expoente desse gênero no cinema contemporâneo. To volta a levar a ação para o lado operístico da coisa, das lutas coreografadas, do sangue aos borbotões. Mas ele, unindo o que havia de melhor em Leone e Peckinpah, criou uma assinatura sua. Em Assassinos de Elite ele demonstra por exemplo, com a metalinguagem, de onde veio tudo o que conhecemos hoje sobre o cinema de ação. E aqui ele consegue trazer Sergio Leone de volta à vida com a orquestração perfeita da ação e da violência em seu filme. Desde o uso das gruas, das frases de efeito e tudo o mais. Mas To quer fazer um cinema só seu. É ai que ele chega então com Eleição. Filme de ação por excelência, Eleição retoma a idéia das pequenas ações, para um grande filme de ação. Lá não há a carnificina referencial de Assassinos de Elite, mas sim uma serenidade na colocação de violência em cena. O que To quer antes é dissecar a relação dos personagens, num jogo complexo, pra depois nos revelar o espetáculo da violência, que surge em poucas cenas, mas não menos que impressionantes. Election é parte de uma trilogia que To vem criando (a segunda parte já foi lançada) buscando reestruturar o olhar diante dos gêneros, reciclando códigos já batidos e criando os seus próprios. Por isso, marquem bem esse nome: Johnnie To.

Retornamos então à América, criadora do cinema de ação, mas estagnada, presa em seus próprios signos do gênero. Hollywood que enriqueceu com o filão do cinema de ação que ela mesma criou, teve que importar os diretores orientais que renovavam o gênero pra se manter. Mas a grande revolução dentro do gênero veio de um americano nato: Michael Mann. Ele depois de filmes de ação mais clássicos como Fogo Contra Fogo, começa a partir de Colateral, uma experiência radical dentro do cinema de ação. Essa radicalização chega ao ápice em Miami Vice, filme assumidamente de ação, mas que na sua subversão ainda injeta doses fortes de romance. Mas Mann quer mesmo radicalizar no seu pintar daquele filme. Usando diversos tipos de câmeras e lentes, Mann faz um cinema de ação plástico, que prima menos pelo roteiro que pelas opções estéticas que ele utilizou numa tentativa sublime de revigoração de um gênero batido, mas não morto.

Interessante, vendo todos esses filmes, perceber a multiplicidade de formas e possibilidades que se tem dentro do cinema, mais ainda dentro de um gênero como o da ação. Isso por que ainda deixei de fora cineastas fortes e relevantes como Tsui Hark, Willian Friedkin, Bong-Joon Ho e Andrew Lau. O cinema de ação prova assim que pode-se sim ser contundente e profundo, pode-se questionar a imagem, o cinema, o homem, todos eles em contato direto com a mais primitiva das leis da natureza: a violência.

Rafael C. Parrode

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A primeira noite depois da tarde



No meu último texto eu fiz um desabafo sobre o como é ruim se sentir apenas mais um homem mediano no mundo. E concluí dizendo que estava tomando providências para que as coisas mudassem. Para minha alegria, ontem a noite tive indícios que estou seguindo o caminho certo.

Na exibição pública do “Além dos Outdoors”, meu primeiro documentário, tive uma prova concreta de que as coisas estão mudando. Deixei de ser um simples espectador para estar no centro das atenções. E devo confessar que isso nunca havia me acontecido antes. Falando em termos cinematográficos, deixei de ser um mero figurante pra me tornar um dos protagonistas.

Produzir esse filme foi um dos maiores presentes desse ano. Por causa dele eu deixei um emprego cômodo, mas desinteressante, conheci gente que nunca imaginava conhecer e tive a oportunidade de aprofundar laços com outras que eu já conhecia, mas que por puro preconceito e ignorância não tinha grandes vínculos. Esse filme me abriu a mente em diversos aspectos.

Para quem está acostumado com aplaudir, receber palmas é estranho. Fica a dúvida se aquelas palmas são sinceras ou puros gestos mecânicos que a boa educação preza. O mesmo acontece com a infinidade dos sorrisos recebidos. Se pelo menos 10% forem sinceros já fico feliz.

Em nenhum momento da minha vida eu me senti tão observado. Minha auto-estima também nunca esteve tão boa. Mesmo assim, ainda não foi possível levantar a cabeça pra encarar as centenas de olhares e nem falar o discurso que já estava pronto há anos na cabeça. Pra não passar uma vergonha ainda maior, é melhor falar pouco e coisas básicas, mesmo que fúteis.

É estranho se sentir querido. É estranho ver que pessoas deslocaram um pouco a rota de seus dias para poder lhe prestigiar. No fundo eu ainda acho que não mereço isso. No fundo eu ainda acho que eu sou uma fraude e que posso provar esse fato. Admito que pensei que aquele momento acabaria assim que as luzes do cinema fossem acesas. Mas quando sua rotina é marcada por pessoas especiais, a sensação se prolonga um pouco e vai até uma mesa de pit-dog. Isso tudo são resquícios de um homem que ainda não decidiu que rumo tomar.

Paulo Henrique dos Santos.

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Onde mora um artista


Um portão foi aberto para mim. No muro, o número 1031 bem grande. Veio me receber simpaticamente. Era uma figura familiar e ao mesmo tempo cheia de coisas novas, digo, de artes novas aos meus olhos.

Naquela manhã de sábado eu podia sentir o calor... do sol que estourava no céu e de algumas pinturas em seu aconchegante atelier. Quando entrei naquele cômodo ajeitado por ele, já avistei um montante de trabalhos. Alguns, envelhecidos pelo tempo, carregados de pó. Outros, com cuidado, ele envolveu em um fino plástico com o intuito de conservá-los. Um em especial trazia as seguintes palavras: “depois de lerem esta história, vocês terão de concordar que o destino das pessoas já vem traçado antes mesmo de nascer ou, até mesmo, antes que alguém tenha sonhado com a existência de tal ser”. Eu podia até não comungar da idéia, mas tinha que admitir a profusão de texto e imagem.

Tudo estava numa desordem exata, que o localizava com rapidez em meio aos papéis, pincéis, tintas, luvas, telas vazias, todas ansiosas pelo seu toque. Caminhei um pouco mais e de repente tive um embate com um enorme quadro. A pintura era tão sinestésica que qualquer pessoa teria gosto em tocá-la. Parecia veludo, mas não tinha aparência muito suave.

Ele insistia em me ver à vontade. E eu estava. Tanto que comecei a vasculhar cd’s e dvd’s deixados em cima de um balcão. Encontrei uma discografia dos Beatles e outros achados. Ali também estavam filmes de Almodóvar, Bergman, alguns do neo-realismo italiano e, o mais incrível, X-Men – O Confronto Final! É claro que era fascinante.

Encontrei esculturas, telas retocadas de dois em dois anos. Havia três desenhos recentes que, segundo ele, envolviam toques concretistas, dadaístas e outras tendências, ambas misturadas com a sua maneira lúdica de fazer o que mais ama. Era mesmo um meninão. Se atrevia a fotografar com Nikon. Usava tripé. Não ficou pra trás na era digital. Ele sabia operar fotoshop e coreldraw!

Não havia dúvidas. Tentava fazer de tudo. Em linguagem mais apurada, alguns conhecedores o chamaram de versátil. E era de fato. Aproveitei aquele sábado de uma maneira diferente. Queria ver, sentir o gosto estético que o lugar exalava. Estranho, não é mesmo?!

Diante de mim, se apresentava um artista tímido, mas que no fundo queria ser visto através de sua arte, de seu trabalho. Na verdade, acho que não queria fama pra hoje ou pra amanhã. Ele certamente fazia tudo porque não conseguia deixar de se movimentar diante das coisas da vida. Tinha muita sensibilidade pra isso. Sua arte é do aqui – e – agora, entretanto não se contenta em ser efêmera. Prova disso é que nem por um segundo pude me desfazer daquele ambiente, das suas telas, dos seus desenhos-esculturas, 1031, 1031... Nesse número estava alguém desenhado antes mesmo de nascer! Aí não podia mesmo ser diferente, eu confesso!

Maraísa Lima.

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terça-feira, 14 de novembro de 2006

Editorial nº 4 – Novidades!!!


Publicamos nossa quarta edição com grandes novidades! Uma, é a chegada de mais uma colaboradora, com uma nova editoria que eu tenho certeza que vai agradar a todos! Literatura!!! A idéia era publicar seus poemas, mas a moça foi além! A nova editoria irá explorar obras de escritores amadores e conterá, também, ensaios, contos, análises e indicações de obras literárias! Seja bem vida à nossa Arca de misturas, Maria Clara Dunck!!!
Além disso, temos outro motivo para celebrar! Nosso blog está crescendo,devagar e sempre e conquistando, a cada dia, novos horizontes. Esta semana fomos cadastrados e passamos a fazer parte da lista de divulgação de blogs do site maisbrasilia.com. A Arca Mundo se encontra na página 24, do item Blogs!!!
Esta edição traz a crítica do filme A Criança, dos irmãos Dardenne; um texto muito útil à convivência dos sexos, sobre TPM; uma reportagem sobre o Festival Goânia Noise e o texto de estréia sobre Literatura! Uma quarta edição fresquinha para ser degustada com muita satisfação!

Publicamos nossa quarta edição com grandes novidades! Uma, é a chegada de mais uma colaboradora, com uma nova editoria que eu tenho certeza que vai agradar a todos! Literatura!!! A idéia era publicar seus poemas, mas a moça foi além! A nova editoria irá explorar obras de escritores amadores e conterá, também, ensaios, contos, análises e indicações de obras literárias! Seja bem vida à nossa Arca de misturas, Maria Clara Dunck!!!
Além disso, temos outro motivo para celebrar! Nosso blog está crescendo,devagar e sempre e conquistando, a cada dia, novos horizontes. Esta semana fomos cadastrados e passamos a fazer parte da lista de divulgação de blogs do site www.maisbrasilia.com. A Arca Mundo se encontra na página 24, do item Blogs!!!
Esta edição traz a crítica do filme A Criança, dos irmãos Dardenne; um texto muito útil à convivência dos sexos, sobre TPM; uma reportagem sobre o Festival Goânia Noise e o texto de estréia sobre Literatura! Uma quarta edição fresquinha para ser degustada com muita satisfação!
Camila Pessoa.
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Não só literatura, não só ela.

"A verdadeira filosofia nos permite descobrir isto ou aquilo; a literatura, tudo". (Gonçalo Armijos Palácios)


Teorias e mais teorias não se cansam e, provavelmente, jamais se cansarão de dissertar a respeito do que é, enfim, a literatura. Do entretenimento ao engajamento político, do teatro grego antigo à literatura do absurdo, também suas funções na sociedade são amplamente discutidas. Então, se levarmos em conta todas as suas manifestações ao longo da história – engavetadas em suas poéticas e escolas – , teremos tanto a dizer, que o propósito de explorarmos a própria literatura e, conseqüentemente, seu foco principal, que são as obras literárias, será perdido, como não raramente acontece.

Seria muita pretensão, um sinal de ignorância e causaria polêmica tachar essa editoria dedicada somente à literatura ou como dedicada à literatura. Não posso, seja por incapacidade ou por sentir impossibilidade, excluir todo o restante das editorias dessa publicação de um viés literário, já que a linha que separa as ciências humanas é tênue. Também não poderia afirmar que aqui estaria tratando apenas da mais pura literatura, desvinculada de tudo que dela necessita ou de tudo que a auxilia, seja no campo das artes, do jornalismo, da filosofia, da história etc.

Refiro-me à literatura num grau mais elevado, numa abordagem mais específica e no papel de protagonista. Ensaios, poemas, críticas, divulgações, análises etc. Serão aparatos cruciais para unir o entretenimento, a linguagem, o conhecimento e a exploração de uma arte tão apreciada.

É fato que uma citação é só uma citação ou uma poderosa arma quando retirada do seu contexto e jogada num ambiente qualquer, passível de diferentes interpretações. E uma citação é um aperitivo ou um símbolo da impossibilidade de se expor, num determinado contexto, uma obra inteira. Talvez a epígrafe citada aqui, publicada em um artigo de jornal sobre a importância da literatura, possa parecer pretensiosa e contraditória, atribuindo um crédito maior à literatura, em detrimento da filosofia. Essa citação poderia extrapolar esse entendimento, supervalorizando a literatura, diante das outras artes ou meios de comunicação, porque, aqui neste espaço, a literatura não tem limites. Tampouco terá para o leitor.
Maria Clara Dunck.
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MULHER À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS (a TPM)


Sabe aqueles dias que você acorda diferente? Primeiro aquela SAUDADE não se sabe de quê ou de quem... Aquela MELANCOLIA, vontade de colo. Em seguida você se dá conta de que NINGUÉM está disposto a te dar colo, que você é muito, muito SOZINHA. Na verdade, sente-se DESENGONÇADA, FEIA, DESINTERESSANTE e... G-O-R-D-A...

A vontade de se encolher na cama embaixo das cobertas, com janelas e cortinas fechadas toma conta e até a voz do Bial no Fantástico faz você sentir vontade de chorar. E você choraaaaa... CHORA muito. Chora por tudo, até no Jornal Nacional. Sente-se uma pessoa inútil, nunca fez nada pela fome na África, nunca será glamourosa como Gisele Bündchen, jamais terá o amor do George (Clooney). Enfim, você é a mais infeliz das mulheres, a mais miserável, a mais sofredora, a mais detestável, a mais chata. Sua auto-estima está em baixa.

De repente TODOS os seus problemas foram colocados sob uma LENTE DE AUMENTO gigantesca. E a mais insignificante das pedrinhas no caminho, torna-se um OBSTÁCULO INTRANSPONÍVEL. Ninguém a ama, seu chefe não gosta de você – aliás, por que mesmo ele fez aquele comentário sobre seu cabelo? Estão todos contra você e ficam te olhando de cima a baixo.

E quando a olham você se pergunta: ' Porque tá me olhando, palhaço?' Se irrita profundamente com qualquer comentário que lhe dirijam, e ai de quem não lhe dirigir a palavra, porque você não admite ser ignorada. Afinal, quem essas pessoas idiotas pensam que são para a tratarem assim, porra? Num crescendo surge uma vontade aterradora de ESMURRAR o flanelinha que te perguntou se podia olhar o carro e você só não esmurra porque aquela vadia do trabalho – loura, para lá de oxigenada – passa na sua frente e desvia seu pensamento para uma cadeira elétrica – lugar onde ela devia estar para aprender a não atravessar o seu caminho. E aquela vaca ainda se diz sua melhor amiga.

É nesse momento, quando está a ponto de ELETROCUTAR sua verdadeira amiga e companheira, que você se dá conta de que ELA chegou. Sim, meninas... A TPM está com vocês, a TPM está comigo, ela está com quase todas nós, invariavelmente uma vez por mês, e haja Ponstam, Atroveram, Buscopam e semente de linhaça (acreditem é bom demais). Haja amor e paciência por parte de nossos namorados, maridos, amigos, mães, pais, irmãos, colegas de trabalho, etc, etc, etc...

O melhor de tudo é saber que, se ela veio, já podemos dormir tranqüilas e voltar a ser as mulheres maravilhosas que sempre fomos. Lindas, competentes, talentosas, amorosas e seguras de si.

''Quase não me reconheço quando estou assim, quero me encolher embaixo das cobertas até tudo isso passar'' (Uma mulher de 37 anos, ontem).

''Eu choro por tudo, odeio o mundo e o mundo me odeia, quero gritar e brigar com todos à minha volta. Nem eu me suporto'' (Depoimento numa das dezenas de comunidades do Orkut dedicadas ao tema TPM).
Maria Claudia Cabral.
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