


“Ele (Che Guevara) disse, em mais de uma vez,que o mais importante são os valores do ser humano. Ele demonstrou que o mais importante é a dignidade do ser humano. Uma pessoa pode ter muitas riquezas. Se não tem dignidade e solidariedade, nunca poderá desfrutá-las”.
(Aleida Guevara – IV Congresso Nacional do MST – 2000)
Mais uma vez os valores e, nesta feita, acrescentei, nas palavras da filha de Che Guevara (ele, uma das imagens mais comercializadas da atualidade), a dignidade.
Semana que passou, nossa amiga Cláudia suscitou, dentre outras coisas, a nossa relação com as pessoas e as coisas, sobre as posses... e, nestes mesmos dias, acompanhei, insólito, no sinal de trânsito de uma quadra do Plano Piloto, um Andarilho (na ignorância de seu nome, escrevo com A maiúsculo), lentamente caminhando naquele sol de duas da tarde, descalço e imundo, com a mão extendida, quase em silêncio, de carro em carro... No mesmo sinal, o “Precinho” do Carrefour, distribuindo panfletos, para que os “bananas” que ainda acham que tem lugar mais barato para comprar frutas e verduras possam mudar de opinião...
O Andarilho e o “Precinho” (diga-se de passagem, um trabalhador), lado a lado... o primeiro, com sua história de vida marcada em seu rosto, em seus cabelos endurecidos, em seu odor, em seus pés descalços e, como reflexo, no “medo” e “desprezo” daqueles que lá estavam, parados naquele sinal de transito... o segundo, com seu rosto escondido atrás de uma fantasia, com o rosto, os olhos, os cabelos sem sabermo-los mas, antagonicamente, recebido com sorrisos...
Um rosto e um corpo, visíveis, escancaradamente visíveis e que assustava e/ou enojava... um rosto e um corpo, invisíveis, escondidos, que atraía sorrisos e leves buzinadas (em Brasília)...
Nossa solidariedade posta à prova; todos nós, naquele sinal de trânsito, não nos conhecíamos... Não fui abordado pelo Andarilho. Não posso dizer aqui, como baluarte da decência humana, que abriria (já estava aberto) a janela de meu carro, falaria com ele, lhe daria uma moeda (quase sempre as tenho no carro) e lhe desejaria boa sorte... Mas, com certeza, posso dizer que a grande maioria de nossas opiniões passaria em branco, mal olharia nos olhos daquele Andarilho... entretanto, talvez, procuraria identificar quem estava dentro daquela fantasia de “Precinho” do Carrefour...
Que relação complexa... como falar da solidariedade, sem nos esquecermos da indignação aqui mencionada semana passada e, também, sem compreendermos o individualista mundo das relações de força e de poder do mundo capitalista que, historicamente, hierarquiza a dignidade humana? Quantos de nós (e de outros) diríamos, com convicção quase religiosa, que este Andarilho o é porque o quis assim e que o “Precinho” é o retrato de um jovem (?) trabalhador que está correndo atrás de seu ganha-pão, honestamente? Diríamos que o Andarilho é um vagabundo, que não aceitaria um trabalho em troca de um prato de comida e que o “Precinho” está lá, construindo seu futuro, começando por baixo, entregando panfletos de uma grande rede de Supermercados?
Dignidade! Como sermos solidários sem sermos dignos de valores que nos façam verdadeiros homens e mulheres? Eis minha reflexão... eis minha pergunta...
Parafraseando Lênin: Dignidade, Indignação e Solidariedade! Eis valores que me dão sentido à vida...
Vida Longa...
Obs.: por mim, mas principalmente pelo Andarilho e pelo “Precinho”, não deixem, se um dia utilizarem em seus caminhos e veredas, essas poucas palavras, de lembrarem-se de nós...
Marcelo ''Russo''
“(...) A vocês que me fizeram escravo-de-Jó, escutem bem: / ainda vou brincar de roda / ainda vou contar estrelas / ainda vou ensinar vocês a / semear plantações e construir casas, / ainda vou ensinar vocês a mentir / e a fingir de verdade” (Sujeito Finge-dor – Maurício Roberto da Silva – 1996).
Passamos por uma semana difícil aos nossos sentidos e aos nossos sentimentos. Se fôssemos buscar explicações sobre o que aconteceu em São Paulo, iríamos a muitos, mas muitos lugares diferentes: alguns iriam para o campo da engenharia de aviação, outros iriam para o campo da política, outros tantos caminhariam para o campo da economia, existiriam aqueles que optariam pelo caminho da espiritualidade e por aí vai... por aí iriam...
Assim a grande maioria de nós caminha... sempre procurando por explicações, quer dando-as, quer literalmente procurando-as, perguntando aqui e ali... É longo o caminho do conhecimento.
Mas foi uma semana em que vi(mos) tanta coisa que, inclusive, não resisti a assistir ao fantástico de hoje e não me surpreendi com o formato e com o conteúdo. E continuei, nestes poucos minutos de telespectador, a caminhar e ver possíveis caminhos.
Vi(mos), nestes dias, as idas e vindas de reportagens do editor que trata seu público de “Hommer Simpson” (seja lá como se escreva o primeiro nome deste personagem de desenho americano).
Vi(mos) pessoas falando ao telefone, com amigos, familiares e o repórter e o microfone ali do lado.
Vi(mos) pessoas procurando lugar para seu sofrimento e, lá estava, o repórter e seu microfone e, pior ainda, suas perguntas: “Você está sofrendo?”.
Vi(mos) a tragédia virar notícia sob todos os ângulos: dos prédios ao lado, próximos ou não, das casas, as testemunhas oculares e suas filmagens de celulares. Vi câmaras escondidas e gestos de todas as formas, bem como as matérias e seus apresentadores bem ensaiados.
Não pretendo analisar (muito longe de mim) aquilo que, em jornais, crônicas, matérias, entrevistas etc. nos foi bombardeado durantes esses dias. Fatos e contra-fatos foram e voltaram.
O que mais me chamou – novamente – a atenção nesta semana, nas conversas, nas notícias, nos comentários ao lado, foi a solidariedade e a indignação. Não que tenham sido explícitas nestes meios, talvez mais a segunda, mas ainda assim de uma maneira um tanto quanto “fabricada”
Lembro que, durante muito tempo, a solidariedade me era resumida com o “doar aquilo que não lhe serve mais ou que não irás utilizar”. Era neste núcleo que se ensinava a arte de ser solidário. Lembro-me, também, que a indignação era o tu opinares sobre algo que não concordavas e, assim, te deixava indignado.
Com o tempo, uma pergunta sobre esses dois valores não parava de me bater à porta: não seriam essas definições algo um tanto quanto individualista? Eu me indigno com o que ME incomoda e sou solidário quando ME sobra algo!?!?
E, caminhando e procurando respostas, aprendi que são dois valores absolutamente inseparáveis: a capacidade de nos indignarmos só me passou a ter sentido e significado quando acompanhada da postura de solidariedade. E minhas atitudes pretensamente solidárias só puderem ser verdadeiras quando a indignação falava-me com todas as letras, sons e espiritualidade... claro que aos meus olhos de aprendiz.
Uma tragédia me leva, resgatando esses dois valores, a pensar que temos tanto o que nos indignar e com tantos a sermos solidários. E o temos que ser todos os dias...
Desejo muita paz de espírito a todos os envolvidos com essa tragédia, porque muitos serão seus caminhos... e desejo que possamos continuar nosso difícil caminho por aprendizados tão caros à humanidade (ou mulheranidade) todos os dias: nossa capacidade de indignação e de solidariedade...
Vida longa!
Obs.: não que eu acho que tudo isso venha a ser citado por aí afora... mas se citar, pode dizer que fui eu, ok? Dê crédito...
“Sustenta a palavra d’homem, que eu mantenho a de mulher”
(Milton Nascimento)
Vida Longa...
Obs.: Recadinho de sempre, ok? Se for usar o texto, lembra de mim... e se for cantar Milton Nascimento também...
Dias destes, limpando meu computador, encontrei essa pérola do Galeano e que aqui reproduzo:
"Às suas costas, um abismo. À sua frente e aos lados, o povo armado acossando. O quartel A Pólvora, na cidade de Granada, ultimo reduto da ditadura, está a ponto de cair./ Quando o coronel fica sabendo da fuga de Somoza, manda calar as metralhadoras. Os sandinistas também deixam de disparar. Pouco depois, abre-se o portão de ferro do quartel e aparece o coronel agitando um trapo branco./ - Não disparem! O coronel atravessa a rua./ - Quero falar com o comandante./Cai o lenço que lhe cobre a cara:/- A comandante sou eu - diz Mônica Baltodano, uma das mulheres sandinistas com comando de tropa./ - O que?/ Pela boca do coronel, macho altivo, fala a instituição militar, vencida mas digna, hombridade de calcas compridas, honra de farda:/- Eu não me rendo a uma mulher - ruge o coronel./ E se rende.".
As palavras de Galeano bastariam, mas não vou me furtar a seguir refletindo.
Pois bem, homens (e mulheres) de plantão, o que me encanta numa mulher? Sua capacidade de lutar. E não falo apenas desta (árdua) luta cotidiana contra os valores machistas do dia-a-dia. Não falo das mulheres que aparecem no PEGN como empresárias que venceram os obstáculos das profissões “típicas de homens”. Elas não precisam desta minha manifestação. Falo das “Mônica’s Baltodano’s”...
Por que gosto das mulheres? Porque existem mulheres assim... comandantes! Que olham o mundo com justiça e com equilíbrio. Com carinho e força. Com sinceridade e malícia. Mulheres do povo, sem criar nem cair nesse nojento glamour da mídia, da música, das artes e do esporte, com suas rainhas e princesas... Mulheres sempre plebéias, sempre do povo e no povo, sempre comandantes...
Preciso falar mais alguma coisa? Então tá! VIda Longa às mulheres comandantes!!!!
(Obs.: desculpem a ausência na semana passada... foi mudança).
<:0)
Ops! E não esqueçam! Respeitem as viagens deste escriba. Se for usar o texto (afora as palavras do Galeano), não deixe de me citar, ok?
Marcelo ''Russo'' Ferreira

“Se você já me explicou, agora muda de assunto.
Hoje eu sei que mudar dói, mas não mudar dói muito... muito”
(Oswaldo Montenegro)
Uma frase fantástica, anda que a intenção de seu autor tenha, talvez, sido apenas impessoal, meio psicológica, meio subjetiva...
Mas o grande lance desta música de impetuoso Oswaldo Montenegro é o que instiga.
Mudança: o que nos leva a querer mudar? As opiniões dos grandes meios de comunicação (‘bora combinar, esse papo de imprensa imparcial é tremenda balela)? nossas perdas parciais? Namoro, casamento, noivado na porta da igreja... Ou talvez um curso superior que não era o que imaginávamos...
Temos sempre a referência que a mudança é algo absolutamente particular... e, na verdade, na verdade, o grande desafio da humanidade é a mudança (que, aqui, classificaria como transformação) coletiva... e a mudança (transformação) é o grande desafio... e essa, com certeza, dói, mas deve doer muito.
O que nos levaria, o que nos colocaria dispostos a mudar e, principalmente, mudar coletivamente?
Semana passa (aliás, retrasada, pois semana passada não mudei), comentei sobre a nossa infância, sobre as crianças zapatistas e sobre o V Congresso Nacional do MST e, de passagem, a reunião de cerca de 1.000 crianças Sem-terrinha participando deste encontro.
O que elas querem? Ah, sim, elas querem... Por mais que nossos meios de comunicação induzam nossas mentes no sentido de dizer às nossas opiniões (?) que elas são levadas a querer, mas não querem por vontade própria... O que elas querem?
Elas querem um mundo de todos, em que nossos sangues não sejam explorados, em que nossas idéias não sejam exploradas, em que nossos sonhos não sejam explorados... em que nossos homens, mulheres, crianças e idosos, em que nossos trabalhadores e trabalhadoras não sejam exploradores... em que nossa natureza não seja explorada... em que nossos sentimentos não sejam explorados...
Ok... parece discurso de esquerdista perdido no mundo depois da queda no Muro de Berlim... Mas o muro caiu e a pergunta fica: O que nós realmente queremos mudar????
Bom... eu, particularmente, mudei o canal de televisão... Não assistirei ao Fantástico hoje... E tu? Pretendes mudar? Bom, se no início, mudar te fizer, de alguma maneira, doer... hummmm... eu acho que começaste bem...
Minhas mudanças me doem a algum tempo... Mas como é bom tirar a atadura... E isso é fantástico!!!!
Marcelo "Russo" Ferreira
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