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terça-feira, 3 de julho de 2007

Habitus


''Eu quis saber onde fica
O coração
E acabei com uma
Estranha sensação
Vai ver, vai ver
É mudança de estação''
(A Cor do Som)







Hábito, do latin habitus. 1. Inclinação por alguma ação, ou disposição de agir constantemente de certo modo, adquirida pela freqüente repetição de um ato. Escrever na Arca Mundo, já é hábito. Todas as terças-feiras abro a Arca, ainda que não tenha preparado nada, ainda que não tenha idéia do que escrever. É, virou hábito!





Escrever, compartilhar idéias, rechear esta página. Não dá para ficar sem, é como se não tivesse escovado os dentes pela manhã. Fica um incômodo sem nome, sensação de que falta algo. E cá estou eu, como de hábito, preparando-me para escrever e, decidindo, se publicarei o texto 'esperançoso' que prefere a alguns ou se crio algo novo, a partir de alguns comentários deixados aqui.




Vence a reflexão, baseada não só no comentário 'é um jogo novo, só que insistimos em usar as regras antigas', como também em parte do texto publicado pelo Marcelo na semana passada - 'mudar dói, não mudar dói muito mais'.




Insistir em usar as regras antigas, porque estamos habituados a elas ou porque dão um ar romântico ao evento, pode doer um bocado. Sim, leitores! Eu concordo com o nosso comentarista. O jogo é novo. Os papéis sociais estão sendo revistos há algumas décadas - alguns podem não ter notado - por falta de hábito de olhar em volta - mas estão mudando. Não dá mais para esperar o príncipe no cavalo branco, que a salvará de todas as dificuldades: De torneira quebrada a rombo na conta. Tampouco dá para esperar chegar a casa e encontrar a esposa linda, cheirosa, depilada e com chinelos numa mão e 'bebida de boas vindas' na outra - sem contar o delicioso jantar servido à francesa.




Temos de rever os velhos hábitos, revisitar conceitos, reformular idéias para utilizarmos no novo jogo, as novas regras. Regras que reposicionam nossos conceitos - ou (pre)conceitos de gênero. Preceitos que equilibram interna e externamente masculino e feminino. Afinal, se a idéia é ter autonomia, já não dá para ser sustentada. Se o desejo é a companheira-cozinheira-babá-arrumadeira-beldade, então melhor não esperar dividir as despesas. Não dá para querer que ele lave os pratos e esperar que arrume o varal - a não ser que você pague as contas.
Compartilhar é a palavra de ordem. Partilhar tarefas esquecendo os rótulos. Afinal, se estivesse dividindo um apê com um colega, vocês dividiriam sem rotular o que é tarefa de meninos e o que é obrigação de meninas, não é mesmo?




Mudar dói, como concluiu meu amigo, mas permanecer com velhos hábitos pode custar muito mais que a dorzinha da mudança. Pode custar a felicidade nossa de cada dia. Um brinde ao novo casamento, com suas novas regras!





''Eu que não vou arrumar o varal. Tudo bem que ele lava os pratos, mas varal é coisa de homem...'' (M., 25 anos, profissional liberal).



''Se fosse com uma amiga, não haveria tanta cobrança'' (C., 40 anos, serv.pública).



Esse texto é dedicado a meu primo Tito e Milena - sua noiva - que se casarão em setembro, com o desejo que eles entrem no jogo sabendo que as regras são novas e desejando muita felicidade a ambos!






Maria Cláudia Cabral
Respeite os direitos autorais. Se for utilizar, dê crédito à autora.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Casamento

''Pois sem você, meu tesão
Não sei o que eu vou ser
Agora preste atenção
Quero casar com você...''
(Tetê Spindola)
Aprendemos desde sempre que casamento é para a vida toda, é verdade que com as mudanças do novo século, para sempre já não é todo dia. Além disso, descobrimos com Einstein que tempo é relativo, logo o 'para sempre' pode durar alguns poucos meses ou vários anos. Tudo é negociável. Aprendemos ainda, de tanto ouvir os votos dos noivos na igreja, que casamento é parceria na ''alegria e na tristeza, na saúde e na doença''. No momento do compromisso civil, aprendemos que são deveres do casamento mútua assistência, fidelidade recíproca, respeito e consideração mútuos.
Fico imaginando se a lei é mesmo capaz de obrigar um indivíduo a ter respeito por outro, mas esse não é o objeto deste texto. A verdade é que a reflexão sobre o casamento veio a partir de pergunta que me foi dirigida outro dia: 'se alguém resolve tudo sozinho, porque iria querer se casar?' Fiquei fermentando essa idéia em minha mente por semanas. Por que casar-se nos dias de hoje?
Há quem diga que é a paixão que une os casais, mas paixão não garante nem respeito, nem consideração, muito menos fidelidade. Paixão garante, certamente, encantamento, frio na barriga, mãos suadas, brilho nos olhos e muito prazer - ou não. O capítulo da assistência mútua, consideração, respeito e fidelidade é outro.
Fidelidade, por exemplo, é tema que merece texto próprio. Respeito dá pano para manga. Consideração é um conceito amplo e por isto mesmo, vou simplificar. Sabe quando você está atrasada para aquela reunião importante, esquece a chave dentro do carro, a bateria do celular acaba e o seu cachorro passa mal? Então, é exatamente nessas horas que mais se precisa da manifestão inequívoca da tal consideração e da tal de assistência, que não necessariamente é financeira, como faz crer a lei.
Ocorre que, nestes momentos fatídicos, não se consegue falar com o companheiro em questão, ou ele também tem uma reunião importantíssima, ou ainda - o que é mais grave - está almoçando com os amigos e não pode interromper para lhe estender a mão. Depois de passar por esta experiência uma, duas, três vezes ou dúzias delas, resta claro que, hoje, é cada um por si e Deus por todos.
Muito bem, se é cada um por si e Deus por todos - ou contra todos - se nos momentos de maior sensibilidade e aperreio, virar-se sozinha for a solução, realmente a pergunta procede: para quê casamento? Sigamos, sigamos, cada um por si e Ele por todos, sigamos nos encontrando nos bons momentos - ou até - nas conversas profundas da madrugada. Não esperemos 'na saúde e na doença', porque na hora que a rotina estiver prestes a explodir, creia, se não for a criatividade e uma mãozinha do Lá de Cima, ela vai explodir mesmo e, de repente, estar sentada no meio fio, olhando para o infinito, será a cena final do capítulo.
'' ...e você, por que está sozinha? Imagino que por opção.'' (F. T., Chef de cuisine um dia desses)
'' Antes só que mal acompanhada'' (as sábias avós, sempre).
Maria Cláudia Cabral
Respeite os direitos do autor. Se for divulgar, dê crédito à autora.