quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Sem reconciliação


“Esta limitação me conduz a mim mesmo, onde não me escondo atrás de um ponto de vista objetivo que eu só represento, onde nem eu mesmo, nem a existência do outro, podem mais se tornar objeto para mim.” (Karl Jaspers)


A terra gira em torno do sol
E o sol gira em torno do meu umbigo.
Quem descobriu isso foi Galileu
Dentre diversas fórmulas matemáticas, esquálidas, loucas,
De metáforas...
Mas copernicamente falando,
Eu mesma descobri os parâmetros
Contas, expressões, retas, definições
E todos os palavrões que os matemáticos falam.
Entre arestas e ângulos, no prisma
O ápice do egocentrismo
E do cinismo.

Metais se esbarram nas ruas apertadas
Das cidades invisíveis; meus gigolôs bailam com suas botinas batidas
Em cada plano desse cartesiano:
Nódoas, tumores e protuberâncias...
Minhas pernas andam sem minha permissão
E os pensamentos estão tão desarticulados com a mímesis
Do mundo terreno
Que talvez eu nunca tenha sabido,
Nem através das artes, nem das ciências
O que é real e o que é imaginário.

Quem comanda esse absurdo?
E será que existe alguma semelhança entre os iguais?

Eu tomei três sustos essa noite:
Um gato morreu a tamancadas;
Nas ciências não encontro explicações;
Meu vizinho, meu igual, meu mesmo, meu semelhante
Sussurra letrinhas forjadas de amor profundo
E descarta a dor do outro pois isso não convém,
Repetindo o estribilho chorando...

Então eu canto a mim mesma
Uma cantiga velha de um compositor velho
Que já passou mas ainda não morreu.
E a terra continua girando em torno do sol,
Meus pensamentos giram em torno da lua
E não dou moral da história ao poema
Porque isso não me convém.


Maria Clara Dunck
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Eu Vim do Século Passado...




...E agora é tudo tão estranho, as relações interpessoais são relações de consumo, onde tudo é descartável. As pessoas se encontram, se tocam, se beijam e vão embora numa dança frenética e infinita. É como se tudo não passasse de encontros e desencontros. É como se a vida não passasse de pequenas viagens ao país de Alice.

Observando as pessoas na noite, todas lindas e perfumadas preparadas para a caça incondicional, com caras, bocas, sorrisos, percebo que o objetivo é único...Encontrar alguém, beijar alguém, transar com alguém e ir embora. Na noite seguinte encontrar alguém, beijar alguém e transar com alguém que não se sabe quem e nem nunca se saberá porque não há tempo...As pessoas não se dão o tempo necessário...Beijam sem saber quem estão beijando, se entregam completamente aos prazeres momentâneos embalados a whisky e energético sem saber exatamente onde isso vai dar, e na verdade sabem...Vai dar em nada...Porque não é nada, não significa nada, não há consideração, não há cumplicidade, não há carinho...Não há nada, só o vazio de ir e encontrar alguém, beijar alguém, transar com alguém e de novo. E de novo....

É como um vício...Todos dependentes desse encontro às escuras...Todos dependentes de beijar um/uma desconhecida. Buscando, procurando compulsivamente algo que ninguém sabe exatamente o que é...

...Eu vim do século passado, e olho em volta e surpreendo-me com a inacessibilidade das relações e das pessoas. Ninguém está disponível nem para estar consigo mesmo.
Eu penso me enquadrar – em vão, e a sensação de vazio me leva a questionar este tipo de relação onde não sou nada e o outro não é nada também...

Caramba! Eu sou alguém! Eu penso, eu sinto, eu tenho idéias...Não concebo me confundir com uma massa humana, com pernas e pés e bundas e seios, que serve para alimentar, para saciar a fome e o vazio de um outro ser humano que está igualmente perdido em busca de respostas nessa loucura que é o mundo dos novos relacionamentos descartáveis. Onde tudo começa pelo sexo e termina com o gozo.

É isso! Tudo começa com o sexo e termina com o gozo. Quando o sol nasce, um novo dia uma nova preparação, uma nova conquista...Que começa com o sexo e termina com o gozo...E tudo de novo...E de novo e de novo...Numa roda frenética que não pára de girar, os dias vão passando, os meses, os anos...E quando percebemos... O que fizemos da nossa vida? O que construímos para nós? No dia seguinte estamos sós. A luz do sol mostra nossas imperfeições e realça o vazio interior. A cabeça gira...E mal nos reconhecemos quando nos olhamos no espelho. É possível? É possível ser diferente só por hoje?

Geração de zumbis que se enternece durante o dia encobrindo o abismo interno com trabalho, que se levanta à noite para esconder os buracos da alma com beijo na boca. Com a fantasia de que por 15 minutos podemos ser amados...O prazer, a luxúria...Fantasiados de amor por 15 minutos...E o vazio volta...Ok...’’Mais uma dose...É claro que eu to afim...A noite nunca tem fim’’...É, velho Barão... Barbies e Betty Boops...Mas e eles, são o quê? Caçadores vorazes, não percebem que o vazio não pode ser preenchido na noite?
Maria Cláudia Cabral
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sábado, 24 de fevereiro de 2007

Carrossel do Ser

“...quando algo necessita ser feito e é inevitável, então o faça rápida e eficientemente...”

Maquiavel

Zunido incessante nos ouvidos, meu novo amigo Rossi nas mãos, fumaça no ar... Arrogante, me julgo senhor absoluto de minha existência, a ponto de querer definir meu destino. Como se a muito já não estivesse nas mãos das fiandeiras. Agora pouco importa, assim como os dogmas em que fui criado. Nem me lembro da primeira vez que “o amanhecer e o anoitecer” perderam o sentido. Existir. Talvez, pelas repetições cada vez mais intensas de minhas ambições, fosse necessário punir-me. Mas, a mesma coragem que me impede de antecipar o inevitável ciclo, como num balé pirotécnico, oscilante, revela-se covardia. Ironia que garante a integridade de meu corpo diante das punições merecidas. Inútil. Ainda que fosse punido fisicamente o tempo curaria as feridas. Agora o choque de meus “eus”, antes como um jogo de bolas de gude, agora se perfila a impetuosa catástase das galáxias que brutalmente tentam ocupar o mesmo lugar no espaço. Explosão.

Sou o reflexo dos pensamentos antiexistenciais que me acompanham. Nada com o que se preocupar, ninguém vai perceber a mudança, dado a superficialidade dos relacionamentos humanos e a facilidade de manipular as pessoas. Só vêem o que querem, ou o que é mostrado. Massa de manobra. Basta um sorriso no rosto, ainda que cínico, e lá vai a felicidade em pessoa. As roupas também ajudam. Por fim, o artifício mais eficiente, mesmo com os amigos próximos, as máscaras... É muito desagradável se expor dessa maneira. Ao menos, o papel e a caneta se submetem silenciosamente a tudo que lhes é imposto. Insolidez, êxtase, psicodelia, frustração, euforia, individualismo, anarquia, amor, pudor, tudo.

Como um amálgama, misture: os rótulos, a insolidez, o êxtase, a psicodelia... Uma pitada de humor ácido, com requintes de cinismo gratuito, despeje numa fôrma untada com muita crítica e pronto descrevi-me da unha ao cabelo. Seria alguém capaz de coexistir pacificamente com o mundo sendo constituído por tão inflamáveis substratos? Respondo que sim. Sim, sim. H? Não, o perigo eminente não é cataclísmico. Implosão. Uma batalha interna constante, prestes a me consumir. Presa e predador desse ritual androfágico.

Talvez, se fosse mais ignorante, ou volúvel, ou alienado, ou tudo isso, relevasse o que vejo e que sinto. E nem me importaria em saber qual é a verdadeira provação. Amanhecer? Anoitecer? Poderia ser... deliberadamente feliz. Não o sou. Não consigo me curvar ao bel prazer do vento.

Minha cabeça dói muito, meus olhos parecem querer saltar de minha face. Lembrei-me de um antigo provérbio oriental. “Numa floresta existiam muitas plantas, grandes arvores de caules majestosamente imponentes e de frágeis e numerosos bambus. As primeiras por suas características naturais, viviam isoladas umas das outras, não podiam ficar juntas, os segundos pelo contrario, só sobrevivem coletivamente. Inesperadamente, começou uma tempestade como nunca houvera ali. Seus ventos incontroláveis e violentos pareciam anunciar a chegada de um rei, obrigando seus vassalos a se curvarem. Os bambus se dobravam e desdobravam à vontade de sua mãe, pouquíssimos morreram. As grandes árvores, devido a sua formação, resistiram enquanto puderam, mas a natureza foi mais forte, e ainda assim umas poucas restaram...” De repente, empalideço, embora seja fácil determinar quem são as grandes arvores e os frágeis bambus, a mãe natureza é o ‘sistema’? Quando virá a tormenta?

Chega!!! Não sei! A essa altura posso naturalmente estar delirando, entorpecido pelos meus pensamentos. Entorpecido por mim mesmo. Droga. A mão é inábil, ante a mente. Esta raciocina velozmente, enquanto, aquela lentamente mancha o papel com palavras infundadas. O resultado quase sempre é insatisfatório, fartas idéias, parcos recursos. Esse disparate pode até ser-me útil, potencializando minha visão cubista da realidade.

O zunido se foi. O disparo não se repetirá, por enquanto. O balaço era primogênito, único e deficiente. Paralisia infantil? Pólio? Aproveitarei adiando um pouco mais a única certeza de todos. Quem sabe, antes de encontrar outra munição, encontre algo mais... destrutivo. Ragnarok! Uma alma gêmea.

Adhes Valhala

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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Náuseas

“Existe também a náusea de origem psicológica, como aquela que ocorre quando vemos alguma coisa repugnante. É a forma da consciência subjetiva de dizer que não aceita aquilo.” (Wikipédia)

“eu me sinto triste; mas tomar consciência de meu desgosto é colocá-lo como um objeto a distância de mim. Pois o eu que diz 'estou triste' não é mais, de modo algum, o eu que está triste. Assim o homem está por sua consciência, sempre além de si mesmo. Eis o sentido do 'ex-istencialismo'." (A Náusea – Sartre)

"A náusea seria a sensação física que corresponde a essa contingência. A constatação de que as coisas não são permanentes compromete o ser naquilo que ele tem de substancial. A não-estabilidade do mundo nos dá a sensação de que ele desmorona." (Cauê Ramos - Sartre nos Tópicos)


Neste espaço eu vim pra dar-me conta de mim mesma
Diante do pessimismo fundado em todas as justificativas do medo.
Nivelei-me a cada tumor do cansaço e trouxe o regresso.
Se a grandeza está no que vem após a coragem
Quero reinar o reinado de minhas provações
E compassar todo o peito ao ritmo das razões.

Desvencilhada por algum tempo do único mal que me destrói inteira
Compreendi que nada vem que não venha de maus presságios:
Sentir-se bem é saber que tudo vem que não venha por eternidade.

A sagacidade dos meios que nos convencem é nos ser diferente
Das exclamações pitorescas de nossas próprias atribuições:
Tensões me forçam ver que se vale a pena viver nas naus e embarcações
As náuseas são involuntárias, sujas, asquerosas e temporárias.

Agora os anos podem passar que aqui nada mais reprova ou desaprova
Depois das malhas de um ser perdido em sua própria desmesura
Da vida por alguém não compartilhada.

Maria Clara Dunck
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terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

A Contramão do Mundo ou Outro Sentido Para o Mundo (Parte II)



‘’Prefiro ser essa metamorfose ambulante,
Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante.
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo’’.
(Raul Seixas)


A novela pode terminar, mas o tempo não pára. Seja o nosso próprio tempo, seja o tempo pré-estabelecido pelas sociedades, seja o tempo virtual (?). A única coisa que é certa: o tempo é relativo, assim como é relativa a realidade na qual estamos inseridos.

Talvez estejamos hoje percebendo que as duas dimensões são o que os irmãos Wachowski, brilhantemente nos convidaram a ver em Matrix, sim, Rafael, isso tem a ver com Matrix.

A ilusão de uma realidade criada para nos entreter ou para nos fazer crescer. Uma experiência, um jogo. Esse é o mundo chamado real? Desse jogo, meus caros, só levamos o que aprendemos com ele, as lembranças que temos, os afetos que guardamos/vivemos. Por isso, a casa própria não enche meus olhos; por isso a estabilidade de um maravilhoso salário não me mobiliza. Quero-os, quando acontecerem, mas creiam, não perderei um segundo de convívio com os livros – meus companheiros inseparáveis – com a arte, com as pessoas, para TER bastante dinheiro no bolso ou para TER um conjunto de pedra, que me imobiliza no espaço.

Compreendo que seja muito difícil para a maioria ver a existência dos dois mundos, já que a arena onde se dá a realidade tangível é tão perfeitamente orquestrada, a pressão por nos encaixarmos, nos enquadramos é tão forte... As dores, os amores, os cheiros e odores são tão reais, a necessidade de estar adequado é tão premente. Paredes, prédios são tão palpáveis. Por outro lado, o ciberespaço é fluído e volátil. Difícil tocar essa realidade, ainda que de relance. Parece ficcção científica.

Mas, atenção! O cibespaço é apenas a ‘’dica’’ de que vivemos mesmo numa Matrix, numa ilusão material da qual nada levamos. A vida em duas dimensões é, para aqueles que a percebem; o exercício de viver numa dimensão intangível, onde o toque não acontece pela ponta dos dedos, mas pela energia das idéias, dos ideais, dos sentimentos. É o exercício do desprendimento e superação do mundo material, um fomento para a busca de um novo propósito existencial.

No entanto é ainda difícil entender uma dimensão invisível, imaterial. Há uma tendência a sentir-se só, a acreditar que a essa dimensão nos isola, nos faz solitários, mesmo tendo um milhão de amigos no mundo inteiro. Talvez porque a imagem e a matéria ainda sejam necessárias para validar a existência. Talvez porque ainda vigore a crença de que não estar só é ter alguém ao lado.

Pessoalmente, acho a solidão a dois, assim como a solidão na multidão, muito mais opressora que a solitude, que o simples ‘estar só’. O filósofo alemão Heidegger dizia que estar só é a condição original de todo ser humano, em seu brilhante Ser e Tempo. Nós, leitores, nascemos sós... E assim permanecemos até o ‘’final’’, em que partimos sós.

‘’ Temos que entrar nos vários mundos mas com a idéia de modificar’’ (R, 23 anos).

‘’ ...e o que fazemos com o tempo que se arrasta dentro de nós?’’ (LC, muitos anos mais).


Sobre Cibernética, escrevo de uma próxima vez, Rafael, por hoje vai a dica :
http://www.psicologia.org.br/internacional/ap11.htm

Mais Dicas:

Sobre Matrix
http://pt.wikipedia.org/wiki/Matrix
Sobre Heideger e solidão:
http://www.existencialismo.org.br/jornalexistencial/solideliber.html

Maria Cláudia Cabral
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sábado, 17 de fevereiro de 2007

Tempos Modernos

Não! Esse não é um texto sobre Chaplin, tampouco acerca de seu clássico cinematográfico. Acho que nem seria capaz de tecer qualquer comentário a altura deles. Recolho-me em minha insignificância, optando por temas menos rebuscados. Falarei, então, de minha infância onde tenho o bônus do conhecimento da causa. Como todo menino de parcos recursos, sem uma caixa grande cheia de brinquedos para dominar meu dia inteiro, cresci acompanhado da TV. E adorava sua companhia. Talvez por isso, tenha ‘ficado’ insone. Ou o contrario, será que gostava tanto por causa da insônia? Sei lá. Nem me interessa! O fato é que assistia a desenhos animados, praticamente, o dia todo. Na minha época eles começavam, religiosamente, com o cantar do galo, às seis da manhã. Durante muito tempo, amanheci com o Gato Félix, não aquele tagarela colorido de voz insuportavelmente aguda que reinventaram uns anos atrás. Deliciava-me com o original em preto e branco, ingenuamente psicodélico (naquela época nem sabia que essa palavra existia, muito menos seu significado).

Falando em reinvenções... Alguém, por favor, seria capaz de dizer o que está acontecendo com os desenhos de hoje? É falta de imaginação ou estão simplesmente tentando faturar com os ídolos animados de ontem dos pais assoberbados de hoje? Conseguiram o impossível! Destruíram o supra-sumo dos desenhos animados infantis, Pica-pau (Woody Woodpecker) lançando um trambolho batizado “O novo show do Pica-pau” (The New Woody Woodpecker Show). Este bichinho azul de cabeça vermelha pode ser tudo, menos o passarinho ora sarcástico, ora ingênuo, ora egoísta, ora mentecapto que eu cresci cultuando. Adorava até os poucos episódios em que ele era a maior vítima de suas próprias armações. Eram outros tempos. Eram outras necessidades. Éramos outras crianças. Ainda ontem assisti a outro genérico, “As Aventuras do Picolino”. O original fazia parte do pacote “A Turma do Pica-pau”, hoje nem sei. Aliás, sei que agora tem seu próprio título ao preço de algumas alterações. No original o picolino era quase mudo, ou falava muito pouco, e invariavelmente os episódios tinham na fome o mote central, o reinvento é cheio de diálogos e inovações tecnológicas. Em tempos perdidos ele só queria a última lata de atum de um navio preso no gelo e guardado por um cão bobo e desajeitado, hoje ele faz peripécias por uma placa de energia solar de um campo de pesquisas tecnológicas avançadas (sic!), pelo menos ainda é guardada pelo mesmo cão bobo e desajeitado. Entretanto, o infeliz algoz contemporâneo não é tão engraçado. Antes só de ver o cão o sorriso nascia naturalmente no canto da boca, no reinvento é preciso ficar atento a todas as falas, as piadas não são visuais, são verbais. E pior, às vezes, com a tradução a piada se perde. Pobres crianças! Agora entendo porque o computador é tão interessante.

Tem mais! Infelizmente, assisti ao ‘genérico’ do Scooby-Doo. So-co-rro! Penso que era um ‘genérico’, prefiro crer nisso. Aquilo bem que poderia ser outro desenho, cujas personagens lembrassem o grupo da “Mistery Machine”. Acreditem se quiser, mas no meio de um episódio do ‘Novo Scooby’ aconteceu um show do “KISS” (sic!). KISS e Scooby!? Isso mesmo! Tudo bem que todo mundo sabe que o KISS é o maior projeto empresarial do mundo da música. Mas fazer propaganda no meio de um desenho? Uma banda que teve seu auge da década de 70 do século passado? Aí não! E como se não fosse possível piorar, quando a vilã é desmascarada e presa no carro de polícia, a banda aparece do nada e pergunta para meliante (uma linda adolescente loura, que queria acabar com o dia das bruxas porque seu aniversario coincide com o feriado estadosunidense, moradora de uma fazenda de milho que nem tem idade para votar, mas consegue criar espantalhos robôs – ufa!) quem pagará o cachê do show (sic!). O detalhe cruel é que o prefeito da cidade pode ser visto ao fundo da tela, sem participar da cena. Nesse momento, quase acertei a TV com um copo que tinha nas mãos. Por sorte, o bendito estava quase cheio de precioso café (tomo café no copo, sim, porque não tenho coordenação motora suficiente para manusear aquelas xícaras ‘afrescalhadas’ e minúsculas). Antes que seja mal interpretado, gosto muito do som do KISS, principalmente os álbuns do início da carreira com gravações ao vivo, mas nem por isso eles deixam de ser uma empresa (para céticos), ou um fenômeno mercadológico de grande apelo cultural (para sonhadores). Melhor não me comprometer, afinal, eles também podem ter sido reinventados no novo século. Alguém aí já ouviu falar em “The Doors 21th Century”?

Voltando ao que interessa. Ainda me lembro das lições de moral que a She-ra, o He-man, o Lion (Thundercats) ou o Quicksilver (Silverhawks – esse tinha uma música de abertura, emocionante, cheia de solos de guitarra) ensinadas no fim de cada episódio. Essas lições, definitivamente, moldaram meu caráter. A aventura nunca era gratuita, sempre havia uma motivação subliminar, que ganhava luz no desfecho da história. Certa vez, o príncipe Adam/He-man mostrou que nunca deveríamos mentir. As mentiras sempre eram descobertas e o mentiroso perdia a confiança da família e dos amigos, como aconteceu com o ‘Gorpo’ no episódio do dia. Quanta nostalgia! Se pudesse voltava no tempo.

Em meio a tanta modernidade animada me serve de consolo uma possível (in)explicação para - aquela que pode ser - a maior dúvida dos desenhos. Se o Pateta (Goofy), personagem antropomórfico como o Mickey, o Donald ou o Pão Duro McMoney, é um cachorro, que animal seria o Pluto? Minha única certeza se refere a ele ser o animal de estimação do camundongo mais famoso da história. Também sei que ele foi criado em meados de 1931, pouco tempo depois da descoberta do ‘último planeta’ do sistema solar (detalhe: em inglês eles têm o mesmo nome). Fazendo uma livre associação ao fato de Plutão hoje ser um não-planeta, afirmo, categoricamente, em tempos ‘modernosos’ como os atuais, que Pluto é um NÃO-CACHORRO (sic!!!).

A cada dia que passa, deixar de ser criança tem menos graça. Hei! Por obséquio, parem este orbe! Eu quero descer, nem que seja num satélite, num cometa ou não-planeta.

Rodrigo Duarte

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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

A RAINHA DESNUDA

Ontem, num daqueles bate-papos deliciosos após ver A Rainha, uma amiga me pergunta que filmes esse Stephen Frears já fez:

- Hhhhmmmmm... fez Coisas Belas e Sujas, aaahhh e fez Ligações Perigosas.

– Ligações Perigosas é um dos meu filmes prediletos...

– Meu também; concordo com ela... aaahhh e ele fez também Minha Adorável Lavanderia!

Pensei, e tentei me lembrar dos outros filmes do Frears, mas nada me veio à cabeça e logo desviamos do assunto.

Na verdade Stephen Frears já dirigiu coisas finas como Terra de Paixões, Alta Fidelidade e Liam, mas de uns tempos pra cá tem caído no esquecimento com filmes blasé como O Segredo de Mary Reilly, o recente Sra. Henderson Apresenta, além do já citado Coisas Belas e Sujas, pelo qual não nutro tanta simpatia. Eis então que Frears ressurge com esse delicado e estranhamente íntimo A Rainha - indicado a 6 Oscar, entre eles os de melhor filme, diretor, atriz e roteiro original – obra de uma austeridade que me pareceu casar muito bem com a proposta de seu diretor.

A Rainha é o filme que desmitifica o mito pra nos revelar o ser humano por trás da Rainha Elizabeth II, seus medos, fraquezas, no que talvez tenha sido um dos momentos mais difíceis de sua vida como monarca , quando da morte de sua ex-nora, a popular princesa Diana. Frears e a soberba Helen Mirren (sem esquecer do excelente roteiro de Peter Morgan) conseguem invadir a intimidade de uma das mais reservadas e solenes personalidades do planeta.

Mirren é pra mim uma das atrizes mais completas que já pude ver atuar. Dona de uma sensibilidade e inteligência impressionantes, ela compõe muito mais do que os trejeitos e modos de Elizabeth, lhe emprestando, sobretudo vida e firmeza no olhar e nos gestos, na ironia... Oscar garantido espero eu.

Frears nesse sentido me parece seguir a mesma lógica daquela história toda. Diana morreu sendo perseguida por paparazzis, sempre teve sua vida particular revirada pela imprensa e precisou encontarar na morte a paz que aqui nunca teve. O filme, nesse sentido me parece muito coerente quanto ao mostrar a vida da Princesa, ou seja, Frears, tentou invadir o mínimo possível a vida daquela mulher, utilizando-se apenas de cenas de arquivos da época, e nunca reencenando sua vida.

Uma figura naquilo tudo porém me pareceu pouco crível. Tony Blair aqui é menos o Primeiro Ministro britânico que nos acostumamos a ver nos telejornais e suas manobras políticas um tanto questionáveis, do que aquele homem compreensivo, ingênuo e sensato que o filme parece mostrar. Nesse sentido, Blair me parece ser o alter-ego do cineasta Stephen Frears, pois ambos estão em busca do ser-humano por traz da frieza monárquica de Elizabeth. E conseguem, seja na bela seqüência do cervo real, em que ela solta seu único choro, que é inclusive negado por Frears, que a mostra apenas de costas, seja na delicada seqüência em que ela retorna ao palácio de Buckigham para o funeral de Diana e encara todos os seus súditos que a massacram como vilã nessa trágica história, manipulada com tanta frieza pela imprensa e pelo partido socialista que quer o fim da monarquia e seus privilégios.

A Rainha é, na verdade, mais um dos muitos filmes contemporâneos que enfocam esse embate entre o velho e o novo. Entre tradição e modernidade, num mundo que renega o tempo todo o seu passado, sua história, em busca de um pensamento que pode ser tudo, menos humanista. Nesse sentido, é ainda mais questionável essa coisa da imagem, ou da construção de uma imagem principalmente feita pela mídia, nessa necessidade maniqueísta que o homem tem de separar o bom do mau, o mocinho do vilão. Frears parece nos querer mostrar que somos todos produtos do tempo e do espaço, e cada indivíduo é um frasco repleto de emoções ímpares, e que a chave de tudo é buscar compreender o próximo, sendo acima de tudo tolerante, e não assumir a beca da justiça e julgar as pessoas como se houvesse algum modelo de comportamento já predefinido.

A Mis- en- céne aqui é a da contensão, tanto na manipulação dos sentimentos de cada personagem, quanto na trilha sonora e na fotografia intimista criada pelo brasileiro Afonso Beato. A Família Real é fria, contida, rigorosa, e Frears assume essa postura em seu filme, mas sem perder a ternura, claro. Ao final, tanto Tony Blair, quanto Stephen Frears terão assumido sua paixão pela figura hipnotizante daquela Rainha. E se o espectador não chegar a assumir tal sentimento, ao menos enxergará aquela figura com outros olhos.

Me fez pensar muito nessa manipulação barata que a mídia do mundo todo faz quando pretende vender seu peixe, renegando uma alta carga de responsabilidade, que todo jornalista deveria ter. É o segundo filme que vejo essa semana – o outro é o primoroso A Conquista da Honra de Clint Eastwood – a questionar a imagem e seus desdobramentos. A imagem que fazem de nós, a imagem como ferramenta para manipulação das massas, nesse que me parece ser antes de tudo um forte e muito consistente libelo humanista.


Rafael C. Parrode
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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Permite que eu feche os meus olhos,
Pois é muito longe e tão tarde.
Pensei que era apenas demora,
E cantando pus-me a esperar-te.
(Cecília Meireles)

“Não te quero ter, pois em meu ser tudo estaria terminado...
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados...
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada...”
(Vinícius de Moraes)

“Às vezes nos falta esperança, mas alguém aparece para nos confortar. (...) Às vezes estamos sem rumo, mas alguém entra em nossa vida, e se torna o nosso destino. Às vezes estamos no meio de centenas de pessoas, e a solidão aperta nosso coração pela falta de uma única pessoa.”
(Luis Fernando Veríssimo)

“Quando o verdor esperançosoDará alegrias aos que espera?Que o caule verde seja rosaRosa purpúrea e... bela!”

(Walter De Castro)

Arte finalista
Alguém que meta os pés pelas mãos, que seja bem mais inconseqüente que eu...

Pois eu sempre tive muita consciência de viver a insanidade e ser sã.
E mesmo sabendo de todos os defeitos que esse alguém possa ter
Eu quero que todo a meu ser passional seja libertado.

Alguém que não peça, mas exija um descuido
]E que implore o que eu nunca poderia dar numa gota de desespero.
O esposo da loucura e a irmã do infortúnio.
Porque toda chama não vagueia sem os ventos e
A quase brisa-viva do candeeiro.

Peças alusivas a uma vontade-desejo.
Eu que quis que tudo se espandisse de mim mesma
Cri na minha falta de vocação ao subversivo:
A preguiça que esse alguém me aconchegue.

Noites de cores de tendas caídas
E meu “não me importo” de dores nas juntas.
Mãos serenas que pesquisam a todo momento os tipos de toque
E o adeus por segundos.

Alguém que venha, mas que volte de onde não sei porque eu sempre pelejo
Pela fé, desabotoada de seu abrigo.

Ah, essa pessoa que me destrói e me reconstitui imperfeita
Em que todas a cola que derrete na primeira tempestade
Se transforma no alto-relevo que faltava.


Maria Clara Dunck
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terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Editorial nº 00 - Novos Tempos!

E começamos 2007..... Como se houvesse alguma escolha nisso... Mas eu gosto, sabe? Essas convenções e comemorações humanas me atraem. Essa sensação de poder começar de novo, mudar, fazer diferente... A Arca Mundo começa o ano diferente. Com algum atraso, admito, mas estávamos ansiosos por voltar a escrever.
Este ano a coisa vai ser mais dinâmica... Ouvimos críticas e sugestões de sábias vozes, e como, desde o início, nossa idéia era Liberdade de Comunicação, estamos cortando mais um laço que poderia estar podando essa liberdade. Agora, cada colaborador da Arca terá um dia da semana exclusivo para as suas idéias e vocês leitores terão, diariamente, textos fresquinhos pra ler. Dessa maneira, os textos serão postados diretamente por cada colaborador, sem haver a necessidade de um filtro e de editoriais semanais. Além disso, os leitores podem acompanhar seus temas favoritos, participar mais ativamente e inclusive, cobrar assiduidade dos colaboradores de forma mais direta. A agenda da semana será ativa de domingo a domingo e segue da seguinte maneira:
Segunda feira: Maraísa Lima
Terça feira: Maria Claudia Cabral
Quarta feira: Maria Clara Dunck
Quinta feira: Rafael Parrode
Sexta feira: Paulo Henrique dos Santos
Sábado: Camila Pessoa e Rodrigo Duarte (Novo colaborador da Arca!)
Domingo: César Henrique Guazelli
Além disso, teremos uma coluna especial de gastronomia, escrita pela Maria Claudia, com dicas de comida boa no eixo Goiânia-Brasília, toda última quinta feira do mês!!!
E ainda há mais mudanças por vir....
Espero que todos gostem das novidades e permaneçam conosco.
Um ótimo 2007 a todos.... e que possamos ir muito longe nessa Arca!
Camila Pessoa
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A CONTRAMÃO DO MUNDO OU UM SENTIDO DO MUNDO

‘’Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração’’
(Chico Buarque)


Será? Tive de parar para pensar. Refletir sobre o que ele queria dizer com “não saber o que quer’’. Eu sei, por exemplo, que não é a razão da minha vida a estabilidade profissional que se obtém com concurso público, assim como estou certa de que casa própria não é meu sonho de infância. Não é que não queira, mas não é algo que está na minha lista de dez coisas que quero fazer antes de morrer. O leitor poderia me perguntar: em que mundo você vive?

Talvez eu esteja esquizofrênica, vendo coisas que não existem, mas percebo que, cada dia mais, a tecnologia está nos levando a viver já num mundo de duas dimensões. A chamada dimensão real, onde as coisas são palpáveis – também chamada de atual, pelo brilhante Pierre Lèvi – e a dimensão virtual, ou dimensão intangível, como costumo chamar, ou ciberespaço. Acho que não preciso explicar como a primeira funciona, todos nós acordamos e dormimos nela diariamente.

Quanto à dimensão intangível, essa que tem tomado conta por meio da tecnologia, é um mundo limitado apenas pelo acesso à rede mundial de computadores. Trata-se de um lócus sem fronteiras, onde o espaço público e o espaço privado se confundem, se mesclam. Onde somos o que quisermos ser, até nós mesmos. Onde encontramos personas e pessoas. Onde não as encontramos como no mundo real, e as tocamos de forma metafísica...E somos tocados por elas.
.

Transitamos nesse mundo à velocidade da luz, a depender da conexão. Tempo/espaço, portanto, são valores relativos. Einstein certamente gostaria de ver isso em funcionamento! Enquanto na dimensão atual um mês tem trinta dias, na dimensão virtual, três meses é uma eternidade. Tempo suficiente para enriquecer, empobrecer, conhecer pessoas, ser execrado ou idolatrado. Tempo suficiente para se encantar por alguém, para se decepcionar, para se afastar, para se reaproximar e até para romper a mais bela amizade. Tudo isso num diálogo consecutivo e simultâneo entre o virtual e o real. Isso é a loucura de viver em dois mundos.

Mais que isso, é o prenúncio da mudança dos tempos, da evolução do planeta. Ainda que em diversos espaços estejamos vivendo a idade das trevas, alguns de nós têm tido o privilégio de acessar a dimensão intangível. Onde não há que se ter, mas há que ser. O que se quiser ser, diga-se de passagem. Willian Gibson, um dos criadores do ciberpunk, subgênero da literatura de ficção científica, já falava no seu Neuromancer, que poderíamos alterar nossos corpos. Pois bem, tanto o podemos por meio dos avanços da medicina estética, no mundo real, quanto por meio das personas que criamos no ciberespaço. No mundo virtual não importa ser gorda ou ser magra, importa a forma como a persona se apresenta, como se sente e como o outro a vê com os olhos do espírito, da alma ou da mente – como queiram.

Mas...cuidado, desavisados! Viver em dois mundos tem seu preço. (o texto continua na próxima edição, aguardem ‘’cenas dos próximos capítulos’’)

“Posso dizer? Acho que você não sabe o que quer.’’ (FS, brasileiro, casado, três filhos, agente público concursado e uma bela casa em construção)

‘’Procuro uma mulher determinada que saiba o que quer’’ (anúncio no site de relacionamentos ParPerfeito).

Dicas do Texto:

Sobre Roda Vida
http://chicobuarque.uol.com.br/letras/rodaviva_67.htm
Sobre Pierre Lévi
http://www.facom.ufba.br/com022/levy.html
Sobre Cibercultura
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cibercultura
Sobre Willian Gibson
http://pt.wikipedia.org/wiki/William_Gibson
Sobre Ciberpunk
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cyberpunk
Maria Claudia Cabral
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quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Editorial nº 09: Dando adeus a 2006.....

E acabou esse ano! Finalizamos 2006 com muito a comemorar e uma das nossas maiores realizações, sem dúvida, foi a concretização da Arca Mundo. Aos nossos leitores (Sim! Nós temos leitores, e ótimos leitores, por sinal...), um gigante MUITO OBRIGADO, por gastar um pouco do seu tempo, acessando esse blog, lendo e comentando nossos textos... pois de que nos adiantaria escrever para ninguém? Dando adeus a um ano turbulento de novidades e acontecimentos, receberemos 2007 com muita energia, com desejos de sucesso, de transformação, de sorrisos, de aconchegos, de música boa, de catarse, de lágrimas, de pequenos grandes momentos, de amor e sexo e de muitas amizades a todos!!! A Arca entra de férias, pra acompanhar o ritmo de nossos colaboradores, mas estará de volta no dia 30 de janeiro, incontestavelmente, e com muitas novidades! Nos despedimos com uma análise sobre o Natal, da Maria Claudia e com um ensaio sobre viver o presente com poesia, nesse ano que chega! Boas férias e um graaaaaande abraço apertado a todos!

Camila Pessoa.
Copyrigth Arca Mundo. Todos os direitos reservados.

Para viver devagar e intensamente...

Escrevi esse texto há alguns dias.... em um momento no qual eu não queria pensar em nada do que já aconteceu ou do que estava por vir. Acho que todas as pessoas deveriam passar a viver assim: no presente! Um instante de cada vez... hoje, talvez, eu nem me sinta mais assim... mas naquele momento foi bonito e importante analisar os fatos com aqueles olhos felizes. E é isso que eu desejo a todos no ano que chega: pensemos devagar e aproveitemos cada instante de uma maneira única, sem deixar que ele passe despercebido pelos nossos olhos passivos e ocupados....


Preciso escrever... Sinto que de alguma forma tenho que pôr pra fora o que estou sentindo e estou sentindo tanto!!!!!! Sinto pureza, sinto magia, sinto paixão. Acabo de pensar naquele filme... como as pessoas poderiam ter um tanto bom de paixão dentro de si, um tanto daqueles... simplesmente sentir, sem culpa, sem medo, sem remorso, sem temor, sem vergonha.... eu sonho em poder ser assim, me libertar. Quem sente e sente somente com orgulho do que traz dentro de si é livre, mas tão livre, mas tão livre, que mal cabe dentro de si de tanta paixão, de tanto sofrer, de tanto imaginar, de tanto pintar e colorir e dizer e tocar e sorrir e correr e beijar e cheirar... pude sentir o cheiro de todas as coisas hoje. Cheirava a jardim, cheirava a nascer do sol, com aquelas gotinhas de orvalho e a neblina na estrada, como aquela música que cheira os seus cabelos. Quando percebo-me tão transbordando de dentro de mim como estou agora, sinto vontade de chorar. Hoje choro por pensar no quanto consigo gostar de você. Vou chorar e vou sentir o seu perfume e vou tocar os seus cabelos e te abraçar bem forte. De um jeito passional, de um jeito secreto, cheirando a rosas vermelhas do meu quintal. Hoje choro por pensar que não me importa o que vai acontecer amanhã.... não sei se amanhã chegaremos ao fim da rua, daquela rua que é o fim de nós dois... e é por isso que não me importa... só quero chorar agora de saber que gosto tanto de você e que acaba de me acariciar o rosto com a pontinha do seu nariz. Eu gosto de você não por você mesmo, mas porque sua presença me faz me sentir bem, e me sentir mal, me faz sorrir e me causa espanto, porque você não é gratuito, nem é clichê, mas é pra ser desvendado, mesmo que eu sinta que talvez nunca saiba você.Te saber seria sem graça, te saber seria muito simples.... não gosto de você simples, gosto de me aventurar e de me sentir segura nessa aventura, nem que seja na duração de um momento sublime em que toca a música: “Parece que o amor chegou aí... eu não estava lá, mas eu vi!” E de pensar que em outras noites em que o caminhão de lixo passava, eu nem sabia que existia você. E que a minha felicidade reside em tantas coisas secretas... queria poder ser passional o bastante pra te dizer, mas sabe? Acho que o silêncio tem sido tão belo nos últimos tempos... acho que o não-dizer me tem feito tanto bem... porque nessa ânsia de falar, de desenhar, de querer transparecer... acabo apagando a magia e perdendo meus segredos pelas pernas.... quero que você me saiba, sim! Mas de outro jeito, fora da minha loucura antiga, sem que eu precise dizê-lo... de um jeito sutil que você possa cheirar, possa ler, possa tocar no silêncio e entender tudo. Enquanto eu te beijava, eu pensava: Nossa! Eu gosto muito de você! Mas acho que o meu olhar dentro das minhas pálpebras serradas, dirigindo-se à sua direção, pôde te dizer muito mais. Não pretendo me deixar dominar por sentimentos obsessivos, por doutrinas utópicas, por expectativas absurdas.... eu quis resistir a você hoje, por um segundo apenas... e logo, novamente eu te quis...além de minha imaginação, sei que posso amar de novo, sei que posso amar diferente, de um jeito mais maduro, mais inocente e que posso dirigir meu amor a você e que posso receber com muito sorriso o que você tem a me dar...e que posso querer mais sem precisar pedir nada em troca..... você mesmo se dirá e se dirigirá a mim, como tiver de ser, simples assim...Estamos começando de novo... e acho que agora é mais profundo, mais sincero, mais calmo e mais bonito. Independentemente de amanhã, só queria te dizer que hoje foi maior, mais belo e que me lembrarei disso, pretendo me lembrar.

Camila Pessoa.
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quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

É NATAL


Ou Dr. João da Silva, homem de bem.



" Então feliz natal
Para negros e para brancos
Para amarelos e vermelhos
Vamos parar de brigar
Um natal muito feliz..."

(John Lennon)

...É Natal! Até ontem era natal, e o Dr. João da Silva, homem de bem, pai de família, cumpridor de seus deveres cívicos e morais foi a missa do galo com a família. Ele e a esposa criaram 3 filhos com esmero, dentro da mais absoluta moral cristã.

Ele era funcionário público, embora houvesse arrumado esse emprego com a ajuda do tio nos idos de 88, bem no apagar das luzes, era servidor dedicado. Chegava às 09 e saía às 05, certamente que com duas horas de almoço, porque afinal, família é muito importante, protegida pela Constituição! Até se tornar deputado.

Dr. João da Silva era boa gente, tudo sempre tinha solução. Fazia amigos por onde passava, sempre auxiliando aqueles conhecidos que precisavam de seus préstimos na repartição. Um dia o vizinho, José Oliveira, precisando de um contrato com a administração para engordar a conta da família e poder mandar a filha para o intercâmbio, falou com Dr. João. Este, homem de bem, pai de família, cidadão exemplar, logo deu um jeitinho para que o vizinho conseguisse seu contrato. Afinal, para que servem os amigos? Solidariedade com o próximo é uma virtude.

Não foi o José Oliveira, igualmente homem de bem, policial aposentado que arrumou para darem cabo daqueles dois moleques que rondavam a vizinhança incomodando todo mundo? Merecia este agradecimento, porque quem pode agüentar com dois marginaizinhos de 9 e 11 anos rondando a vizinhança, quando se tem filhas em casa?

Aliás, Dr. João da Silva é pai exemplar. Cuida das filhas como se flores fossem, tal delicadeza. Estão sempre belas e perfumadas, sempre bem vestidas e calçadas. E ai daquele que passar dos limites! Embora ele não tenha idéia de quais são os limites. Afinal, elas são meninas de bem, moças de família. Diferentes da Ditinha, aquela guriazinha faceira, filha da Maria, que Dr. João levou para a última pescaria de amigos, com mais uma dúzia de meninotas iguais a ela para entretê-los nas noites quentes na beira do rio.

É tão generoso, Dr. João da Silva, depois que se elegeu deputado, com a ajuda do primo Eduardo, dono da construtora, e do cunhado Dionísio, que dirige a companhia de eletricidade, ficou ainda mais caridoso. Acredita que deu emprego para mais de 100 bóias-frias? Pois é, vivem agora como reis em sua fazenda no Centro-Oeste – ou será no Norte, no Nordeste, no Sul ou no Sudeste? – têm até direito a refeição, sim senhor! Comem uma vez ao dia, dormem em barracão coberto de telha – com forro! E trabalham todos os dias. Como é bom, o Dr. João! Dá-lhes de comer, local para dormir e ainda lhes dá trabalho, tudo por uma mísera contribuição do dobro do salário.

E é tão caridoso, Dr. João, que cuida dos filhos dos bóias-frias, os meninos vão para a carvoaria, aprender a ser homem desde cedo e ajudar a família. ‘’Um homem sem trabalho e sem família não é nada!’’ As meninas... Bem, as meninas ele leva para a pescaria.

E é natal, ou era até ontem. Dr. João reuniu a família, foi a igreja, orou a Deus para que tivesse piedade dos pobres de sua cidade, do seu estado e de seu país. Coitadinhos dos pobres! Ao sair, deixou generosa contribuição e ainda deu uma esmola para o sem-teto que beirava a escadaria. Como é bom, Dr. João!

E é natal, ou era até ontem!

''O oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença.'' (Érico Veríssimo)


Maria Claudia Cabral.
Copyrigth Arca Mundo. Todos os direitos reservados.

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Editorial nº 08: Sem maiores interferências...

Me parece medíocre esse editorial, mas sinto como se não tivesse nada demais a dizer. Esta edição está diferente.... pude ler cada texto de uma maneira, cada um dentro do assunto que objetiva abordar.... portanto, não pretendo induzir qualquer interpretação... apenas leiam e sintam cada análise, cada poesia, cada novidade com uma empolgação ímpar.... sem maiores interferências e curtindo cada linha da minha mediocridade.... boa leitura a todos! Ah! Só mais uma coisa.... declaro abertamente a falta que nos fazem os textos dos demais ilustres escritores da Arca Mundo... saudades de vocês, e voltem logo!
Camila Pessoa de Souza
Copyrigth Arca Mundo. Todos os direitos reservados.
“Todo estado de alma é uma paisagem. Isto é, todo estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. [...]

Assim, tendo nós, ao mesmo tempo, consciência do exterior e do nosso espírito, e sendo o nosso espírito uma paisagem, temos ao mesmo tempo consciência de suas paisagens. [...]

De maneira que a arte que queira representar bem a realidade terá de dar através duma representação simultânea da paisagem interior e da paisagem exterior. Tem de ser duas paisagens, mas pode ser – não se querendo admitir que um estado de alma é uma paisagem – que se queira simplesmente interseccionar um estado de alma (puro e simples sentimento) com a paisagem exterior. [...]”.

(Fernando Pessoa)


A ausência das nuvens


Dias ensolarados nos lembram felicidade
Ou sono, que ao sol coube dissipar e não pode.

Dias nublados nos lembram dias nublados...

Mas no dia nublado de hoje
Eu lembrei da felicidade.

Esse descompromisso compromissado em sorrir por instantes.
Um desleixo preocupado em ouvir a dor do outro
E esquecer-se das próprias fadigas cotidianas.

No dia nublado de hoje eu lembrei de você
E tive seu rosto frente aos meus olhos
Suas mãos postas sobre minha força contida
E toda sua inconstância esmiuçada na minha amargura de viver
Com a sensação do tempo pela metade.

E lembrava daquele momento na brisa da tarde
De um dia nublado que nasceu ensolarado.
E de sua dor que já é minha.

Maria Clara Dunck
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IÉ! Preacher na HBO!



Está confirmado: Preacher realmente vai virar uma série pela HBO, com uma hora de duração por episódio. A data de estréia é indefinida, mas já se sabe que o roteiro do piloto ficará por conta de Mark Steven Johnson, que assinou Demolidor e O Motoqueiro Fantasma (este estréia em março de 2007). Os criadores da série em quadrinhos, Garth Ennis (roteirista) e Steve Dillon (ilustrador), serão co-produtores da empreitada da HBO.
Eu, particularmente, estou bastante otimista com a série. Não só porque Preacher tem um argumento maravilhoso e reinventou o arquétipo do anti-herói (e é um dos meus quadrinhos favoritos, sem dúvida), mas também porque a HBO, atualmente, produz as melhores séries que tenho visto. Deadwood e Rome, por exemplo, deixam para trás – e muito – a grande maioria de suas concorrentes sem grandes dificuldades. Outro bom motivo é a inclusão de Ennis e Dillon na equipe do seriado, o que enriquece muito a adaptação (é só ver o resultado de Sin City, acompanhado de perto por Frank Miller), ao contrário do que aconteceu com Alan Moore, que viu uma a uma de suas séries quadrinizadas serem acompanhadas por péssimas adaptações para o cinema, salvo algumas exceções.
Para quem não sabe, Preacher é a série que lançou Ennis no estrelato, sendo escrita de 1995 a 2000 e perfazendo um total de 66 edições. A história gira em torno de Jesse Custer, um pastor possuído pela entidade Gênesis, uma criança nascida da união entre um anjo e um demônio. Sua voz tem um poder parecido com a palavra de Deus, que faz as pessoas o obedecerem forçadamente e sem questionamentos. Ele fuma demais, bebe demais, diz palavrões em excesso e é acompanhado por Tulipa, sua ex-namorada que reencontra anos depois e Cassidy, um vampiro que nada tem do estereótipo do espécime, é obsceno, recheia seus diálogos de fucks, bebe demais e dorme na carroceria de uma caminhonete sob uma lona. Jesse é perturbado por anjos burocratas que estão atrás de Gênesis para aprisiona-lo enquanto procura Deus, que sumiu no mundo, para buscar explicações e saber porque ELE abandonou sua criação.
Garth Ennis, como a maioria dos bons roteiristas da atualidade, é Inglês (na verdade, é da Irlanda do Norte), e não tem papas na língua. Seus quadrinhos são fortes e bastante críticos, esculachando qualquer forma de moralidade (e a cristã é apenas uma delas) e com um senso de humor (negro) bastante aguçado, criando personagens como Billy Bob, o amigo de Jesse Custer na infância que era todo deformado pois sua família casava entre si para ‘preservar a linhagem’. Agora é torcer para a série de TV ser tão boa quanto sua versão original, mas não igual (como a maioria dos fãs de quadrinhos chatos e bitolados exige), pois isso nada acrescentaria.
AAAhh... só mais uma curiosidade: Jesse Custer, o pastor protagonista de Preacher, é assombrado pelo fantasma de John Wayne, que conversa com ele, lhe dá dicas e o segue desde seus cinco anos de idade.
César Henrique Guazelli.
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NAMORO OU (E) AMIZADE




‘’ Amor é um livroSexo é esporteSexo é escolhaAmor é sorte...’’
(Rita Lee)



Bem que tentei, mas não foi possível deixar o assunto da edição anterior. Inaugurando a almejada interatividade a que se propôs Arca Mundo, voltaremos ao tema. 
Alguém comentou sobre o porquê não namorarmos nossos melhores amigos – apresentou como razões a possessividade, o rótulo do compromisso, a fidelidade – e atenção, desavisados, fidelidade não é lealdade - que surgem em razão do sexo. Fica a pergunta a martelar a minha cabeça: por que o sexo altera as relações a ponto de gerar expectativas e posse?

Em última análise estaríamos admitindo que há um abismo entre relações afetivas e relações sexuais. Mais que isso, estaríamos admitindo que o sexo macula o companheirismo, a confiança, o afeto, a parceria. De novo me pergunto: por que?
É como se ao entregar o corpo, surja o direito de ter direitos sobre o outro. Por que? Ao mesmo tempo, por que ao expressar afeto fisicamente por alguém necessito de um rótulo para designar aquela relação? Rótulos são o termo de posse? Não saberia responder a nenhuma das questões aqui propostas, aliás, foram postas para reflexão.

Certo é que enquanto sexo for uma ‘selva de epiléticos’ deixaremos de viver grandes histórias ou destruiremos umas tantas outras. Enquanto buscarmos garantias para nos entregarmos, seremos escravos de nós mesmos. Enquanto acreditarmos que podemos ter a posse de alguém – com ou sem sexo – estaremos aprisionados à ilusão de que somos Deus e podemos controlar algo além de nossos egos desgovernados. Pior que tudo, sofremos com isso.

...mas este ainda é o mundo em que vivemos, cabe a nós tentarmos mudar – não o mundo, não o outro – a nós mesmos e nossas atitudes diante das relações.

‘’...É, amores vêm e vão, amigos são para sempre’’ ( Uma mulher, 12 dez 2006).

‘’Se é para amar, siga amando os seus amigos, eles não te desapontarão enquanto forem amigos’’. (Um homem, 13 dez 2006).



Maria Claudia Cabral.
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quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Editorial nº 07: Sobre o dia-a-dia

E voltamos finalmente às misturas nossas de cada dia!!!! Começamos a celebrar o Natal... que coisa linda!!! E brega, alienada, comercial........ muito bem humorada a crítica do Paulo Henrique dessa semana referente às festas de fim de ano!!! Humm além disso.... alguém já parou pra pensar em como seria mais feliz e em como a vida seria mais fácil se pudéssemos amar nossos melhores amigos? Esse é o tema escolhido nessa edição por Maria Claudia Cabral! Nosso amigos são perfeitos para nós, mas.... são nossos amigos, quase irmãos!!! Todo mundo fala isso, né? Talvez devêssemos tentar reconsiderar, ao invés de ficar por aí quebrando a cabeça com pessoas tão diferentes de nós mesmos! (Fácil é falar! Além de nós, quem mais continua se aventurando?) Além disso, Rafael C. Parrode faz um rápido giro pelos últimos filmes do mestre cineasta Almodóvar, Maria Clara Dunck nos delicia com mais um de seus poemas e Eula Lôbo tenta abrir-nos os olhos pra uma realidade na qual quase nunca reparamos! Aos nossos leitores: continuamos ansiando por seus comentários para que possamos concretizar nossa comunicação de duas direções! Um abraço e boa leitura!!!


Camila Pessoa.
Copyright Arca Mundo. Todos os reservados.direitos

As Cores de Almodóvar


Lembro-me da primeira vez que vi Carne Trêmula, filme esteticamente menos efusivo do cineasta Pedro Almodóvar, mas talvez o mais carregado de violência e sexo, de relacionamentos conturbados, de carne, de traição... Aqui Almodóvar não carrega nas cores como fazia nos filmes de sua primeira fase, quando filmava o universo feminino daquela maneira deliciosamente abusada e arregalada, no limite entre o kitsch e o bom-gosto. Carne Trêmula é então o início de uma fase mais madura e mais consciente de Pedro Almodóvar diante de seus fantasmas do passado, seus dramas de infância e sua visão particular do mundo.

Eis então, que ele surge com o extraordinário Tudo Sobre Minha Mãe, filme em que ele destila sua paixão à cinefilia, homenageando o clássico All About Eve (A Malvada de Joseph Mackienwiks) ao mesmo tempo que abusa do melodrama, mantendo um impressionante domínio da imagem, nesse que é talvez o seu melhor roteiro e possivelmente o mais sensível de seus filmes. Filme ainda com forte toque feminino, Tudo Sobre Minha Mãe é, entretanto, uma mudança forte na carreira de Almodóvar, em que ele parece mais sóbrio, lidando com temas mais caros, mais fortes, abusando do melodrama e da metalinguagem pra homenagear o cinema e sua mãe, numa de suas obras-primas mais bonitas, que fazem brotar lágrimas dos olhos sem muito esforço.

Mas é com Fale com Ela - na minha opinião, seu melhor filme - que Almodóvar irá chegar ao ápice de seu talento como fazedor de imagens que é. Ele parece estar num equilíbrio impressionante entre estética e conteúdo, nesse que é o seu primeiro filme efetivamente masculino, ainda que diga muito sobre as mulheres. Almodóvar nessa história monstruosamente humana e delicada, irá criar um filme denso, triste e riquíssimo, nos brindando ainda com seqüências inesquecíveis como a da tourada ao som de Elis Regina e da magistral cena do cinema erótico mudo, em que um dos personagens adentra uma imensa genitália feminina.

Má Educação é o encerramento de um ciclo de um Almodóvar mais sombrio, forte, emocionalmente mais violento e contundente. Nesse que é o seu filme mais pessoal, ele irá numa abusada homenagem aos filmes Noir, criar sua obra mais obscura e visceral. Um filme que escancara os fantasmas de seu passado, numa crítica contundente à igreja, mas antes de qualquer outra coisa, uma homenagem ao cinema, porque, com seus planos meticulosamente filmados, no seu uso impressionante de vários tipos diferentes de janelas ao longo do filme e na montagem absurdamente impecável ele irá criar o seu filme mais seu, mas inquestionavelmente o mais singular de toda a sua carreira.

Chegamos então a Volver, novo filme do mestre espanhol em que ele parece encerrar sua brilhante fase dark, pra nos confrontar com a leveza do universo feminino (ainda que leveza para Almodóvar seja algo como incesto ou coisas do tipo), repleto de cores que só mesmo ele consegue pintar com tanta beleza, num retorno a seus temas do início da carreira, às suas antigas musas – Carmen Maura e Penélope Cruz excelentes – e a sua maneira bem particular de tratar de dramas humanos. Volver é indiscutivelmente um belo filme, mas não chega a ter a potência dos filmes da recém terminada segunda fase de Pedro.

Se Volver não é a obra-prima que passamos a esperar de Almodóvar depois de uma sequência impressionante de filmes geniais, é na pior das hipóteses, um dos melhores filmes do ano, o que quer dizer que Almodóvar não precisa se superar filme a filme pra fazer cinema de alto nível. Até seus filmes menores são maravilhosos. O que faz de Volver uma pequenina e formidável pérola pintada lindamente com as cores de Almodóvar.
Rafael C. Parrode.
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quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Sessão de cinema



Acaso não construímos dia-a-dia nossas próprias tragédias?


"Não me conheço com certeza suficientemente bem para saber se poderia escrever uma verdadeira tragédia; porém me assusto só de pensar em tal empresa, e estou quase convencido de que a simples tentativa poderia destruir-me”.
(Goethe)


Fazer tudo como se fosse a primeira vez
Eu vi pichado naquela parede fria
Porque cada livro, filme ou tato
É um achado inverossímil
Nessa dormência.

Pra quem já quis mil peças
Numa mesma imaginação,
Pedir uma presença é dureza.
Agora eu só sei que o acaso
Tem suas verdades incontestáveis.

Esses lugares-comuns da existência,
As brotoejas de um corpo carregado,
São os poucos espaços que ainda possuo.
Talvez tudo seja só um passado
Que continua afetando meus pulsos
Por ser o que me sustenta.

Cada cena daquele espetáculo
É um pedido de carência.
E eu já tenho tudo, menos satisfação.

Acostumei-me a pedir sem cobrar
E a receber sem recibo.
Na verdade eu nunca o quis,
Mesmo clamando na janela de Deus
Um gole dessa piedade sem adjetivos.

Maria Clara Dunck.
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