terça-feira, 14 de novembro de 2006

Editorial nº 4 – Novidades!!!


Publicamos nossa quarta edição com grandes novidades! Uma, é a chegada de mais uma colaboradora, com uma nova editoria que eu tenho certeza que vai agradar a todos! Literatura!!! A idéia era publicar seus poemas, mas a moça foi além! A nova editoria irá explorar obras de escritores amadores e conterá, também, ensaios, contos, análises e indicações de obras literárias! Seja bem vida à nossa Arca de misturas, Maria Clara Dunck!!!
Além disso, temos outro motivo para celebrar! Nosso blog está crescendo,devagar e sempre e conquistando, a cada dia, novos horizontes. Esta semana fomos cadastrados e passamos a fazer parte da lista de divulgação de blogs do site maisbrasilia.com. A Arca Mundo se encontra na página 24, do item Blogs!!!
Esta edição traz a crítica do filme A Criança, dos irmãos Dardenne; um texto muito útil à convivência dos sexos, sobre TPM; uma reportagem sobre o Festival Goânia Noise e o texto de estréia sobre Literatura! Uma quarta edição fresquinha para ser degustada com muita satisfação!

Publicamos nossa quarta edição com grandes novidades! Uma, é a chegada de mais uma colaboradora, com uma nova editoria que eu tenho certeza que vai agradar a todos! Literatura!!! A idéia era publicar seus poemas, mas a moça foi além! A nova editoria irá explorar obras de escritores amadores e conterá, também, ensaios, contos, análises e indicações de obras literárias! Seja bem vida à nossa Arca de misturas, Maria Clara Dunck!!!
Além disso, temos outro motivo para celebrar! Nosso blog está crescendo,devagar e sempre e conquistando, a cada dia, novos horizontes. Esta semana fomos cadastrados e passamos a fazer parte da lista de divulgação de blogs do site www.maisbrasilia.com. A Arca Mundo se encontra na página 24, do item Blogs!!!
Esta edição traz a crítica do filme A Criança, dos irmãos Dardenne; um texto muito útil à convivência dos sexos, sobre TPM; uma reportagem sobre o Festival Goânia Noise e o texto de estréia sobre Literatura! Uma quarta edição fresquinha para ser degustada com muita satisfação!
Camila Pessoa.
Copyright Arca Mundo. Todos os direitos reservados.

Não só literatura, não só ela.

"A verdadeira filosofia nos permite descobrir isto ou aquilo; a literatura, tudo". (Gonçalo Armijos Palácios)


Teorias e mais teorias não se cansam e, provavelmente, jamais se cansarão de dissertar a respeito do que é, enfim, a literatura. Do entretenimento ao engajamento político, do teatro grego antigo à literatura do absurdo, também suas funções na sociedade são amplamente discutidas. Então, se levarmos em conta todas as suas manifestações ao longo da história – engavetadas em suas poéticas e escolas – , teremos tanto a dizer, que o propósito de explorarmos a própria literatura e, conseqüentemente, seu foco principal, que são as obras literárias, será perdido, como não raramente acontece.

Seria muita pretensão, um sinal de ignorância e causaria polêmica tachar essa editoria dedicada somente à literatura ou como dedicada à literatura. Não posso, seja por incapacidade ou por sentir impossibilidade, excluir todo o restante das editorias dessa publicação de um viés literário, já que a linha que separa as ciências humanas é tênue. Também não poderia afirmar que aqui estaria tratando apenas da mais pura literatura, desvinculada de tudo que dela necessita ou de tudo que a auxilia, seja no campo das artes, do jornalismo, da filosofia, da história etc.

Refiro-me à literatura num grau mais elevado, numa abordagem mais específica e no papel de protagonista. Ensaios, poemas, críticas, divulgações, análises etc. Serão aparatos cruciais para unir o entretenimento, a linguagem, o conhecimento e a exploração de uma arte tão apreciada.

É fato que uma citação é só uma citação ou uma poderosa arma quando retirada do seu contexto e jogada num ambiente qualquer, passível de diferentes interpretações. E uma citação é um aperitivo ou um símbolo da impossibilidade de se expor, num determinado contexto, uma obra inteira. Talvez a epígrafe citada aqui, publicada em um artigo de jornal sobre a importância da literatura, possa parecer pretensiosa e contraditória, atribuindo um crédito maior à literatura, em detrimento da filosofia. Essa citação poderia extrapolar esse entendimento, supervalorizando a literatura, diante das outras artes ou meios de comunicação, porque, aqui neste espaço, a literatura não tem limites. Tampouco terá para o leitor.
Maria Clara Dunck.
Copyright Arca Mundo. Todos os direitos reservados.

MULHER À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS (a TPM)


Sabe aqueles dias que você acorda diferente? Primeiro aquela SAUDADE não se sabe de quê ou de quem... Aquela MELANCOLIA, vontade de colo. Em seguida você se dá conta de que NINGUÉM está disposto a te dar colo, que você é muito, muito SOZINHA. Na verdade, sente-se DESENGONÇADA, FEIA, DESINTERESSANTE e... G-O-R-D-A...

A vontade de se encolher na cama embaixo das cobertas, com janelas e cortinas fechadas toma conta e até a voz do Bial no Fantástico faz você sentir vontade de chorar. E você choraaaaa... CHORA muito. Chora por tudo, até no Jornal Nacional. Sente-se uma pessoa inútil, nunca fez nada pela fome na África, nunca será glamourosa como Gisele Bündchen, jamais terá o amor do George (Clooney). Enfim, você é a mais infeliz das mulheres, a mais miserável, a mais sofredora, a mais detestável, a mais chata. Sua auto-estima está em baixa.

De repente TODOS os seus problemas foram colocados sob uma LENTE DE AUMENTO gigantesca. E a mais insignificante das pedrinhas no caminho, torna-se um OBSTÁCULO INTRANSPONÍVEL. Ninguém a ama, seu chefe não gosta de você – aliás, por que mesmo ele fez aquele comentário sobre seu cabelo? Estão todos contra você e ficam te olhando de cima a baixo.

E quando a olham você se pergunta: ' Porque tá me olhando, palhaço?' Se irrita profundamente com qualquer comentário que lhe dirijam, e ai de quem não lhe dirigir a palavra, porque você não admite ser ignorada. Afinal, quem essas pessoas idiotas pensam que são para a tratarem assim, porra? Num crescendo surge uma vontade aterradora de ESMURRAR o flanelinha que te perguntou se podia olhar o carro e você só não esmurra porque aquela vadia do trabalho – loura, para lá de oxigenada – passa na sua frente e desvia seu pensamento para uma cadeira elétrica – lugar onde ela devia estar para aprender a não atravessar o seu caminho. E aquela vaca ainda se diz sua melhor amiga.

É nesse momento, quando está a ponto de ELETROCUTAR sua verdadeira amiga e companheira, que você se dá conta de que ELA chegou. Sim, meninas... A TPM está com vocês, a TPM está comigo, ela está com quase todas nós, invariavelmente uma vez por mês, e haja Ponstam, Atroveram, Buscopam e semente de linhaça (acreditem é bom demais). Haja amor e paciência por parte de nossos namorados, maridos, amigos, mães, pais, irmãos, colegas de trabalho, etc, etc, etc...

O melhor de tudo é saber que, se ela veio, já podemos dormir tranqüilas e voltar a ser as mulheres maravilhosas que sempre fomos. Lindas, competentes, talentosas, amorosas e seguras de si.

''Quase não me reconheço quando estou assim, quero me encolher embaixo das cobertas até tudo isso passar'' (Uma mulher de 37 anos, ontem).

''Eu choro por tudo, odeio o mundo e o mundo me odeia, quero gritar e brigar com todos à minha volta. Nem eu me suporto'' (Depoimento numa das dezenas de comunidades do Orkut dedicadas ao tema TPM).
Maria Claudia Cabral.
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O Cinema dos Irmãos Dardenne – A Criança.



Quem nunca viu um filme dos irmãos Dardenne, não imagina o quão rico e forte é o cinema que eles criaram ao longo de suas carreiras. Vencedores da Palma de Ouro em Cannes em 2000 pelo belíssimo Rosetta, eles retornaram ao Festival em 2002 com mais uma obra-prima, O Filho, desta vez, levando apenas o prêmio de ator para o excepcional Olivier Gourmet. Não bastasse, em 2005 - ano em que a seleção de Cannes primava por autores consagrados como: Cronemberg, Jarmusch, Michael Haneke, Amos Gitai, Hou Hsiao Hsien, Carlos Reygadas, Win Wenders, Gus Van Sant e Lars Von Trier - os Dardenne e seu cinema humanista e moral (mas nunca moralista), sabiamente foram mais uma vez premiados pelo júri, presidido por Emir Kusturica, por sua mais nova obra-prima A Criança, que entra agora em cartaz em Goiânia no Cine Cultura.
Os irmãos belgas fazem um cinema de câmera na mão, sempre muito próxima dos atores. Em O Filho, ela estava nas costas do personagem de Olivier Gourmet, como se ele estivesse carregando um peso, e isso fazia toda uma diferença naquela história forte que eles contavam. Aqui, ela acompanha a respiração dos personagens, se afastando ou se aproximando dos corpos de acordo com suas ações. É um estilo que às vezes lembra Bresson, neste que é, aliás, um Pickpocket bem “dardenneano”.
E A Criança não poderia ser nome mais certeiro. Certeiro, porque os irmãos nos colocam num universo basicamente pós-adolescente, em que os jovens, nessa transição para o mundo adulto, nessa sociedade cada vez mais materialista, parecem crianças, infatilizadas, frágeis.
Sonia acabou de ter um filho. Bruno, seu namorado, vive de pequenos furtos e diz que trabalho é coisa de babaca. Um dia, Bruno resolve vender o filho para a adoção. Os Dardenne começam seu filme assim: direto e reto, com Sonia e seu bebê nos braços, acabando de sair da maternidade. E a impressão que se tem é que o filme será sobre Jimmy, filho do casal de jovens. Mas os irmãos, lá pelo meio do filme, se permitem uma troca inesperada de protagonistas. Na verdade, A Criança do título é Bruno, que irá atravessar o inferno em busca de redenção. É por isso que digo que o cinema dos cineastas belgas é moral, mas nunca moralista. Bruno fará suas escolhas e, conseqüentemente, pagará por elas. Mas os Dardenne em momento algum irão julgá-lo, e sim observá-lo. E por isso, o tempo nesse filme parece ser tão importante, porque é com ele que Bruno, através de seus olhos e da consciência de seus atos, irá se tornar cada vez menos um objeto e mais um ser humano. Ao passo que seu filho, que solta apenas um choro na primeira cena do filme, irá cada vez mais parecer uma mercadoria, um pacote. Os Dardenne, nessa inversão forte de papéis, parecem ir além, injetando vida em elementos como um carrinho de bebê e uma motocicleta, nos confrontando ainda mais com essa questão do homem/objeto.
Como em Bresson, os pequenos gestos, os pequenos detalhes, podem significar bastante. E A Criança se sustenta dessa forma: construindo com muita delicadeza e profundidade, toda a lógica desse mundo capitalista, em choque com o ser humano. São muitas as cenas em que os Dardenne transbordam seu filme de possibilidades, interpretações. E o final é a conclusão perfeita para a obra impressionante que é L’Enfant. Bruno, em uma odisséia em busca de sua humanidade, ao final encontrará sua redenção. E os irmãos cineastas redentores que são, irão com isso, criar um belo manifesto humanista, tentando nos mostrar que, apesar de vivermos em um mundo em que o capital parece estar sempre à frente do índivíduo, ainda somos humanos. Triste, mas sublime!
Rafael C. Parrode
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OS MONSTROS DA CENA UNDERGROUND



Em entrevista, Léo Razuk, um dos sócios da Monstro Discos, fala da história do selo, dos festivais e sobre o que o público pode esperar da 12° edição do Goiânia Noise.


A Monstro Discos surgiu no início de 1998. Léo Bigode e Márcio Jr. tinham uma sociedade em uma loja de discos que estava perto da falência. Então, juntos, decidiram criar um selo independente, a Monstro Discos. O selo divulgaria o trabalho das bandas no festival que eles também administravam, o Goiânia Noise, que reúne bandas independentes de todo o Brasil.
Léo Bigode sabia como administrar a Monstro, sabia como produzir os discos, mas não sabia fazer shows. Paralelamente a este projeto, Fabrício Nobre, vocalista da banda MQN (Melhor Que Nada), tentava manter a sua Me and My Monkey Records de pé. Ao contrário de Léo, Fabrício não sabia produzir um bom disco, mas de shows o rapaz entendia bem. “Ele mesmo chegou à conclusão que o negócio não era fazer disco, que ele não tinha a manha de fazer disco, mas tinha a manha de fazer show.”, diz Razuk. Foi aí que Fabrício decidiu criar o Bananada (festival de bandas independentes, semelhante ao Noise). “Quando o Fabrício criou o Bananada ele foi muito influenciado pelo Goiânia Noise e pela própria Monstro. Ele era público, consumidor do Noise e então ele resolveu criar o dele, sair da cadeira e criar alguma coisa.”
Léo produzia bons discos. Fabrício produzia bons shows. Dessa união feliz nasceu o “protótipo” do que a Monstro Discos é hoje. Para completar essa promissora união, o jornalista Léo Razuk, que já estava trabalhando com a Monstros, decidiu entrar na sociedade. O primeiro trabalho dos quatro como sócios foi a produção do show do Mudhoney, uma das bandas de garagem nascidas em Seattle. O trabalho e a união dos “quatro monstros” começaram a dar resultados. “Ele (Fabrício) começou a dar um profissionalismo maior nos shows, de qualidade de equipamentos para as bandas tocarem, de buscar locais que fossem mais adequados para as bandas se apresentarem, aí eu acho que o negócio começou a andar.”
A Monstro Discos começou a ter visibilidade no Brasil inteiro devido à qualidade dos cds, das bandas e dos festivais. Foi aí que decidiram fazer parceria com outros selos independentes, entre eles a Tratore, de São Paulo, que cuida da distribuição dos discos da Monstro pelo Brasil. “Fizemos essa parceria com esses selos com o objetivo de unir nossas forças e poder contar com a ajuda logística da Tratore. A grande dificuldade dos selos independentes é a distribuição dos produtos.”
Há, também, outras dificuldades tão grandes quanto a de distribuição. A rentabilidade dos selos independentes é muito pequena. No caso da Monstro, o retorno é maior e mais rápido com os festivais, principalmente se eles tiverem apoio e patrocínio. Mas, infelizmente, isso nem sempre acontece: “Na maioria das edições dos festivais a gente depende quase totalmente da bilheteria.”
A filosofia da Monstros é a do “faça você mesmo” e com essa idéia na cabeça, vontade, dedicação e um pouco de loucura, os quatros sócios correm atrás dos objetivos e conseguem mostrar que Goiânia, apesar da fama de sertanejo-brega, é também a terra do rock’n’roll alternativo.
Esse ano o Goiânia Noise completa 12 anos! Considerado a maior festa do rock independente brasileiro, o festival acontece entre os dias 24 e 26 de novembro e vai reunir 33 bandas em três grandes noites de rock! Serão shows com bandas consagradas como Los Hermanos, Matanza, Nação Zumbi, Ratos de Porão, Mundo Livre S/A, MQN, Valentina, Pata de Elefante, Prot(o), Violins, Mechanics, e outras 22 bandas dos mais diferentes lugares e estilos.
A novidade esse ano é o espaço onde acontecerá o festival: o Centro Cultural Oscar Niemeyer. Antes realizado em locais como Centro Cultural Martim Cererê e Jóquei Clube de Goiânia, o Goiânia Noise parte para uma estrutura cada vez mais ampla e melhor. O espaço recém – inaugurado é amplo, confortável e seguro, com ótima estrutura de som e iluminação. O novo centro cultural da cidade tem agradado o público com vantagens, como por exemplo, área 100 % coberta, ar condicionado e estacionamento fechado com capacidade para 350 carros.
Segundo Fabrício, o festival é o resultado de um semestre de esforço, para trazer a Goiânia bandas clássicas da cena underground brasileira, novidades que ainda não tocaram em nenhum festival independente do país e o melhor da cena local. As grandes atrações são Los Hermanos, que fecha a primeira noite de shows, Nação Zumbi, que encerra a segunda noite e Ratos de Porão, para finalizar o último dia! Haverá, também, como já é de costume, praça de alimentação e stands de vendas de produtos ligados à cultura rock.
O preço dos ingressos está a R$ 20, 00 por dia e R$ 50, 00 o passaporte para os três dias de festival, à venda na Tribo do Açaí, Ambiente Skate Shop, Hocus Pocus ou na Monstro Discos. Quem se interessar pelo passaporte deve correr, pois só foram postos 300 passaportes à venda!
Camila Pessoa e Carollyne Almeida.
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quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Mostra SP de Cinema - Sexto dia: Uma estória de coincidências, e um peso-pena entre dois pesos-pesados!

O Sol

Em Arca Russa, Alexander Sokuróv, utilizando-se de um suposto único plano seqüência, sem qualquer corte, percorreu toda a história russa pelos corredores do belíssimo museu Hermitage de São Petersburgo. Um elogio ao cinema, um filme soberbo que abre toda a arca da história russa até os dias atuais, num exercício ousado e profundo de imersão e poesia. E foi num desses elogios ao filme, feito à nossa editora Camila, quando ainda desenhávamos os primeiros esboços dessa pequena revista eletrônica que mal sabíamos como chamar, que ela começou a tomar forma. Havia antes, como todos sabem, a idéia de se homenagear um pasquim de pensamentos e idéias livres, que circulou na época da ditadura militar, chamado O Sol, e era sempre dele que partíamos para a busca de um nome para o nosso blog. Eis que surge o filme Arca Russa e dele, Arca Mundo – afinal, também podemos encher arcas de pensamentos, idéias livres e independentes nesse mundo cada vez mais dependente – nome que se encaixou com perfeição ao nosso pequeno projeto desse pasquim eletrônico.
Não menos que por uma coincidência do destino, vou ver o novo filme do mesmo Alexander Sokuróv e ele se chama O Sol. Engraçado como essas pequenas coisas da vida a fazem parecer mais mágica. E Sokuróv parece aqui, captar a mágica dos pequenos momentos do Sol, como era chamado o Imperador japonês Hiroito, descendente real de outro grande imperador e também chamado pelo povo de filho do sol. Hiroito foi um ditador que, na sua má acessoria militar, utilizando-se do patriotismo extremado de seu povo, entrou em desvantagem na Segunda Guerra Mundial, culminando na devastação de parte do Japão pelas bombas atômicas e seu fim como monarca real, após ser deposto pelos americanos assim que tomaram o país.
Interpretado por um maravilhoso Issey Ogata, o Imperador é registrado por Sokuróv, com sua câmera flutuante e suas fusões rápidas, como um homem que, durante a vida toda, havia sido tratado como Deus: nunca sequer abriu uma porta, pois havia sempre quem abrisse pra ele. Um homem extremamente infantilizado, dono de um terrível mau hálito e grave problema de dicção. E o filme consegue - no que havia sido uma tentativa fracassada de Sokuróv em Taurus, ao retratar os últimos dias de Lênin, em que ele acaba caindo na caricatura fácil do ditador russo – com muita sensibilidade, antes de qualquer adendo estético, injetar intensa humanidade nessa figura impressionante que foi Hiroito. Filmando seus últimos momentos até a tomada de poder pelos EUA, cada cena se sustenta no cotidiano banal do Imperador, até o seu final deslumbrante que o coloca em contato gradual com o mundo em si e na possibilidade de tocá-lo com as próprias mãos.
Sokuróv irá repetir certos cacoetes seus e um deles será sua câmera flutuante que, em certas horas, parece desproposital. Mas aqui ele parece querer investir na edição, num filme meticulosamente montado. Ainda que cansativo a certa hora, O Sol é um filme e tanto. Uma obra de um cineasta que parecia perdido em seu filme anterior, mas retoma o vigor aqui.

Cotação: * * *

Time

Não bastasse a antipatia que tenho pelo trabalho do diretor Kim Ki-Duk, ainda programei seu novo filme entre dois dos mais belos da Mostra e do cinema neste ano: Síndromes e um Século e Juventude em Marcha. Coitado. Kim Ki-Duk é um cineasta coreano que fez ao menos um bom filme, A Ilha, em que ele parecia ainda não assombrado pelo fantasma da pretensão, e em seguida, emplacou um engodo atrás de outro. Pra se ter uma idéia de sua obra de uma maneira geral, basta analisar o nome de um de seus filmes mais prolixos: Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera. Ora, se já não bastasse cada nome das quatro estações do ano, em uma espécie de metáfora pro seu filme, ele adiciona “e... Primavera”. E essa é a diese de quão pobre de sentidos e possibilidades é o cinema de Kim Ki-Duk.
Ele como sempre, escolhe filmar temas edificantes. Em “Primavera...” o tema era a existência, em Casa Vazia, a solidão e agora em Time, o tempo (e o título não poderia ser mais óbvio). Mas em seus filmes anteriores, Ki-Duk ainda investia nas suas imagens pseudo-poéticas pra dar um certo lirismo de boutique aos seus filmes. Nesse Time, o rigor com o cinema, é tão insípido quanto seus personagens volúveis e fúteis e todo aquele papo de auto-ajuda que o cinema dele tem aos montes. Por isso dizem: Ki-Duk é o Paulo Coelho do cinema... e deve ser mesmo.
Mas vamos à trama, que não poderia ser mais óbvia: Garota fica enciumada ao ver namorado flertar com outra mulher e resolve fazer cirurgia plástica para mudar seu rosto e fazer com que ele volte a se apaixonar por ela, agora outra. Ele atordoado, sem saber quem é a mulher que ama, também faz a bendita cirurgia e muda o rosto. Ela então, diante daquela insanidade completa, enlouquece. Ora, quem não enlouquece? Ki-Duk tem o talento de um aluno da oitava série que escreve as redações sobre “temas” que a professora pediu. E o pior que todo mundo acha o texto do mané lindo.
Vendo essa infinidade de filmes aqui na Mostra, ficou ainda mais difícil aturar esse cinema pseudo - tudo que o Kim Ki-Duk faz. Quem já viu Tarkovsky sabe do que estou falando.

Cotação: ●

Síndromes e um Século

Pouca gente sabe fazer um cinema tão único, tão rico e tão novo quanto Apichatpong Weerasethakul. Ele é um dos poucos cineastas contemporâneos que ainda fazem brilhar os olhos do espectador, com seus filmes tão cheios de frescor, de novidades, de surpresas. Lembro-me bem de ter visto Mal dos Trópicos - seu filme mais conhecido e premiado - uma daquelas obras-primas indefiníveis, tão autoconsciente na criação de um mundo extremamente peculiar, onde a câmera se move de outra maneira, os cortes vêm sempre nos momentos mais inesperados e a trama nunca importa. Joe - como é chamado em sua intimidade - faz um cinema de ambiências, de sentidos, em que cada imagem funciona quase que por si só, mas que, ao se unirem num todo, dão forma a uma obra surpreendente, imprevisível e nada menos que brilhante.
Com Síndromes e um Século, a impressão que se tem é que estamos diante de um OVNI, um filme diferente de tudo, um cinema estranho, mas ao mesmo tempo, tão impressionante e poderoso, que nos faz colocar Apichatpong entre os principais nomes do cinema contemporâneo.
Joe faz aqui uma espécie de autobiografia, filmando o que parece ser a vida de seus pais médicos, quando se conheceram em um Hospital no meio de uma floresta da Tailândia. Os pacientes são, em sua maioria, monges budistas que, por morarem perto, estão sempre se consultando por lá. Joe refina seu cinema a tal ponto que a impressão que se tem é a de estar diante de um mantra de imagens. Cada plano meticulosamente trabalhado pelo cineasta da a impressão de estarmos meditando, levitando no tempo e no espaço, num exercício hermético e vigoroso de cinema.
Apichatpong sempre fala das doenças do ser humano, sempre em contraponto com a natureza – ninguém filma o verde como ele – e o fascínio do homem pelos mistérios do mundo. E é exatamente isso que sentimos por Síndromes e Um Século. Um filme que da consciência monstruosa de seu autor ante o material filmado, e nas suas subversões estético/narrativas nos coloca diante de uma obra no mínimo sui generis e no máximo, genial.
Joe faz um cinema em que a imagem e os sentidos são os pilares para uma boa degustação de sua obra. Dessa forma, na junção de tudo isso, com o seu trabalho impecável de som, você pode se pegar no final da sessão em um estado de transe meditativo profundo. Afinal, a intenção de Weerasethakul é nos transportar para uma outra dimensão. Uma dimensão em que ele orquestra a magia da vida através dos pequenos momentos do cotidiano, inseridos em um mundo em que as regras são quebradas o tempo todo. Um filme seminal, assombroso e insólito. Mais uma obra-prima extremamente gratificante que tive o imenso prazer de poder ver nessa Mostra tão cheia delas.

Cotação: * * * * *

Juventude em Marcha

O digital nunca mais será o mesmo depois de Pedro Costa e sua seminal obra-prima Juventude em Marcha. Aqui, ele, num tratamento formidável da fotografia, através de planos fixos meticulosamente enquadrados, vai falar de gente, especificamente dos imigrantes cabo-verdanos que estão prestes a se mudar para o novo conjunto habitacional construído pelo governo.
Pedro Costa nos seus indefectíveis ensaios de textos sobre saudade e sobre o dia a dia e na sua relação profunda com a geometria dos espaços, eleva o seu cinema simples até não poder mais a um estado de refinamento artístico impressionante.
Muito disso vem da interpretação assombrosa de Ventura (não ator, interpretando a ele mesmo), um dos sem-tetos que estava para ser transferido para o tal conjunto habitacional. Ele é o eixo desse ensaio de poesias que tornam os homens cada vez mais homens e, por isso, mais fracos e covardes, mais saudosos e resignados, mais sábios e serenos. Juventude em Marcha é, talvez, a mais impressionante demonstração de que, pra se fazer cinema, basta sensibilidade, paixão e conexão com o que se quer filmar. E Pedro Costa agrega isso tudo num cinema bastante naturalista, impregnado de um lirismo estranho, mas profundamente belo.
Em Cannes o filme estreou na mostra competitiva e foi, sem dúvida, o choque estético do Festival. Porque Pedro Costa, bem ao modo do casal de cineastas Straub e Huilet (e seu ensaio de poesias em Gente da Sicília), filma o nada. Pouca coisa além de pequenos assuntos do dia-a-dia daquelas pessoas, que na sua banalidade, termina por nos retratar toda uma situação extremamente complexa que os imigrantes Africanos enfrentam na Europa. Além da poesia falada que irá costurar todo o filme, o cineasta português, utilizando-se dos mais imprevisíveis enquadramentos que colocam o homem perdido na geometria do espaço, na sua frieza, irá atingir o sublime, numa espécie de elogio à simplicidade. Um filme que, apesar de exigir um pouco do espectador, retribui de forma generosa, ao seu final, com um cinema cheio de frescor, pureza e sensibilidade.


Cotação: * * * * *

Rafael C. Parrode
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terça-feira, 7 de novembro de 2006

Editorial nº 03 – Liberdade é isso: Foi dada a largada para as polêmicas!


Aqui estamos nós com a terceira edição da Arca! Muitos textos interessantíssimos e muitos assuntos a se discutir: relação entre pais e filhos; entre amigos; entre nós e nós mesmos; entre nós e os filmes; entre nós e o mundo! E foi dada a largada para as polêmicas! Eu sabia que em algum momento as divergências de opiniões iriam surgir, entre nós e os leitores e entre nós mesmos. Mas não pensava que isso demoraria tão pouco tempo e nem que me envolvesse já de primeira. (risos) Nossa democracia sugere réplicas e tréplicas e lá vou eu com minha carta de resposta ao Senhor César Henrique Guazelli, pela sua citação no texto de quadrinhos.....

“ Camila, se quiser mudar o título, à vontade. Esse aí foi porque eu tava sem idéia melhor. Deve haver algum erro de concordância por aí, pois escrevi bem rápido. Não repara por ter sido usada como exemplo, viu? Beijo” Era o que dizia o e-mail.
“ Caralho! O César acabou comigo no texto dele!” Era o que eu dizia.

Como editora, eu poderia muito bem reclamar de “ter sido usada como exemplo” ou, simplesmente, editar o texto e não se fala mais nisso! Mas onde estaria a liberdade de escrever “o que nos der na telha” que eu tanto ovacionei na criação da Arca Mundo? Então, aqui estou, para os devidos esclarecimentos...
Não, eu não sou uma ignorante e não, não critiquei os quadrinhos do César, como possa parecer! Confesso que não entendo nada de quadrinhos e que passei a minha vida entrando em contato e tendo como referência a Turma da Mônica, mesmo – aliás, quadrinhos esses que eu adoro e leio até os dias de hoje! Mas, quando falei sobre a editoria de quadrinhos com o senhor César, foi em um tom de brincadeira e debochando da minha própria falta de conhecimento sobre o assunto. Concordo plenamente com todo o conteúdo do texto dele. Acho que tem muita gente desinformada e insensata por aí, que quer falar mal do que não conhece. E acho, também, que nunca é tarde para se conhcer!
Da mesma forma que eu cresci lendo Turma da Mônica, também cresci ouvindo música pop, vendo filmes Hollyoodianos e entrando em contato com literatura barata. Entretanto, em algum ponto da minha vida, pude conhecer e passar a gostar de rock e mpb, de cinema de arte e de tragédias gregas. Talvez seja agora, e com a ajuda, justamente da sua editoria de quadrinhos, que vou passar a conhecer melhor e a desfrutar (ou não) desse universo do qual ainda sou tão leiga. Dessa maneira, poderei, como você frisou bem no seu texto, conciliar Turma da Mônica e Art Spiegelman, Los Hermanos e Funk, Kiarostami e comédia romântica, Ésquilo e revistas femininas. Portanto, morte aos críticos insensatos e viva a diversiadade!!
P.S: ê César...amanhã eu te pego na esquina..... hehehehehe
Camila Pessoa.
Copyright Arca Mundo. Todos os direitos reservados.

PARA LER OS QUADRINHOS


"Antes da minha prisão, a viagem não teria significado nada para mim’’.
Sandman

Antes de levar essa editoria adiante, gostaria de deixar algo bem claro. Pra isso, vou contar uma historinha breve. A Excelentíssima Senhora Camila Pessoa, editora e idealizadora desse tal Arca Mundo, certo dia me disse:
- César, eu estou fazendo um Blog, estou muito animada com ele e queria que você escrevesse sobre política pra mim, tudo bem?
Eu respondi:
- Ué Camila, eu posso escrever no seu Blog, é uma boa idéia mesmo, mas porque você não faz o seguinte: passa a editoria de política pra outra pessoa, porque não agüento mais falar sobre isso, e eu escrevo sobre quadrinhos?
Ao que ela respondeu:
- Ah nem César, você quer escrever sobre quadrinhos, como você vai arrumar assunto pra isso? Falar da Turma da Mônica toda semana?

Pois é. E aqui estou eu com minha editoria de quadrinhos. Só quero aproveitar a deixa da Camila pra esclarecer algumas coisas. Quadrinhos não é coisa de criança. Melhor dizendo, não é SÓ coisa de criança. Como todo e qualquer veículo de comunicação, como toda linguagem e forma de expressão, os quadrinhos (ou comics, ou banda desenhada, ou hq, como preferir) se colocam como uma possibilidade imensa de construção de realidade e criação. É difícil seguir contra uma cultura tão pasteurizada como a nossa, que não percebe a distinção entre forma e conteúdo; que tende a abstrair a construção histórica do nascimento, consolidação e exploração comercial de determinados veículos de expressão como se fosse a sua própria essência. É difícil perceber que a literatura, para a grande maioria das pessoas, não vai além de O Senhor dos Anéis, o Código da Vinci ou, mais recentemente, o Caçador de Pipas. Igualmente, é duro abstrair que o cinema é tão visceralmente atrelado, no imaginário coletivo, aos mecanismos de Hollywood, engessado em um padrão de codificação lingüística caduco e pouco atrativo, e que a maioria desconhece a quantidade de produções feitas no mundo todo fora do eixo do cinema industrial. Coisa ainda pior ocorre na música. Sempre me deparo com tribos e grupos que ouvem determinado estilo de música e, de forma quase irracional, excluem outros vorazmente, apenas para se afirmarem. Assim, bangers, indies e grungeiros não podem ouvir música baiana, brega, forró, pagode ou sertanejo, sob a pena de serem tachados de posers. Vivemos em um mundo que limita.
A forma dos quadrinhos é uma coisa, o conteúdo é outra. Se os comics se afirmaram, enquanto cultura de massa, sobre a exploração de personagens animais antropomorfizadas (Gato Félix e Pato Donald são ótimos exemplos) e super-heróis, isso não quer dizer que devam ser, necessariamente, escritos nesses moldes. Muito pelo contrário. Há uma vastidão enorme de produção quadrinizada profissional e amadora em todo o mundo - embora eu ache essa distinção absurda – nas mais diversas linguagens, sobre uma variação temática quase ilimitada e, a cada dia, mais autoconsciente e inteirada de seu papel, seu ‘’fazer-se’’ e seu lugar, que se amplia a passos largos. Aos poucos, os quadrinhos são aceitos no meio acadêmico (Humberto Eco tem grande contribuição nisso) e afirmados como produção séria, especialmente após Art Spiegelman ganhar o prêmio Pulitzer com seu MAUS e Joe Sacco se tornar uma elogiada referência com seu jornalismo em quadrinhos, produzindo obras monumentais como Palestina – Uma Nação Ocupada e Área de Segurança Gorazde. O que esses dois autores conseguiram em termos de profundidade e sensibilidade na representação dos horrores do Holocausto, da Guerra da Palestina e da Guerra da Bósnia é algo impressionante e digno de menção, que vale a pena ser lido.
Entendamos por quadrinhos toda e qualquer forma de representação baseada na exposição seqüencial de desenhos ligados por uma lógica discursiva. Os quadros componentes da história podem ser puramente pictóricos ou apresentar também elementos textuais que representam falas, pensamentos e narrativa em off. Dentro desses padrões, o único limite é a capacidade criativa do autor.
Se eu gosto de super heróis? Claro, alguns. O que eu tenho contra a Turma da Mônica? Nada. Sou um grande fã. Qual minha implicância com O Senhor dos Anéis e O Código da Vinci? Absolutamente nenhuma. São leituras muito agradáveis. Se eu tenho cisma com Hollywood? De jeito nenhum. Adoro me deleitar com os efeitos especiais de última geração e aquelas explosões fabulosas dos filmes de ação. Se eu sou poser? Huumm.. nos termos apresentados, sou sim, absolutamente. A questão não é a crítica pela crítica. Somente acho que não podemos ver o mundo, limitados pelo cabresto. Se não gosta de quadrinhos, tudo bem. Mas tem uma coisinha: se quiser criticar, argumente. Se quiser argumentar, conheça. Se quiser conhecer, leia. Em outros termos: DEIXEM DE SER PRECONCEITUOSOS! IÉ!
César Henrique Guazelli.
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Apenas mais uma tarde de calor

Vou fugir um pouco da minha editoria. Não sei ao certo o motivo. Só sei que precisava escrever algumas linhas sobre isso e publicá-las no Arca Mundo. Tudo começou num final de tarde qualquer. Final de mais um dia insuportável de trabalho. Escutando a insuportável Voz do Brasil, no meio de um trânsito também insuportável. Seria apenas mais uma parada em um dos infinitos sinaleiros de Goiânia se eu não visse a três carros na minha frente uma movimentação de estudantes recém passados no vestibular.
Há três anos atrás era eu quem estava ali. Também pedindo esmolas pra pagar a farra de um dos dias mais felizes da minha vida. Ao contrário dos pedintes por necessidade, fui recebido com muita cortesia por todos que eu abordava. Mesmo se não rolasse grana, sempre eu saía recebendo um sorriso, ou um brinco, ou uma dose de pinga. Enfim, tudo era farra e tudo era válido.
Mas voltando ao meu final de dia insuportável, quando eu vi a movimentação, tratei de separar algumas moedas para dar pra primeira pessoa que aparecesse na minha janela. Eu já havia sentido a mesma felicidade anos atrás. Era a minha hora de retribuir. Via a menina se aproximar cada vez mais do meu carro. Eu com as mãos estendidas na janela e com um sorriso no rosto. Ao chegar no carro da minha frente, a menina virou e voltou pra calçada.
Olhei pro semáforo pra ver se ele tinha esverdeado. Não tinha. Demorou mais algum bom tempo pro sinal abrir. E ninguém veio receber o meu dinheiro. Fiquei tão transtornado que apaguei o carro na hora de sair. Obviamente recebi uma chuva de buzinas. Fingi que não ouvi e segui em frente. Não queria admitir, mas aquilo me abalou mais do que eu imaginaria.
Pra começar, não haveria situação melhor pra coroar um dia frustrante. Tentei imaginar mil motivos pra justificar ninguém ter vindo apanhar meu dinheiro. Mas o único que eu tinha em mente foi a de que eu era um sujeito tão decepcionante que nem a minha grana alguém queria.
- Pra que perder meu tempo ali naquele carro popular prata ocupado por um cara tão comum? – Foi o que eu pensei que tinha passado na cabeça da menina quando ela deu meia-volta e não passou por mim. Foi aquele o dia em que eu mais me senti medíocre em toda a minha vida. E olha que ser medíocre não é ruim. É apenas estar na média das outras pessoas.
O que mais me doeu foi lembrar que há três anos atrás era eu quem estava ali. Com idéias mirabolantes. Planos para fazer diferença nesse mundo e, justamente, não estar entre a multidão de homens voltando do trabalho após mais um dia frustrante, a bordo de seus carros populares. E o problema não é o carro. Provavelmente eu estaria mais feliz se voltasse de bicicleta após uma jornada de trabalho compensadora.
Após esse fato eu passei a questionar os rumos da minha vida. Lembrei-me que o primeiro conto que eu escrevi, “A Renda Preta”, tratava-se justamente de um homem mediano que perdeu toda a vida esperando alguma coisa que nunca chegou. O temor de que aquele homem seria meu alter-ego atormentou-me após esse fato. Devo admitir que parei no primeiro boteco que eu vi e pedi uma cerveja. Também devo admitir que não a bebi. Tudo o que eu precisava era ficar lúcido para não esquecer que eu não estava feliz.
Aos vinte anos, percebi que estava tendo preocupações de gente um pouco mais experiente. Estava mais interessado com o preço do gás, que com a comida que eu iria comer. Mais preocupado com o preço da gasolina do que com a felicidade de sair para encontrar as pessoas que eu gosto. Tudo o que eu sempre mais tive medo em toda a minha vida.
Não quero falar o final dessa história porque ela ainda não chegou ao final. Mas posso adiantar que tomei algumas providências pra que ela não seja igual à do personagem que eu criei. Não sei se surtirá efeito. Porém, o próprio fato de estar escrevendo sobre algo tão íntimo para ser publicado já é um grande passo. Tal atitude seria impensável há alguns meses atrás. Além disso, passar tardes tão agradáveis como a de hoje, acompanhado de pessoas que eu gosto demais já é um grande passo. Já havia alguns anos que as minhas tardes não eram mais minhas. Sem falar que pra essas pessoas certamente eu não sou apenas mais um cara medíocre no mundo. Para elas eu fiz a diferença.
Paulo Henrique dos Santos.
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Seria ótimo! Seria!


Tudo começou numa noite de quarta feira. Noite incrível, aliás! Eu, Eula, Maria Claudia (Arca Mundo), Rafa e Marquinhos (da Comunidade Cinema, Diversão e Arte no Orkut) fomos ao teatro. Assistimos a um monólogo incrível de uma companhia carioca. - A propósito, se algum dia estiverem em qualquer lugar onde esteja em cartaz A Descoberta da América, não percam! É fantástico! - Pois bem, ao final do espetáculo, nos reunimos na casa da Claudinha para beber um bom vinho (um vinho mais complexo, como ela disse) e conversar! Noite agradabilíssima, que se estendeu até a manhã do dia seguinte, com direito a cafezinho e nascer do sol na sacada. É muito interessante como todos temos um voyeur dentro de nós! Vimos o dia nascer observando os transeuntes de seis horas da manhã de um feriado e fazíamos adivinhações e piadinhas: “hummm chegando bêbado a essa hora?” “ A noite foi boa para aqueles dois ali, hein?” (apontávamos pra um casal seminu na sacada do prédio em frente). Conversa vai, conversa vem... surge a idéia mirabolante: Vamos pra Brasília? Olhamos uns pra cara dos outros meio em dúvida do que nosso teor alcólico nos levaria a decidir... mais do que depressa, respondemos: Seria ótimo! Seria! Só não fomos no mesmo dia, porque estávamos sem dormir e não sobreviveríamos à viagem. Mas não seja por isso, amigos empolgados sempre dão um jeito. E marcamos a aventura para o sábado.
Na sexta feira, as mocinhas se encarregaram de dormir na casa da Claudinha. Ah! Nota: As mulheres são sempre mais animadas! Quase todos os homens convidados recusaram ou desistiram da viagem! Sobrou o guerreiro “bendito é o fruto” Marquinhos. (Isso porque a Claudinha não contou pra ele que os outros exemplares masculinos não iriam. Talvez se ele soubesse, desistisse também. Êta machaiada desanimada sô!). Enfim... nos reunimos na casa da Claudinha e, aproveitando a discussão da guerra dos sexos, fomos ver Sex and The City! Os episódios trariam mil discussões pra a minha vida, mas isso já é tema pra outra pauta de umas três laudas.
No dia seguinte, saiu o bonde pra Brasília. Detalhe: O Floquinho foi com a gente. Leia-se: Floquinho = cachorro da Claudinha. Camila = alergia de cachorro. Tive que adaptar meu nariz a uma maratona de espirros sem precedentes. Mas coitado do Floquinho, ele também não tinha culpa... No caminho fomos contando as loucuras de amor que já vivemos. É uma pena que eu tenha dormido durante toda a história da Claudinha em Paris, parecia interessante! Chegamos à Capital Federal! Mortos de fome, claro. Almoçamos num lugar fantástico de comidas orgânicas e naturais chamado Naturetto (sim, a Arca Mundo faz propaganda gratuita de todas as coisas que gostamos!) Talvez isso servisse de inspiração para a Eula, que é responsável pela nossa editoria de Meio Ambiente, mas nunca havia escrito uma pauta sequer! (Acho que deu certo. Tem texto dela nessa edição!) As coisas mais legais de lá, além da comida, claro (torta de ricota, beterraba ao molho de mamão, queijo de búfala, suco de manga com limão, chopp de vinho...), é a geladeira amarela estilo Família Dinossauro com pingüins em cima e a Junkie Box iluminada que toca discos de vinil! O máximo!
Depois do almoço interminável, fomos fazer um tour pela cidade e seguimos ao nosso destino: o Clube de Tênis, um dos lugares da cidade onde acontecia o Festival Internacional de Cinema de Brasília – FIC. Lugar muito bonito, bem decorado, com um café aconchegante e sofás macios. Assistimos a três curtas brasilienses, dos quais não gostamos muito, uma exceção foi Sob o Encanto da Luz (ou algum nome parecido com isso) que foi filmado na Chapada dos Veadeiros, a maior parte embaixo d´água. Tem uma fotografia muito boa e a edição foi muito bem feita!
Depois disso, o ponto alto da nossa viagem: o filme canadense Crazy – Loucos de Amor! Obra maravilhosa que trata da homossexualidade de forma sutil, delicada, bonita, sem ser apelativo, sem ser forçado. Com uma história envolvente, que traz pitadas de humor, que fala de relações, de amores, de família. Saímos todos encantados com o filme. Eu fiquei um pouco em estado de graça ao sair da sala de cinema, me emocionei bastante, confesso que até por outros motivos e a culpa é toda do ator principal! Não é um filme que te faz chorar, mas eu não me importo, gosto de chorar em filmes bonitos! É realmente incrível como uma bela obra consegue nos tocar, nos trazer lembranças, saudades, cumplicidade, adoro o cinema por isso! Pra completar, efervescência cultural total nos esperava do lado de fora: a apresentação de um quinteto de instrumentos de sopro; de dança chinesa; de um grupo de teatro e uma exposição de artesanato fecharam com chave de ouro nossa passagem pelo Clube de Tênis.
Decidimos, então, passar a noite em Brasília. Loucos animados, pois, mal tínhamos onde dormir. Nossa salvação foi Edson Sardinha, que gentilmente nos acolheu em sua kitnet. O passeio então, continuou, nossa próxima parada foi num shopping de decoração. A melhor coisa dele não são os móveis, e sim, uma livraria imensa, de dois andares, onde você acha tudo o que quer! As sessões de cinema e de jornalismo são incríveis, por sinal. Depois disso? Comer, é claro! O melhor do jantar foi o suco de caju, abacaxi e laranja... combinação muito boa! Ao final da super refeição já estávamos todos mortos de cansaço, pedindo cama. Pretendíamos passar num bistrô antes de dormir, mas não conseguimos! A parte cômica da viagem: a Eula resolveu despertar depois do banho e não nos deixava dormir. Estávamos as três mocinhas dormindo juntas na sala do Edson, no seu sofá-cama e a Eula simplesmente não nos deixava dormir. Não, não precisamos dormir de conchinha! Muitas risadas depois, desmaiamos. Com a certeza de que o horário de verão ainda nos acordaria uma hora mais cedo que o previsto, que, por sinal, era cinco da manhã!
Cinco da manhã: a boate da Claudinha desperta e ela não! Se não é o “bentido é o fruto” do Marquinhos pra nos acordar, estaríamos dormindo lá até hoje! O bonde de Goiânia saiu. Novamente com o Floquinho a bordo. Detalhe: ele fez xixi dentro do carro na volta! E pela segunda vez na semana, vimos o sol nascer juntos! Sabe, acho que precisamos nos presentear às vezes com a companhia dos amigos num programa diferente, assim. Foi um fim de semana incrível que, como disse a Claudinha, vai ficar na memória e, apesar de clichê, as nossas memórias não têm preço! Me lembrei do meu primeiro editorial: Subvertam sempre! Taí! Vamos subverter o que essa semana?
Camila Pessoa.
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FILHOS E PAIS


''Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem...'' (Khalil Gibran)



Essa semana fui buscar na sabedoria ancestral de Khalil Gibran a lição do desapego aos filhos, esses seres maravilhosos que enchem nossas vidas de amor, aprendizado e alegria.

É talvez, uma das lições mais difíceis de se colocar em prática. Os pais, em geral, têm a falsa noção de que os filhos lhes pertencem, que nunca se separarão deles. Ledo engano, a separação pode ocorrer muito antes do que se imagina. Para a maioria de nós, pais despreparados para a verdade da vida, é doloroso, muito doloroso.

Os pais freqüentemente constroem suas vidas em torno da vida de seus filhos. Desde coisas simples, como seus horários – se é que pais têm seus próprios horários – até questões mais complexas, como escolhas profissionais. Se vão ao cinema, têm de ser depois que os filhos jantam; se querem férias tranqüilas nas montanhas, têm de colocar os pés nas areias escaldantes de alguma praia da moda, porque filhos adolescentes querem 'ver gente'. Enfim, suas vidas ficam governadas por eles.

''Filhos, melhor não tê-los, mas se não tê-los, como sabê-lo?'' Eles nos acordam 5 vezes por noite quando são bebês, não nos deixam cochilar nem por um instante na fase dos 3 aos 7, até a adolescência somos professores, motoristas, babás e, nas horas vagas, cozinhamos para eles. Na adolescência, somos tão somente motoristas – e isso é bem chato – 'mãe: me leva ao shopping', 'mãe: preciso ir à casa da Nat', 'pai: minha aula de ginástica'; 'mãe: tem festa no sábado à noite, não marca nada'. Depois da carteira de motorista, você, que acordava 5 vezes por noite, fica acordada a noite inteira. Quando se mudam, não comem direito, não dormem direito e quando o telefone toca um pouco mais tarde, acordamos alarmados.

Mas os filhos são uma dádiva de Deus – para os que acreditam Nele. Eles nos ensinam o verdadeiro significado da palavra amor. Nos exercitam no altruísmo, arrebentam com nosso egoísmo, eles nos ensinam todos os dias o valor da paciência, da tolerância, da aceitação integral do outro. Filhos nos ensinam que não somos deuses, e, portanto, não temos controle sobre tudo o que acontece na vida. Filhos são um pedaço de nós com personalidade própria. São nossa estória escrita diferente, e, em alguns momentos, tão igual que chega a assustar.

Eles fazem parte de nossas vidas, mas não nos pertencem, têm vida própria, tomam decisões, fazem escolhas. Só nos cabe alertá-los das conseqüências e apoiá-los em suas decisões.

''Mãe: Tomei uma decisão. Não me adaptei, vou voltar para Brasília no ano que vem. Vou morar com meu pai.'' (V., 11 anos)
''Mãe: Não gosto daqui. Vou morar com meu pai.'' (I., 14anos)
Maria Claudia Cabral.
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“Eu choro em finais tristes!”


Este é o título de uma das comunidades do orkut que falam das milhares de pessoas choronas nos finais de filmes comoventes.

Feriado longo e a falta de dinheiro. Estes foram os motivos para que eu fizesse um programa barato e que desse prazer! Assistir filmes. Mas um problema surgiu na locação. Será que na Cine Marista teria algum filme que consolasse o fato de eu não ter saído de casa no feriado? Consegui alguns nomes bons: 21 gramas, Menina de Ouro, Diários de Motocicleta, O Declínio do Império Americano e Invasões Bárbaras. Eu teria quatro dias para assisti-los, afinal, na quarta-feira havia gastado quase todo meu dinheiro com algumas cervejas, na companhia boa dos amigos.
Comecei no dia seguinte com Diários de Motocicleta. Um bom filme. Porém, à noite, não resisti ao convite de beber, com os mesmos amigos, algumas bohemias. No bizarro boteco, convidei uma amiga para dormir na minha casa, para que no dia seguinte pudéssemos assistir a algum dos filmes. Ela topou o convite.
Acordamos às dez horas dispostas a ver Menina de Ouro. O filme rolava. Nós duas ficamos, de alguma forma, presas às lutas de Box, à luta da personagem principal para ser alguém na vida e em tantos outros dramas emocionais!
Quando o Lisandro - nosso professor de cinema - falava incansavelmente sobre a tal da identificação entre personagem e espectador no filme hollywoodiano, eu não me imaginava tão suscetível ao conceito. Nas suas aulas, eu sempre dizia: “Ah...Já sei que tudo que vejo foi pensado pra me atingir, então eu não choro no final desses filmes!”
A Pessoa e eu “quebramos a cara” com essa história. O filme de Eastwood nos colocou ao lado de Magg, a personagem principal. Fomos capazes de parar o dvd quando o nariz da moça é quebrado no meio da luta. Minha amiga, que tem horror a sangue, mesmo tendo consciência de que aquele líquido vermelho nem fosse sangue mesmo, quase passou mal. Mas quando digo “quase” é porque, de fato, começamos a gritar ao ver a cara da personagem esmurrada brutalmente.
A experiência de se colocar junto às cenas ficou muito clara nesse dia. O dono da academia era ressentido. Sim, ele era! Nós duas víamos, nas centenas de cartas devolvidas que ele enviava à filha, um dos motivos para isso. Quer dizer, passamos a justificá-lo enquanto carrancudo. Ou então, passamos a dizer: “que mulher bruta essa Magg”, ao vê-la nocautear tantas lutadores e sempre no primeiro round!
Mas, a propósito, o que é se identificar com um personagem? Ou conseguir botar o espectador dentro de um filme? Eu pensava que tinha a resposta... Bem, o Edgar Morin diria que “a identificação constitui a alma do cinema”. Eu diria que a minha (ou a nossa) participação afetiva, embriagante, em Menina de Ouro, há muito não acontecia, afinal de contas, as aulas de cinema me diziam que espectadores “normais” é que tem um olhar domesticado e blá blá blá. Ou seja, se estudantes de jornalismo, por exemplo, sabem que tudo é feito sob medida para o espectador, não existe um motivo lógico para que a gente caia nesse “apelo emocional” das indústrias de cinema hollywoodiano. “Então, onde você está, Maraísa?” – indagou a minha afetividade.
Vi que eu estava ao lado das pessoas comuns que vão ao cinema – com a sorte de ver um Menina de Ouro, por exemplo. Tudo isso, porque, não deixamos de ser menos humanos quando a racionalidade dos estudos nos invade a cabeça. Não deixamos de nos compadecer ou de nos identificar, exatamente porque somos constituídos de algum amor. Perdido em nossa alma, confesso! Mas bons diretores, como Eastwood, podem botar à tona um restinho de emoção que camuflamos frente à dureza do aqui e agora. Ah...Outra lição: mesmo que hollywoodianos, alguns filmes devem ser pacientemente assistidos. Nem que seja pra que possamos constatar que a identificação teve sucesso conosco, meros mortais.
E o feriado continuou com mais filmes...
Maraísa Lima.
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Ambiente Inteiro


Vamos parar de aceitar um ambiente pela metade


Muita gente pensa que comer orgânicos é só uma questão de saúde; que não jogar papel no chão é só uma forma de ser educado; que abastecer no posto da Petrobrás é só uma ideologia barata e que muitas outras coisas são só detalhes indiferentes e imperceptíveis para a humanidade.
Ações ecologicamente corretas podem ser realmente indiferentes à humanidade, mas não imperceptíveis. A grande maioria não considera relevante a preocupação com o meio ambiente e, por isso, julgam o papel dos ambientalistas e ecologistas como devaneios. No entanto, esses mesmos devaneios, em conjunto, são a grande possibilidade de perpetuação do homem no planeta.
Insistir em educação ambiental, assim como, em defender a sustentabilidade e as políticas públicas ambientais é criar condições para a sobrevivência da humanidade. A nossa futura geração não merece se extinguir em conseqüência de nossas atitudes impensadas e irresponsáveis.
A completude e o equilíbrio harmônico existente no meio-ambiente é dependente do papel de cada um. Os indivíduos são responsáveis pela criação de um “ambiente inteiro”, que englobe a todos e ofereça condições iguais de consumo e usufruto.
Então, para que cada um comece a defender a sua casa, tenho umas boas dicas:
* Conheça a Associação para o Desenvolvimento da Agricultura Orgânica (Adao) – não se incomodem com a propaganda, pois não escondo minhas preferências. A associação comercializa alimentos produzidos sem agrotóxico e contribui com os pequenos produtores de orgânicos. A agricultura orgânica consiste em uma prática economicamente sustentável, que se preocupa com o legado cultural e com a perpetuação das terras. A feira da Adao ocorre todas as terças-feiras, na praça Cívica, na esquina da Rua Araguaia, no Ministério da Agricultura.
* Desenvolva idéias e projetos aliados à responsabilidade sócio-ambiental. Toda atividade deve acompanhar esse novo paradigma científico da ecologia.
* Proponha textos e pautas para esta editoria de meio ambiente, nada como a democracia para a perpetuação e efetuação de uma ação ambiental.
Eula Lôbo.
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quinta-feira, 2 de novembro de 2006

Mostra SP de Cinema: Quinto Dia - Quando o Mundo se revela em dois filmes.

Investigação Sobre Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita

Hoje foi dia de ver um dos principais títulos que compõem a retrospectiva do Cinema Político Italiano promovida pela Mostra. Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita de Elio Petri nunca chegou comercialmente ao Brasil e por isso seu contato com o público tem sido mínimo. Muitos falavam do filme como sendo o melhor dentre os títulos e por isso, minha expectativa era enorme.
Elio Petri não chega a ter o domínio da linguagem cinematográfrica que tem um Damiani, um Bellochio ou mesmo os irmãos Taviani. Seu estilo rebuscado, com a câmera vertiginosa e nervosa, os atores sempre gritando uns para os outros, me pareceu em vários momentos, excessivo e desproposital. Não que o filme não tenha seus momentos memoráveis, quase todos eles, aliás, surgem quando entra em cena a bela Florinda Balkan, e Petri parece mais sereno diante daquela beleza radiante.
É um filme que abusa do sarcasmo e da ironia, para abordar uma estória de forte teor político. Uma comédia de erros, rasgada, abusada, mas sem tanto brilho como eu imaginava.
Eu que já havia visto o belo O Crocodilo, cinema político para além da simples denúncia, e que já tinha visto tantos filmes do genial Marco Bellochio (De Punhos Cerrados, Bom Dia, Noite, A China Esta Próxima), além do excelente Uma Bala para o General de Damiano Damiani, fico com aquele gosto de “quero mais” com o fim da sessão. Investigação é um filme que por mais importante que seja, não envelheceu tão bem. É uma obra que tem lá seus momentos, mas não chega a impressionar! Pena!

Cotação: * * *
Serras da Desordem

Como um filme pode mudar nossas vidas, nossa visão de mundo, invadir nossos pensamentos, nossas almas? Essas respostas foram-me todas respondidas após o fim da sessão do brasileiro Serras da Desordem, de Andréa Tonacci.
Tonacci era pra mim, um diretor desconhecido. Mesmo apesar de saber de sua importância para o cinema nacional, quando na década de 70, ele fazia um cinema bastante underground e por isso mesmo, nunca teve o hype de diretores da época que ganharam notoriedade como Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Arnaldo Jabor.
Fato é que ele chega depois de um hiato de quase 30 anos - tempo em que se dedicou a este projeto - com uma das mais bonitas e essenciais obras-primas dessa Mostra e talvez de toda a história do cinema brasileiro.
Serras da Desordem é, antes de qualquer coisa, um lamento a essa civilização decadente, de valores completamente deturpados e invertidos, de um mundo que, em nome do progresso, deixou de olhar a vida e tudo o que dela vem.
Não bastasse ser o filme-vida que é, Tonacci, como cineasta e estudioso da linguagem cinematográfica, vai ainda muito além do que havia feito, por exemplo, Eric Khoo em seu Fica Comigo, ao misturar ficção e realidade. Isso porque, ao recontar a saga do índio Carapiru, Tonacci vai reencenar certos trechos de sua vida (com o próprio Carapiru, aliás). Utilizando-se de imagens documentais - que vão de filmes da época como o seminal Iracema: Uma Transa Amazônica de Jorge Bodanski, até imagens de Telejornais, também da época - busca refazer os passos daquele homem que, separado de sua tribo após um ataque de grileiros, vagou durante meses pela selva e, encontrado por camponeses, com eles viveu por um bom tempo. Mesmo sem entender uma só palavra do que diziam, fez grandes amigos, pessoas que lhe amaram, lhe deram carinho e cuidado. Após uma denúncia, é trazido pela FUNAI para Brasília, e lá, frente ao choque com a civilização, Carapiru aos poucos irá perder a fé na vida, no seu Deus maior. Por ironia do acaso, quando chamado um tradutor para conversar com o velho índio, este que vem é ninguém menos que seu filho, separado dele há 16 anos por criminosos invasores que expulsaram e assassinaram centenas de índios nas florestas desse Brasil. Carapiru será levado de volta a sua tribo, e lá vai perceber que o veneno da civilização e do progresso terá atingido seu povo. Tudo o que ele vivera ou sonhara não passa agora de uma utopia. Carapiru então desiludido e triste se embrenhará no meio da floresta, e lá, travará seu primeiro contato com Andréa Tonacci, num final de uma beleza que faz jus a esse impressionante filme que é Serras da Desordem.
Assim, o filme irá nos confrontar com essa realidade torpe de uma sociedade que, na busca pelo ócio através do progresso tecnológico, criou um imenso vazio espiritual, um distanciamento abissal do homem com a natureza, uma quebra de valores tão caros a esse planeta doente e carente de lamentos, que gritem por socorro, por um chamado divino, para que um dia nos possa vir a salvação. Talvez, vendo obras como essa, possamos despertar em nós, o desejo da mudança, da reavaliação de nossas vidas, nossas prioridades, nossos anseios, nossa verdade, nossos valores, nossa condição humana.
Tudo o que eu disser sobre esse impressionante filme nacional - mas que carrega consigo um teor imensamente global, pois no registro do microcosmos, abrem-se as portas para o macro – pode soar pequeno, bobo. Mas é sem dúvida o filme brasileiro a ser descoberto. Um filme que o mundo todo deveria ver. Me lembrou de certa forma O Novo Mundo de Terrence Malick, por ser um lamento semelhante. Com a diferença que aqui, a ficção e a realidade são uma coisa só! E o impacto disso em nós é infinitamente maior!

Cotação: * * * * *


Still Life

Jia Zhang-Ke, que recebeu o prêmio de melhor filme na Mostra passada pelo primoroso O Mundo, é talvez o mais promissor e respeitado cineasta contemporâneo. Foi há alguns anos quando descobri o seu belo Plataforma num festival aqui em Goiânia, porém, que meu olhar se voltou com grande interesse pelos seus trabalhos. Portanto, a estréia de uma obra como essa, após sua consagração com o Leão de Ouro no Festival de Veneza, parecia o grande acontecimento desse Festival. Sessão completamente lotada, ansiedade pipocando. Entretanto, logo no começo da projeção, algo estranho. A cópia, que havia sido divulgada pela organização da Mostra como sendo em 35 mm, estava em digital, com formato da tela errado, deformando os corpos dos atores e as linhas que compunham o filme, as cores distorcidas sem contraste, o som também. Só 40 minutos depois de já iniciada a sessão a janela foi alterada (a pedido de algum entendido que ali estava), mas a cópia, visivelmente tosca, ainda nos deixava apreensivos, por não poder estar de fato, diante da obra que consagrou Jia em Veneza.
A partir daí, todos os críticos de cinema que lá estavam, foram unânimes em excluir Still Life da programação como “o filme que não passou na Mostra”. Afinal, uma obra de arte deve ser apreciada em sua plenitude, sem qualquer alteração que desvirtue todo o trabalho impecavelmente concebido pelo seu autor.
Diante disso, eu, com meu olhar não tão rigoroso, me deixo embarcar pelo cinema de Jia. E não é um cinema qualquer. É arte plena de pensar o mundo via imagens, por mais clichê e batido que isso possa parecer. Still Life, nos seus movimentos de câmera lentos e que parecem levitar, serenos e calmos, é um cinema de meditação, de um transe formal delirante, de uma delicadeza impressionante. Jia pinta aqui sua natureza morta, mas sua arte, na morte, encontra a beleza da vida, dos seus pequenos momentos registrados com rara intensidade.
Still Life conta duas histórias sobre busca, encenadas numa cidade prestes a ser inundada para dar lugar à mega-usina hidrelétrica de Três Gargantas na China. Na primeira delas, um homem está em busca de sua filha, que foi levada por sua esposa há 16 anos. Na outra, uma mulher vai em busca do marido que saiu de casa em busca de trabalho há dois anos e nnca mais voltou. E nessa busca por seus amores perdidos, Jia no registrar daquele vilarejo, aos poucos sendo destruído para dar lugar aos anseios tecnológicos da humanidade, faz uma bela e profunda reflexão sobre o mundo em que vivemos. É uma ode triste a uma sociedade que coloca a evolução técnica, acima dos indivíduos, que atropela toda essa profusão de sentimentos humanos em face do progresso.
A princípio se dividindo em capítulos, que receberão os nomes, de “Cigarretes”, “Tea”, “Tofee” e “Liquer” - iguarias que um dos personagens, em troca de informações sobre a esposa e da simpatia das pessoas, irá oferecer - o filme irá aos poucos nos colocando dentro de um universo que, hora vai do banal, dos pequenos momentos do cotidiano, ao fantástico, em cenas que parecem atingir o sublime. É uma experiência rara de cinema, daquelas que te deixam marcas visíveis pra toda uma vida. É um filme que, na sua grandeza, nos permite ignorar o
descaso desse Festival e sua falha na exibição de uma cópia desfigurada, mas ainda sim viva, poderosa e capaz de nos elevar a um estado de graça transcendental.
É assim que termino esse dia imensamente gratificante, com obras tão distintas na sua forma, mas de pensamentos e intenções semelhantes. Serras e Still Life, são filmes que, vistos juntos, se complementam de maneira surpreendente. Obras de arte que elevam o cinema a um estado de pureza formidável. Nada menos que genial.

Cotação: * * * * *
Rafael C. Parrode
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Mostra SP de Cinema: Quarto Dia.

Um dia para Manoel: A Bela da Tarde, Conversas no Porto e Sempre Bela.

Hoje era dia de se dedicar a Manoel de Oliveira e seu mais novo filme Belle Toujours, ainda inédito na Mostra. Portanto foi programada sessão tripla que se iniciava com o clássico de Luís Buñuel, A Bela da Tarde, seguido pelo documentário Conversas no Porto - Com Manoel de Oliveira e Agustina Bessa-Luís e se concluiria com Sempre Bela. A maratona pré Belle Toujours era uma experiência pra se tentar compreender o artista profundamente instigante que é Manoel de Oliveira, desta vez, em homenagem ao cineasta Luís Buñuel, seu roteirista Jean Claude Carriére e seu clássico Belle de Jour.
Primeiro fato: rever a Bela da Tarde em tela grande, e cópia original vinda da cinemateca do Rio é uma experiência forte, essencialmente a mesma de se ouvir um vinil do Pink Floyd. É o pouco que tenho a falar sobre essa obra-prima deflagradora que é o filme de Buñuel.
Eis que se inicia então Conversas no Porto. Dirigido por Danielle Serge que aqui, assume o papel de simples e humilde registradora daquele momento histórico: o encontro de duas personalidades como o cineasta português de 97 anos, Manoel de Oliveira e a escritora Agustina Bessa-Luís, 84 anos, que teve alguns de seus livros adaptados para o cinema por Manoel (Princípio da Incerteza e Espelho Mágico). Aqui, eles conversam sobre cinema, literatura, música, Europa, Brasil, memória, saudade, vaidade, progresso... vida. Mas o que impressiona é mesmo a força, a lucidez e a curiosidade que ambos têm pelo mundo. Agustina certa hora diz que, se não fosse escritora, seria investigadora de polícia, tamanha é sua necessidade de se questionar as pequenas coisas da vida, e por isso, mais cheias de segredos e surpresas. Noutro momento, diz que nasceu adulta e vai morrer criança, e essa é a diese da impressão que se tem daquelas duas pessoas que na velhice encontraram a plenitude. Manoel, que sempre havia sido exemplo de artista e de vida pra mim, agora já era um herói. E assim chegamos ao momento chave do dia. A sala lotada de “manoeléfilos” estava pronta para ver Belle Toujours – Sempre Bela. Prontos? Ora, ninguém nunca está pronto pra um filme de Manoel de Oliveira.
Se em A Bela da Tarde o filme se centrava e Sevérine (Catherine Deneuve), aqui, 40 anos depois, o foco é Hussom (Michel Piccoli ainda mais inspirado que no primeiro filme). Manoel, que abre seu filme com o espetáculo de uma orquestra, onde os personagens se virão pela primeira vez, fará, a partir de então, um jogo de gato e rato em que Hussom irá perseguir Sevérine (Ulle Orgier, que não deve em nada para Deneuve) pela cidade de Paris, e ela atordoada, irá fugir daquele encontro. Nesse momento, Manoel ainda elege outra protagonista pra seu filme, e ela é Paris, seus monumentos, suas luzes... Hussom irá procurar por Sevérine em um bar e lá, após algumas doses de whisky, contará toda a história da bela da tarde ao barman (Ricardo Trepa), ao mesmo tempo em que será abordado por duas prostitutas (Júlia Buisel e a sempre encantadora Leonor Baldaque).
Mas é na segunda metade, quando os dois se encontram por acaso em uma loja de uma esquina de Paris, e Hussom coage Sevérine para um jantar, com a desculpa de revelar a ela se ele havia contado a seu marido sobre seu passado, que Manoel irá começar a destilar toda a sua perversidade e sarcasmo. Durante o jantar, Hussom, que mais parece um mestre de cerimônias sadô-maso, começa a alfinetar Sevérine. Manoel filma o jantar como uma cerimônia da gula e do gozo: primeiro eles comem, e a câmera elegante registra aquela refeição com um prazer absoluto. Depois Hussom, utilizando-se de seu sadismo, irá envolver Séverine num jogo psicológico em que ambos irão rever suas vidas, 40 anos depois de seu ultimo encontro. Mas ele em momento algum saciará suas dúvidas, num final com direito a uma cena surreal a lá Buñuel, talvez único link formal que Manoel irá travar com ele.
Buñuel investigava seus personagens de maneira ontológica, provocando-nos a todo o tempo, utilizando do escândalo pra falar da mulher reprimida da década de 60. Manoel, por sua vez, parece querer compreender - bem à sua maneira - historicamente, todo aquele imaginário, nos brindando com uma obra extremamente jovial, singular e dona de si. Seu cinema é o da elegância, da simplicidade, da limpidez. Por isso, Belle Toujours é um filme tão estranho. Porque na sua proposta de se fazer uma homenagem, ele vai além. Fazendo um cinema que busca o tempo todo pelo gozo. E esse gozo no final, virá menos pelo seu anticlímax (que por si só já é um gozo) e mais pelo estatuto da imagem que Manoel quer discutir. É um filme livre de grandes pretensões, em que o cineasta parece exercitar sua meninice, sua transparência. Exatamente por isso, a pequena duração - 68 minutos - parece destacar ainda mais essa busca de Manoel pelo pequeno, pelo banal, e dele retirar o seu máximo. Assim como Einstein, que da pequeneza de um átomo fez criar a bomba atômica, Manoel, de um oceano, retirou um grão de areia, e desse grão fez toda uma praia, linda e instigante. E é dessa forma que surge esse cineasta que aos 97 anos, chega esbelto, vigoroso e delicadamente perverso em mais uma de suas muitas obras-primas.

Cotação:
A Bela da Tarde: * * * * *
Conversas no Porto: * * *
Belle Toujours: * * * * *
Eu Não Quero Dormir Sozinho

Quem já viu qualquer filme de Tsai Ming Liang, sabe muito bem de quem estou falando. Cineasta poeta, que través de imagens minuciosamente arquitetadas, pensa o ser humano e suas ações com um lirismo formidável que se esquiva o tempo todo do óbvio. Em Eu Não Quero Dormir Sozinho, Tsai chega ao ápice de seu rigor formal. Sua consciência na construção de seus quadros, utilizando apenas planos fixos, sem um movimento de câmera sequer, demonstram seu completo domínio da linguagem cinematográfica. E como autor que é, ele repete certos cacoetes já arraigados na sua filmografia, mas desta vez, inseridos em um cinema mais pensado, mais prodigioso e que, se não tem a novidade de seus primeiros filmes, reestrutura todos os códigos por ele outrora utilizados, em um filme pleno em sua realização e na sua busca pela beleza das relações humanas.
Aqui, o cenário é o esqueleto de um prédio abandonado em que, em seu vão central, se formou um grande lago, que nos seus reflexos, parece erguer um grande conjunto habitacional sobre as águas. Nessa construção abandonada vivem os sem tetos de uma cidade da Malásia (terra natal de Tsai, onde ele filma pela primeira vez) e será nele que toda a poesia do filme irá surgir. Rawang é um rapaz que com a ajuda de outros companheiros carrega um enorme colchão achado no lixo da cidade. Durante o trajeto, encontram Hsiao-kang jogado na rua, todo ensaguentado, e será de Rawang a idéia de leva-lo à construção para lá receber cuidados até se recuperar. No quarto improvisado, agora com o novo colchão, Rawang irá acomodar aquele estranho e com devoção irá cuidar dele dia a dia, dando-lhe comida, banho, afeto. Com o tempo nascerá ali (principalmente por parte de Rawang) uma relação de carinho, de pai e filho, ao mesmo tempo de amizade, amor e paixão, travadas por aquelas pessoas, com toda a carga humana que tais sentimentos podem trazer, alimentada ainda pela incomunicabilidade de ambos: um é malaio e outro é chinês.
Hsiao-kang, aos poucos irá se recuperar, e com o tempo irá voar para longe daquele ninho em que fora abrigado. Numa lanchonete perto do prédio onde vive, ele conhece Chyi, enfermeira que cuida do filho da dona do bar (interpretado pelo mesmo ator que faz Hsiao-kang) que está em coma. É ai que ele, apaixonado por Chyi, a levará para prédio abandonado e lá, no colchão de Rawang irão se amar. Neste momento, a cidade estará completamente tomada por uma imensa nuvem de fumaça que irá obrigar a todos que usem máscaras de gases, o que carrega ainda mais a cena de sexo entre Chyi e Hsiao-kang de tensão, claustrofobia e desejo. Rawang entretanto ao presenciar a cena ficará louco de ciúmes e tentará matar o estranho amigo, desenbocando num dos finais mais bonitos que a Mostra me proporcionou até agora.
Tsai Ming Liang cria um jogo impressionate de reflexos e de luzes, criando atmosferas fortes que carregam seu filme ainda mais de lirismo e beleza, numa espécie de quase-ficção-científica apocalíptica, que destrincha as relações humanas, cada vez mais distantes, nessa sociedade materialista em que vivemos. É um filme que no captar das luzes de néon, ou nos reflexos da água no prédio encontra sua sublimação e nos transporta para um mundo extremamente rico e particular. É um filme majestoso e generoso, pois nos coloca diante de imagens que nos permitem infinitas interpretações. Que nos coloca, com certa crueza, mas sempre com muita delicadeza, diante dos males dessa sociedade desfigurada e rancorosa em que vivemos. Um filme de um artista na sua mais completa forma, que busca a plenitude, na superação da solidão, na busca pelos mais diversos olhares para se construir uma outra dimensão. Dimensão esta que investiga os males do real, e que possivelmente, nenhum filme realista conseguiria falar com tamanho impacto e profundidade.

Cotação: * * * * *

Flandres

Se Manoel de Oliveira se renova a cada trabalho, o mesmo não se pode dizer de Bruno Dumont. Seus melhores filmes, A Vida de Jesus e A Humanidade, sempre me soaram, como grandes exercícios de pretensão, esvaziados de humanidade e por isso mesmo vazios de qualquer sentido. Dumont trabalha os indivíduos como matérias mortas, como árvores secas, e não diferente, desta vez, ele os coloca diante da guerra, do caos.
Ora, se Dumont filma com grande destreza seus espaços e a maneira como eles dialogam com os indivíduos, ele só carrega ainda mais seu filme de nada, de vácuo. Por que ele, antes de seres humanos, filma pedras, sem forma, cheiro, gosto. E antes filmar pedras, e nelas tentar encontrar alguma humanidade do que o contrário. Por isso Flandres soa equivocado do começo ao fim. É um filme, que além de não trazer nenhuma novidade à carreira do diretor, não traz nada de novo aos filmes do gênero e termina por solidificar meu desinteresse por um cineasta que desconhece o ser humano, e por isso enxerga a vida de uma maneira pobre, árida, descolorida.

Cotação: °

Rafael C. Parrode
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terça-feira, 31 de outubro de 2006

Editorial n° 02: Uma Arca de Metades


Como todo acontecimento na vida tem que ter um pontapé inicial, a Arca Mundo deu seus primeiros passos. Nossa edição de estréia nos orgulhou muito, nos mostrou o caminho que devemos seguir daqui pra frente e o quão divertido e rigoroso será ele! O mais difícil foi feito. A partir de agora, passaremos todos a outra fase, a de aperfeiçoamento e descobertas.
Buscaremos, aos poucos, uma identidade visual para a Arca e para nossos próprios textos.
Alcançaremos juntos e, ao mesmo tempo de maneira individual, nossas metades. Algo que nos complete e nos deforme, que seja rígido e esculachado, pensado e espontâneo, adorado e repudiado, lembrado e esquecido, poético e banal.
Na segunda edição,um dos nossos focos é o comportamento humano: temos um ensaio sobre a guerra, baseado no Mal Estar na Civilização de Freud, com a participação de Carollyne Almeida, que veio nos prestigiar. Maria Claudia Cabral nos fala sobre a dificuldade de relacionamento entre homens e mulheres nos dias atuais. Paulo Henrique dos Santos nos conta um pouco dos cines pornôs da cidade. E por falar em pornografia, César Guazelli estréia na Arca Mundo com o pé direito e novidades pornográficas do mundo dos quadinhos! Temos ainda, uma reportagem sobre as novas do Shopping Bougainville e, para quem estava se deliciando com a cobertura da Mostra de Cinema de São Paulo, ainda há mais textos por vir do diário de nosso correspondente cinéfilo, que já está de volta, com muita coisa pra contar!
Aos nossos leitores: sintam-se à vontade para fazer parte dessa mistura, para ser nossa outra metade, para comentar, criticar e sugerir. A evolução dessa Arca, com certeza, será muito prazerosa de se acompanhar!
“Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor, apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento. Porque metade de mim é o que eu ouço, mas a outra metade é o que calo. “ Oswaldo Montenegro
Camila Pessoa
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Encontros e Desencontros


''Eu conheço tantos caras legais que me pedem para apresentar uma amiga legal para namorar, e tantas amigas que me pedem para apresentar um cara legal para namorar, por que essas pessoas não estão conseguindo se encontrar?''

Já há algum tempo ouço a queixa de que as pessoas não se encontram. Se há tantos homens em busca de um relacionamento bacana - e creio que há - e se há tantas mulheres sozinhas buscando seu par, por que eles não se encontram?

Uma das verdades possíveis é que homens e mulheres mudaram muito nas últimas décadas e, embora supostamente saibam quem são, ainda não sabem o que querem. Ficam espremidos entre a programação secular dos papéis aprendidos e reforçados por gerações e as conquistas alcançadas com a revolução sexual.

Querem a independência, leveza e auto-suficiência construídas pela carreira bem sucedida, mas sentem falta - especialmente os solteiros - do par-perfeito, da alma-gêmea, do modelo socialmente estabelecido da família feliz de fotografia (pai, mãe, 2 filhos – um menino e uma menina – dois carros na garagem, casa própria e apartamento na praia).

Chegam a ficar escravos desse holograma e a viver em função da busca incessante pela realização do modelo. A certa altura não importa quem seja o 'par-perfeito', importa que com ele formará a esperada família feliz.

Tal busca começa de mansinho, no final da década dos vinte anos. O tempo vai passando... ao entrar na era balzaquiana, a cobrança vai ficando mais premente e ao aproximar-se dos quarenta vira uma verdadeira caça ao tesouro, em que não importa se um gosta de praia e o outro de montanha, o importante é ser um par. O importante é constituir família. Se assim não é, um discreto sabor amargo surge na boca e a sensação de não-pertencimento toma conta, invade.

Por outro lado, outros disponíveis 'no mercado' – notadamente aqueles que já foram casados – oscilam tal qual um pêndulo entre a serenidade da vida sozinho e a angústia da solidão. Ora querem alguém, ora querem a auto-suficiência. Desejam um colo aconchegante numa noite chuvosa, mas não estão dispostos a negociar espaços, compartilhar conquistas. Construíram uma imagem idealizada de parceiro e vão, por tentativa e erro, experimentando as pessoas que encontram, verificando se encaixam no modelo.

Daí surgem as intermináveis listas de requisitos 'básicos', tais como: 'dormir do lado esquerdo da cama'; ' não gostar de Roberto Carlos'; ou idealizam o tipo de relação, querem, às vezes, um amor tatuagem. Enfim, esses requisitos 'imprescindíveis' para a felicidade a dois. Se não encaixa, se não atende aos requisitos 'básicos', é o fim daquilo que nem começou.

Alguém pode me dizer quem quer estar agarrado à pele de alguém nos dias de hoje, sem vida própria, totalmente parasita de outro alguém, sendo levado? Sem vontade própria, sem desejos, sem sonhos, sem caminho? Enfim...

''Você já ouviu Tatuagem, do Chico? Quero uma tatuagem como aquelas para mim.'' (Um homem, 28 de outubro de 2006)
''Eu não sou como tatuagem.'' (Uma mulher, 28 de outubro de 2006)
Maria Claudia Cabral
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