sábado, 17 de fevereiro de 2007

Tempos Modernos

Não! Esse não é um texto sobre Chaplin, tampouco acerca de seu clássico cinematográfico. Acho que nem seria capaz de tecer qualquer comentário a altura deles. Recolho-me em minha insignificância, optando por temas menos rebuscados. Falarei, então, de minha infância onde tenho o bônus do conhecimento da causa. Como todo menino de parcos recursos, sem uma caixa grande cheia de brinquedos para dominar meu dia inteiro, cresci acompanhado da TV. E adorava sua companhia. Talvez por isso, tenha ‘ficado’ insone. Ou o contrario, será que gostava tanto por causa da insônia? Sei lá. Nem me interessa! O fato é que assistia a desenhos animados, praticamente, o dia todo. Na minha época eles começavam, religiosamente, com o cantar do galo, às seis da manhã. Durante muito tempo, amanheci com o Gato Félix, não aquele tagarela colorido de voz insuportavelmente aguda que reinventaram uns anos atrás. Deliciava-me com o original em preto e branco, ingenuamente psicodélico (naquela época nem sabia que essa palavra existia, muito menos seu significado).

Falando em reinvenções... Alguém, por favor, seria capaz de dizer o que está acontecendo com os desenhos de hoje? É falta de imaginação ou estão simplesmente tentando faturar com os ídolos animados de ontem dos pais assoberbados de hoje? Conseguiram o impossível! Destruíram o supra-sumo dos desenhos animados infantis, Pica-pau (Woody Woodpecker) lançando um trambolho batizado “O novo show do Pica-pau” (The New Woody Woodpecker Show). Este bichinho azul de cabeça vermelha pode ser tudo, menos o passarinho ora sarcástico, ora ingênuo, ora egoísta, ora mentecapto que eu cresci cultuando. Adorava até os poucos episódios em que ele era a maior vítima de suas próprias armações. Eram outros tempos. Eram outras necessidades. Éramos outras crianças. Ainda ontem assisti a outro genérico, “As Aventuras do Picolino”. O original fazia parte do pacote “A Turma do Pica-pau”, hoje nem sei. Aliás, sei que agora tem seu próprio título ao preço de algumas alterações. No original o picolino era quase mudo, ou falava muito pouco, e invariavelmente os episódios tinham na fome o mote central, o reinvento é cheio de diálogos e inovações tecnológicas. Em tempos perdidos ele só queria a última lata de atum de um navio preso no gelo e guardado por um cão bobo e desajeitado, hoje ele faz peripécias por uma placa de energia solar de um campo de pesquisas tecnológicas avançadas (sic!), pelo menos ainda é guardada pelo mesmo cão bobo e desajeitado. Entretanto, o infeliz algoz contemporâneo não é tão engraçado. Antes só de ver o cão o sorriso nascia naturalmente no canto da boca, no reinvento é preciso ficar atento a todas as falas, as piadas não são visuais, são verbais. E pior, às vezes, com a tradução a piada se perde. Pobres crianças! Agora entendo porque o computador é tão interessante.

Tem mais! Infelizmente, assisti ao ‘genérico’ do Scooby-Doo. So-co-rro! Penso que era um ‘genérico’, prefiro crer nisso. Aquilo bem que poderia ser outro desenho, cujas personagens lembrassem o grupo da “Mistery Machine”. Acreditem se quiser, mas no meio de um episódio do ‘Novo Scooby’ aconteceu um show do “KISS” (sic!). KISS e Scooby!? Isso mesmo! Tudo bem que todo mundo sabe que o KISS é o maior projeto empresarial do mundo da música. Mas fazer propaganda no meio de um desenho? Uma banda que teve seu auge da década de 70 do século passado? Aí não! E como se não fosse possível piorar, quando a vilã é desmascarada e presa no carro de polícia, a banda aparece do nada e pergunta para meliante (uma linda adolescente loura, que queria acabar com o dia das bruxas porque seu aniversario coincide com o feriado estadosunidense, moradora de uma fazenda de milho que nem tem idade para votar, mas consegue criar espantalhos robôs – ufa!) quem pagará o cachê do show (sic!). O detalhe cruel é que o prefeito da cidade pode ser visto ao fundo da tela, sem participar da cena. Nesse momento, quase acertei a TV com um copo que tinha nas mãos. Por sorte, o bendito estava quase cheio de precioso café (tomo café no copo, sim, porque não tenho coordenação motora suficiente para manusear aquelas xícaras ‘afrescalhadas’ e minúsculas). Antes que seja mal interpretado, gosto muito do som do KISS, principalmente os álbuns do início da carreira com gravações ao vivo, mas nem por isso eles deixam de ser uma empresa (para céticos), ou um fenômeno mercadológico de grande apelo cultural (para sonhadores). Melhor não me comprometer, afinal, eles também podem ter sido reinventados no novo século. Alguém aí já ouviu falar em “The Doors 21th Century”?

Voltando ao que interessa. Ainda me lembro das lições de moral que a She-ra, o He-man, o Lion (Thundercats) ou o Quicksilver (Silverhawks – esse tinha uma música de abertura, emocionante, cheia de solos de guitarra) ensinadas no fim de cada episódio. Essas lições, definitivamente, moldaram meu caráter. A aventura nunca era gratuita, sempre havia uma motivação subliminar, que ganhava luz no desfecho da história. Certa vez, o príncipe Adam/He-man mostrou que nunca deveríamos mentir. As mentiras sempre eram descobertas e o mentiroso perdia a confiança da família e dos amigos, como aconteceu com o ‘Gorpo’ no episódio do dia. Quanta nostalgia! Se pudesse voltava no tempo.

Em meio a tanta modernidade animada me serve de consolo uma possível (in)explicação para - aquela que pode ser - a maior dúvida dos desenhos. Se o Pateta (Goofy), personagem antropomórfico como o Mickey, o Donald ou o Pão Duro McMoney, é um cachorro, que animal seria o Pluto? Minha única certeza se refere a ele ser o animal de estimação do camundongo mais famoso da história. Também sei que ele foi criado em meados de 1931, pouco tempo depois da descoberta do ‘último planeta’ do sistema solar (detalhe: em inglês eles têm o mesmo nome). Fazendo uma livre associação ao fato de Plutão hoje ser um não-planeta, afirmo, categoricamente, em tempos ‘modernosos’ como os atuais, que Pluto é um NÃO-CACHORRO (sic!!!).

A cada dia que passa, deixar de ser criança tem menos graça. Hei! Por obséquio, parem este orbe! Eu quero descer, nem que seja num satélite, num cometa ou não-planeta.

Rodrigo Duarte

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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

A RAINHA DESNUDA

Ontem, num daqueles bate-papos deliciosos após ver A Rainha, uma amiga me pergunta que filmes esse Stephen Frears já fez:

- Hhhhmmmmm... fez Coisas Belas e Sujas, aaahhh e fez Ligações Perigosas.

– Ligações Perigosas é um dos meu filmes prediletos...

– Meu também; concordo com ela... aaahhh e ele fez também Minha Adorável Lavanderia!

Pensei, e tentei me lembrar dos outros filmes do Frears, mas nada me veio à cabeça e logo desviamos do assunto.

Na verdade Stephen Frears já dirigiu coisas finas como Terra de Paixões, Alta Fidelidade e Liam, mas de uns tempos pra cá tem caído no esquecimento com filmes blasé como O Segredo de Mary Reilly, o recente Sra. Henderson Apresenta, além do já citado Coisas Belas e Sujas, pelo qual não nutro tanta simpatia. Eis então que Frears ressurge com esse delicado e estranhamente íntimo A Rainha - indicado a 6 Oscar, entre eles os de melhor filme, diretor, atriz e roteiro original – obra de uma austeridade que me pareceu casar muito bem com a proposta de seu diretor.

A Rainha é o filme que desmitifica o mito pra nos revelar o ser humano por trás da Rainha Elizabeth II, seus medos, fraquezas, no que talvez tenha sido um dos momentos mais difíceis de sua vida como monarca , quando da morte de sua ex-nora, a popular princesa Diana. Frears e a soberba Helen Mirren (sem esquecer do excelente roteiro de Peter Morgan) conseguem invadir a intimidade de uma das mais reservadas e solenes personalidades do planeta.

Mirren é pra mim uma das atrizes mais completas que já pude ver atuar. Dona de uma sensibilidade e inteligência impressionantes, ela compõe muito mais do que os trejeitos e modos de Elizabeth, lhe emprestando, sobretudo vida e firmeza no olhar e nos gestos, na ironia... Oscar garantido espero eu.

Frears nesse sentido me parece seguir a mesma lógica daquela história toda. Diana morreu sendo perseguida por paparazzis, sempre teve sua vida particular revirada pela imprensa e precisou encontarar na morte a paz que aqui nunca teve. O filme, nesse sentido me parece muito coerente quanto ao mostrar a vida da Princesa, ou seja, Frears, tentou invadir o mínimo possível a vida daquela mulher, utilizando-se apenas de cenas de arquivos da época, e nunca reencenando sua vida.

Uma figura naquilo tudo porém me pareceu pouco crível. Tony Blair aqui é menos o Primeiro Ministro britânico que nos acostumamos a ver nos telejornais e suas manobras políticas um tanto questionáveis, do que aquele homem compreensivo, ingênuo e sensato que o filme parece mostrar. Nesse sentido, Blair me parece ser o alter-ego do cineasta Stephen Frears, pois ambos estão em busca do ser-humano por traz da frieza monárquica de Elizabeth. E conseguem, seja na bela seqüência do cervo real, em que ela solta seu único choro, que é inclusive negado por Frears, que a mostra apenas de costas, seja na delicada seqüência em que ela retorna ao palácio de Buckigham para o funeral de Diana e encara todos os seus súditos que a massacram como vilã nessa trágica história, manipulada com tanta frieza pela imprensa e pelo partido socialista que quer o fim da monarquia e seus privilégios.

A Rainha é, na verdade, mais um dos muitos filmes contemporâneos que enfocam esse embate entre o velho e o novo. Entre tradição e modernidade, num mundo que renega o tempo todo o seu passado, sua história, em busca de um pensamento que pode ser tudo, menos humanista. Nesse sentido, é ainda mais questionável essa coisa da imagem, ou da construção de uma imagem principalmente feita pela mídia, nessa necessidade maniqueísta que o homem tem de separar o bom do mau, o mocinho do vilão. Frears parece nos querer mostrar que somos todos produtos do tempo e do espaço, e cada indivíduo é um frasco repleto de emoções ímpares, e que a chave de tudo é buscar compreender o próximo, sendo acima de tudo tolerante, e não assumir a beca da justiça e julgar as pessoas como se houvesse algum modelo de comportamento já predefinido.

A Mis- en- céne aqui é a da contensão, tanto na manipulação dos sentimentos de cada personagem, quanto na trilha sonora e na fotografia intimista criada pelo brasileiro Afonso Beato. A Família Real é fria, contida, rigorosa, e Frears assume essa postura em seu filme, mas sem perder a ternura, claro. Ao final, tanto Tony Blair, quanto Stephen Frears terão assumido sua paixão pela figura hipnotizante daquela Rainha. E se o espectador não chegar a assumir tal sentimento, ao menos enxergará aquela figura com outros olhos.

Me fez pensar muito nessa manipulação barata que a mídia do mundo todo faz quando pretende vender seu peixe, renegando uma alta carga de responsabilidade, que todo jornalista deveria ter. É o segundo filme que vejo essa semana – o outro é o primoroso A Conquista da Honra de Clint Eastwood – a questionar a imagem e seus desdobramentos. A imagem que fazem de nós, a imagem como ferramenta para manipulação das massas, nesse que me parece ser antes de tudo um forte e muito consistente libelo humanista.


Rafael C. Parrode
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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Permite que eu feche os meus olhos,
Pois é muito longe e tão tarde.
Pensei que era apenas demora,
E cantando pus-me a esperar-te.
(Cecília Meireles)

“Não te quero ter, pois em meu ser tudo estaria terminado...
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados...
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada...”
(Vinícius de Moraes)

“Às vezes nos falta esperança, mas alguém aparece para nos confortar. (...) Às vezes estamos sem rumo, mas alguém entra em nossa vida, e se torna o nosso destino. Às vezes estamos no meio de centenas de pessoas, e a solidão aperta nosso coração pela falta de uma única pessoa.”
(Luis Fernando Veríssimo)

“Quando o verdor esperançosoDará alegrias aos que espera?Que o caule verde seja rosaRosa purpúrea e... bela!”

(Walter De Castro)

Arte finalista
Alguém que meta os pés pelas mãos, que seja bem mais inconseqüente que eu...

Pois eu sempre tive muita consciência de viver a insanidade e ser sã.
E mesmo sabendo de todos os defeitos que esse alguém possa ter
Eu quero que todo a meu ser passional seja libertado.

Alguém que não peça, mas exija um descuido
]E que implore o que eu nunca poderia dar numa gota de desespero.
O esposo da loucura e a irmã do infortúnio.
Porque toda chama não vagueia sem os ventos e
A quase brisa-viva do candeeiro.

Peças alusivas a uma vontade-desejo.
Eu que quis que tudo se espandisse de mim mesma
Cri na minha falta de vocação ao subversivo:
A preguiça que esse alguém me aconchegue.

Noites de cores de tendas caídas
E meu “não me importo” de dores nas juntas.
Mãos serenas que pesquisam a todo momento os tipos de toque
E o adeus por segundos.

Alguém que venha, mas que volte de onde não sei porque eu sempre pelejo
Pela fé, desabotoada de seu abrigo.

Ah, essa pessoa que me destrói e me reconstitui imperfeita
Em que todas a cola que derrete na primeira tempestade
Se transforma no alto-relevo que faltava.


Maria Clara Dunck
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terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Editorial nº 00 - Novos Tempos!

E começamos 2007..... Como se houvesse alguma escolha nisso... Mas eu gosto, sabe? Essas convenções e comemorações humanas me atraem. Essa sensação de poder começar de novo, mudar, fazer diferente... A Arca Mundo começa o ano diferente. Com algum atraso, admito, mas estávamos ansiosos por voltar a escrever.
Este ano a coisa vai ser mais dinâmica... Ouvimos críticas e sugestões de sábias vozes, e como, desde o início, nossa idéia era Liberdade de Comunicação, estamos cortando mais um laço que poderia estar podando essa liberdade. Agora, cada colaborador da Arca terá um dia da semana exclusivo para as suas idéias e vocês leitores terão, diariamente, textos fresquinhos pra ler. Dessa maneira, os textos serão postados diretamente por cada colaborador, sem haver a necessidade de um filtro e de editoriais semanais. Além disso, os leitores podem acompanhar seus temas favoritos, participar mais ativamente e inclusive, cobrar assiduidade dos colaboradores de forma mais direta. A agenda da semana será ativa de domingo a domingo e segue da seguinte maneira:
Segunda feira: Maraísa Lima
Terça feira: Maria Claudia Cabral
Quarta feira: Maria Clara Dunck
Quinta feira: Rafael Parrode
Sexta feira: Paulo Henrique dos Santos
Sábado: Camila Pessoa e Rodrigo Duarte (Novo colaborador da Arca!)
Domingo: César Henrique Guazelli
Além disso, teremos uma coluna especial de gastronomia, escrita pela Maria Claudia, com dicas de comida boa no eixo Goiânia-Brasília, toda última quinta feira do mês!!!
E ainda há mais mudanças por vir....
Espero que todos gostem das novidades e permaneçam conosco.
Um ótimo 2007 a todos.... e que possamos ir muito longe nessa Arca!
Camila Pessoa
Copyright Arca Mundo. Todos os direitos reservados.

A CONTRAMÃO DO MUNDO OU UM SENTIDO DO MUNDO

‘’Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração’’
(Chico Buarque)


Será? Tive de parar para pensar. Refletir sobre o que ele queria dizer com “não saber o que quer’’. Eu sei, por exemplo, que não é a razão da minha vida a estabilidade profissional que se obtém com concurso público, assim como estou certa de que casa própria não é meu sonho de infância. Não é que não queira, mas não é algo que está na minha lista de dez coisas que quero fazer antes de morrer. O leitor poderia me perguntar: em que mundo você vive?

Talvez eu esteja esquizofrênica, vendo coisas que não existem, mas percebo que, cada dia mais, a tecnologia está nos levando a viver já num mundo de duas dimensões. A chamada dimensão real, onde as coisas são palpáveis – também chamada de atual, pelo brilhante Pierre Lèvi – e a dimensão virtual, ou dimensão intangível, como costumo chamar, ou ciberespaço. Acho que não preciso explicar como a primeira funciona, todos nós acordamos e dormimos nela diariamente.

Quanto à dimensão intangível, essa que tem tomado conta por meio da tecnologia, é um mundo limitado apenas pelo acesso à rede mundial de computadores. Trata-se de um lócus sem fronteiras, onde o espaço público e o espaço privado se confundem, se mesclam. Onde somos o que quisermos ser, até nós mesmos. Onde encontramos personas e pessoas. Onde não as encontramos como no mundo real, e as tocamos de forma metafísica...E somos tocados por elas.
.

Transitamos nesse mundo à velocidade da luz, a depender da conexão. Tempo/espaço, portanto, são valores relativos. Einstein certamente gostaria de ver isso em funcionamento! Enquanto na dimensão atual um mês tem trinta dias, na dimensão virtual, três meses é uma eternidade. Tempo suficiente para enriquecer, empobrecer, conhecer pessoas, ser execrado ou idolatrado. Tempo suficiente para se encantar por alguém, para se decepcionar, para se afastar, para se reaproximar e até para romper a mais bela amizade. Tudo isso num diálogo consecutivo e simultâneo entre o virtual e o real. Isso é a loucura de viver em dois mundos.

Mais que isso, é o prenúncio da mudança dos tempos, da evolução do planeta. Ainda que em diversos espaços estejamos vivendo a idade das trevas, alguns de nós têm tido o privilégio de acessar a dimensão intangível. Onde não há que se ter, mas há que ser. O que se quiser ser, diga-se de passagem. Willian Gibson, um dos criadores do ciberpunk, subgênero da literatura de ficção científica, já falava no seu Neuromancer, que poderíamos alterar nossos corpos. Pois bem, tanto o podemos por meio dos avanços da medicina estética, no mundo real, quanto por meio das personas que criamos no ciberespaço. No mundo virtual não importa ser gorda ou ser magra, importa a forma como a persona se apresenta, como se sente e como o outro a vê com os olhos do espírito, da alma ou da mente – como queiram.

Mas...cuidado, desavisados! Viver em dois mundos tem seu preço. (o texto continua na próxima edição, aguardem ‘’cenas dos próximos capítulos’’)

“Posso dizer? Acho que você não sabe o que quer.’’ (FS, brasileiro, casado, três filhos, agente público concursado e uma bela casa em construção)

‘’Procuro uma mulher determinada que saiba o que quer’’ (anúncio no site de relacionamentos ParPerfeito).

Dicas do Texto:

Sobre Roda Vida
http://chicobuarque.uol.com.br/letras/rodaviva_67.htm
Sobre Pierre Lévi
http://www.facom.ufba.br/com022/levy.html
Sobre Cibercultura
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cibercultura
Sobre Willian Gibson
http://pt.wikipedia.org/wiki/William_Gibson
Sobre Ciberpunk
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cyberpunk
Maria Claudia Cabral
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quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Editorial nº 09: Dando adeus a 2006.....

E acabou esse ano! Finalizamos 2006 com muito a comemorar e uma das nossas maiores realizações, sem dúvida, foi a concretização da Arca Mundo. Aos nossos leitores (Sim! Nós temos leitores, e ótimos leitores, por sinal...), um gigante MUITO OBRIGADO, por gastar um pouco do seu tempo, acessando esse blog, lendo e comentando nossos textos... pois de que nos adiantaria escrever para ninguém? Dando adeus a um ano turbulento de novidades e acontecimentos, receberemos 2007 com muita energia, com desejos de sucesso, de transformação, de sorrisos, de aconchegos, de música boa, de catarse, de lágrimas, de pequenos grandes momentos, de amor e sexo e de muitas amizades a todos!!! A Arca entra de férias, pra acompanhar o ritmo de nossos colaboradores, mas estará de volta no dia 30 de janeiro, incontestavelmente, e com muitas novidades! Nos despedimos com uma análise sobre o Natal, da Maria Claudia e com um ensaio sobre viver o presente com poesia, nesse ano que chega! Boas férias e um graaaaaande abraço apertado a todos!

Camila Pessoa.
Copyrigth Arca Mundo. Todos os direitos reservados.

Para viver devagar e intensamente...

Escrevi esse texto há alguns dias.... em um momento no qual eu não queria pensar em nada do que já aconteceu ou do que estava por vir. Acho que todas as pessoas deveriam passar a viver assim: no presente! Um instante de cada vez... hoje, talvez, eu nem me sinta mais assim... mas naquele momento foi bonito e importante analisar os fatos com aqueles olhos felizes. E é isso que eu desejo a todos no ano que chega: pensemos devagar e aproveitemos cada instante de uma maneira única, sem deixar que ele passe despercebido pelos nossos olhos passivos e ocupados....


Preciso escrever... Sinto que de alguma forma tenho que pôr pra fora o que estou sentindo e estou sentindo tanto!!!!!! Sinto pureza, sinto magia, sinto paixão. Acabo de pensar naquele filme... como as pessoas poderiam ter um tanto bom de paixão dentro de si, um tanto daqueles... simplesmente sentir, sem culpa, sem medo, sem remorso, sem temor, sem vergonha.... eu sonho em poder ser assim, me libertar. Quem sente e sente somente com orgulho do que traz dentro de si é livre, mas tão livre, mas tão livre, que mal cabe dentro de si de tanta paixão, de tanto sofrer, de tanto imaginar, de tanto pintar e colorir e dizer e tocar e sorrir e correr e beijar e cheirar... pude sentir o cheiro de todas as coisas hoje. Cheirava a jardim, cheirava a nascer do sol, com aquelas gotinhas de orvalho e a neblina na estrada, como aquela música que cheira os seus cabelos. Quando percebo-me tão transbordando de dentro de mim como estou agora, sinto vontade de chorar. Hoje choro por pensar no quanto consigo gostar de você. Vou chorar e vou sentir o seu perfume e vou tocar os seus cabelos e te abraçar bem forte. De um jeito passional, de um jeito secreto, cheirando a rosas vermelhas do meu quintal. Hoje choro por pensar que não me importa o que vai acontecer amanhã.... não sei se amanhã chegaremos ao fim da rua, daquela rua que é o fim de nós dois... e é por isso que não me importa... só quero chorar agora de saber que gosto tanto de você e que acaba de me acariciar o rosto com a pontinha do seu nariz. Eu gosto de você não por você mesmo, mas porque sua presença me faz me sentir bem, e me sentir mal, me faz sorrir e me causa espanto, porque você não é gratuito, nem é clichê, mas é pra ser desvendado, mesmo que eu sinta que talvez nunca saiba você.Te saber seria sem graça, te saber seria muito simples.... não gosto de você simples, gosto de me aventurar e de me sentir segura nessa aventura, nem que seja na duração de um momento sublime em que toca a música: “Parece que o amor chegou aí... eu não estava lá, mas eu vi!” E de pensar que em outras noites em que o caminhão de lixo passava, eu nem sabia que existia você. E que a minha felicidade reside em tantas coisas secretas... queria poder ser passional o bastante pra te dizer, mas sabe? Acho que o silêncio tem sido tão belo nos últimos tempos... acho que o não-dizer me tem feito tanto bem... porque nessa ânsia de falar, de desenhar, de querer transparecer... acabo apagando a magia e perdendo meus segredos pelas pernas.... quero que você me saiba, sim! Mas de outro jeito, fora da minha loucura antiga, sem que eu precise dizê-lo... de um jeito sutil que você possa cheirar, possa ler, possa tocar no silêncio e entender tudo. Enquanto eu te beijava, eu pensava: Nossa! Eu gosto muito de você! Mas acho que o meu olhar dentro das minhas pálpebras serradas, dirigindo-se à sua direção, pôde te dizer muito mais. Não pretendo me deixar dominar por sentimentos obsessivos, por doutrinas utópicas, por expectativas absurdas.... eu quis resistir a você hoje, por um segundo apenas... e logo, novamente eu te quis...além de minha imaginação, sei que posso amar de novo, sei que posso amar diferente, de um jeito mais maduro, mais inocente e que posso dirigir meu amor a você e que posso receber com muito sorriso o que você tem a me dar...e que posso querer mais sem precisar pedir nada em troca..... você mesmo se dirá e se dirigirá a mim, como tiver de ser, simples assim...Estamos começando de novo... e acho que agora é mais profundo, mais sincero, mais calmo e mais bonito. Independentemente de amanhã, só queria te dizer que hoje foi maior, mais belo e que me lembrarei disso, pretendo me lembrar.

Camila Pessoa.
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quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

É NATAL


Ou Dr. João da Silva, homem de bem.



" Então feliz natal
Para negros e para brancos
Para amarelos e vermelhos
Vamos parar de brigar
Um natal muito feliz..."

(John Lennon)

...É Natal! Até ontem era natal, e o Dr. João da Silva, homem de bem, pai de família, cumpridor de seus deveres cívicos e morais foi a missa do galo com a família. Ele e a esposa criaram 3 filhos com esmero, dentro da mais absoluta moral cristã.

Ele era funcionário público, embora houvesse arrumado esse emprego com a ajuda do tio nos idos de 88, bem no apagar das luzes, era servidor dedicado. Chegava às 09 e saía às 05, certamente que com duas horas de almoço, porque afinal, família é muito importante, protegida pela Constituição! Até se tornar deputado.

Dr. João da Silva era boa gente, tudo sempre tinha solução. Fazia amigos por onde passava, sempre auxiliando aqueles conhecidos que precisavam de seus préstimos na repartição. Um dia o vizinho, José Oliveira, precisando de um contrato com a administração para engordar a conta da família e poder mandar a filha para o intercâmbio, falou com Dr. João. Este, homem de bem, pai de família, cidadão exemplar, logo deu um jeitinho para que o vizinho conseguisse seu contrato. Afinal, para que servem os amigos? Solidariedade com o próximo é uma virtude.

Não foi o José Oliveira, igualmente homem de bem, policial aposentado que arrumou para darem cabo daqueles dois moleques que rondavam a vizinhança incomodando todo mundo? Merecia este agradecimento, porque quem pode agüentar com dois marginaizinhos de 9 e 11 anos rondando a vizinhança, quando se tem filhas em casa?

Aliás, Dr. João da Silva é pai exemplar. Cuida das filhas como se flores fossem, tal delicadeza. Estão sempre belas e perfumadas, sempre bem vestidas e calçadas. E ai daquele que passar dos limites! Embora ele não tenha idéia de quais são os limites. Afinal, elas são meninas de bem, moças de família. Diferentes da Ditinha, aquela guriazinha faceira, filha da Maria, que Dr. João levou para a última pescaria de amigos, com mais uma dúzia de meninotas iguais a ela para entretê-los nas noites quentes na beira do rio.

É tão generoso, Dr. João da Silva, depois que se elegeu deputado, com a ajuda do primo Eduardo, dono da construtora, e do cunhado Dionísio, que dirige a companhia de eletricidade, ficou ainda mais caridoso. Acredita que deu emprego para mais de 100 bóias-frias? Pois é, vivem agora como reis em sua fazenda no Centro-Oeste – ou será no Norte, no Nordeste, no Sul ou no Sudeste? – têm até direito a refeição, sim senhor! Comem uma vez ao dia, dormem em barracão coberto de telha – com forro! E trabalham todos os dias. Como é bom, o Dr. João! Dá-lhes de comer, local para dormir e ainda lhes dá trabalho, tudo por uma mísera contribuição do dobro do salário.

E é tão caridoso, Dr. João, que cuida dos filhos dos bóias-frias, os meninos vão para a carvoaria, aprender a ser homem desde cedo e ajudar a família. ‘’Um homem sem trabalho e sem família não é nada!’’ As meninas... Bem, as meninas ele leva para a pescaria.

E é natal, ou era até ontem. Dr. João reuniu a família, foi a igreja, orou a Deus para que tivesse piedade dos pobres de sua cidade, do seu estado e de seu país. Coitadinhos dos pobres! Ao sair, deixou generosa contribuição e ainda deu uma esmola para o sem-teto que beirava a escadaria. Como é bom, Dr. João!

E é natal, ou era até ontem!

''O oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença.'' (Érico Veríssimo)


Maria Claudia Cabral.
Copyrigth Arca Mundo. Todos os direitos reservados.

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Editorial nº 08: Sem maiores interferências...

Me parece medíocre esse editorial, mas sinto como se não tivesse nada demais a dizer. Esta edição está diferente.... pude ler cada texto de uma maneira, cada um dentro do assunto que objetiva abordar.... portanto, não pretendo induzir qualquer interpretação... apenas leiam e sintam cada análise, cada poesia, cada novidade com uma empolgação ímpar.... sem maiores interferências e curtindo cada linha da minha mediocridade.... boa leitura a todos! Ah! Só mais uma coisa.... declaro abertamente a falta que nos fazem os textos dos demais ilustres escritores da Arca Mundo... saudades de vocês, e voltem logo!
Camila Pessoa de Souza
Copyrigth Arca Mundo. Todos os direitos reservados.
“Todo estado de alma é uma paisagem. Isto é, todo estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. [...]

Assim, tendo nós, ao mesmo tempo, consciência do exterior e do nosso espírito, e sendo o nosso espírito uma paisagem, temos ao mesmo tempo consciência de suas paisagens. [...]

De maneira que a arte que queira representar bem a realidade terá de dar através duma representação simultânea da paisagem interior e da paisagem exterior. Tem de ser duas paisagens, mas pode ser – não se querendo admitir que um estado de alma é uma paisagem – que se queira simplesmente interseccionar um estado de alma (puro e simples sentimento) com a paisagem exterior. [...]”.

(Fernando Pessoa)


A ausência das nuvens


Dias ensolarados nos lembram felicidade
Ou sono, que ao sol coube dissipar e não pode.

Dias nublados nos lembram dias nublados...

Mas no dia nublado de hoje
Eu lembrei da felicidade.

Esse descompromisso compromissado em sorrir por instantes.
Um desleixo preocupado em ouvir a dor do outro
E esquecer-se das próprias fadigas cotidianas.

No dia nublado de hoje eu lembrei de você
E tive seu rosto frente aos meus olhos
Suas mãos postas sobre minha força contida
E toda sua inconstância esmiuçada na minha amargura de viver
Com a sensação do tempo pela metade.

E lembrava daquele momento na brisa da tarde
De um dia nublado que nasceu ensolarado.
E de sua dor que já é minha.

Maria Clara Dunck
Copyright Arca Mundo. Todos os direitos reservados.

IÉ! Preacher na HBO!



Está confirmado: Preacher realmente vai virar uma série pela HBO, com uma hora de duração por episódio. A data de estréia é indefinida, mas já se sabe que o roteiro do piloto ficará por conta de Mark Steven Johnson, que assinou Demolidor e O Motoqueiro Fantasma (este estréia em março de 2007). Os criadores da série em quadrinhos, Garth Ennis (roteirista) e Steve Dillon (ilustrador), serão co-produtores da empreitada da HBO.
Eu, particularmente, estou bastante otimista com a série. Não só porque Preacher tem um argumento maravilhoso e reinventou o arquétipo do anti-herói (e é um dos meus quadrinhos favoritos, sem dúvida), mas também porque a HBO, atualmente, produz as melhores séries que tenho visto. Deadwood e Rome, por exemplo, deixam para trás – e muito – a grande maioria de suas concorrentes sem grandes dificuldades. Outro bom motivo é a inclusão de Ennis e Dillon na equipe do seriado, o que enriquece muito a adaptação (é só ver o resultado de Sin City, acompanhado de perto por Frank Miller), ao contrário do que aconteceu com Alan Moore, que viu uma a uma de suas séries quadrinizadas serem acompanhadas por péssimas adaptações para o cinema, salvo algumas exceções.
Para quem não sabe, Preacher é a série que lançou Ennis no estrelato, sendo escrita de 1995 a 2000 e perfazendo um total de 66 edições. A história gira em torno de Jesse Custer, um pastor possuído pela entidade Gênesis, uma criança nascida da união entre um anjo e um demônio. Sua voz tem um poder parecido com a palavra de Deus, que faz as pessoas o obedecerem forçadamente e sem questionamentos. Ele fuma demais, bebe demais, diz palavrões em excesso e é acompanhado por Tulipa, sua ex-namorada que reencontra anos depois e Cassidy, um vampiro que nada tem do estereótipo do espécime, é obsceno, recheia seus diálogos de fucks, bebe demais e dorme na carroceria de uma caminhonete sob uma lona. Jesse é perturbado por anjos burocratas que estão atrás de Gênesis para aprisiona-lo enquanto procura Deus, que sumiu no mundo, para buscar explicações e saber porque ELE abandonou sua criação.
Garth Ennis, como a maioria dos bons roteiristas da atualidade, é Inglês (na verdade, é da Irlanda do Norte), e não tem papas na língua. Seus quadrinhos são fortes e bastante críticos, esculachando qualquer forma de moralidade (e a cristã é apenas uma delas) e com um senso de humor (negro) bastante aguçado, criando personagens como Billy Bob, o amigo de Jesse Custer na infância que era todo deformado pois sua família casava entre si para ‘preservar a linhagem’. Agora é torcer para a série de TV ser tão boa quanto sua versão original, mas não igual (como a maioria dos fãs de quadrinhos chatos e bitolados exige), pois isso nada acrescentaria.
AAAhh... só mais uma curiosidade: Jesse Custer, o pastor protagonista de Preacher, é assombrado pelo fantasma de John Wayne, que conversa com ele, lhe dá dicas e o segue desde seus cinco anos de idade.
César Henrique Guazelli.
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NAMORO OU (E) AMIZADE




‘’ Amor é um livroSexo é esporteSexo é escolhaAmor é sorte...’’
(Rita Lee)



Bem que tentei, mas não foi possível deixar o assunto da edição anterior. Inaugurando a almejada interatividade a que se propôs Arca Mundo, voltaremos ao tema. 
Alguém comentou sobre o porquê não namorarmos nossos melhores amigos – apresentou como razões a possessividade, o rótulo do compromisso, a fidelidade – e atenção, desavisados, fidelidade não é lealdade - que surgem em razão do sexo. Fica a pergunta a martelar a minha cabeça: por que o sexo altera as relações a ponto de gerar expectativas e posse?

Em última análise estaríamos admitindo que há um abismo entre relações afetivas e relações sexuais. Mais que isso, estaríamos admitindo que o sexo macula o companheirismo, a confiança, o afeto, a parceria. De novo me pergunto: por que?
É como se ao entregar o corpo, surja o direito de ter direitos sobre o outro. Por que? Ao mesmo tempo, por que ao expressar afeto fisicamente por alguém necessito de um rótulo para designar aquela relação? Rótulos são o termo de posse? Não saberia responder a nenhuma das questões aqui propostas, aliás, foram postas para reflexão.

Certo é que enquanto sexo for uma ‘selva de epiléticos’ deixaremos de viver grandes histórias ou destruiremos umas tantas outras. Enquanto buscarmos garantias para nos entregarmos, seremos escravos de nós mesmos. Enquanto acreditarmos que podemos ter a posse de alguém – com ou sem sexo – estaremos aprisionados à ilusão de que somos Deus e podemos controlar algo além de nossos egos desgovernados. Pior que tudo, sofremos com isso.

...mas este ainda é o mundo em que vivemos, cabe a nós tentarmos mudar – não o mundo, não o outro – a nós mesmos e nossas atitudes diante das relações.

‘’...É, amores vêm e vão, amigos são para sempre’’ ( Uma mulher, 12 dez 2006).

‘’Se é para amar, siga amando os seus amigos, eles não te desapontarão enquanto forem amigos’’. (Um homem, 13 dez 2006).



Maria Claudia Cabral.
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quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Editorial nº 07: Sobre o dia-a-dia

E voltamos finalmente às misturas nossas de cada dia!!!! Começamos a celebrar o Natal... que coisa linda!!! E brega, alienada, comercial........ muito bem humorada a crítica do Paulo Henrique dessa semana referente às festas de fim de ano!!! Humm além disso.... alguém já parou pra pensar em como seria mais feliz e em como a vida seria mais fácil se pudéssemos amar nossos melhores amigos? Esse é o tema escolhido nessa edição por Maria Claudia Cabral! Nosso amigos são perfeitos para nós, mas.... são nossos amigos, quase irmãos!!! Todo mundo fala isso, né? Talvez devêssemos tentar reconsiderar, ao invés de ficar por aí quebrando a cabeça com pessoas tão diferentes de nós mesmos! (Fácil é falar! Além de nós, quem mais continua se aventurando?) Além disso, Rafael C. Parrode faz um rápido giro pelos últimos filmes do mestre cineasta Almodóvar, Maria Clara Dunck nos delicia com mais um de seus poemas e Eula Lôbo tenta abrir-nos os olhos pra uma realidade na qual quase nunca reparamos! Aos nossos leitores: continuamos ansiando por seus comentários para que possamos concretizar nossa comunicação de duas direções! Um abraço e boa leitura!!!


Camila Pessoa.
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As Cores de Almodóvar


Lembro-me da primeira vez que vi Carne Trêmula, filme esteticamente menos efusivo do cineasta Pedro Almodóvar, mas talvez o mais carregado de violência e sexo, de relacionamentos conturbados, de carne, de traição... Aqui Almodóvar não carrega nas cores como fazia nos filmes de sua primeira fase, quando filmava o universo feminino daquela maneira deliciosamente abusada e arregalada, no limite entre o kitsch e o bom-gosto. Carne Trêmula é então o início de uma fase mais madura e mais consciente de Pedro Almodóvar diante de seus fantasmas do passado, seus dramas de infância e sua visão particular do mundo.

Eis então, que ele surge com o extraordinário Tudo Sobre Minha Mãe, filme em que ele destila sua paixão à cinefilia, homenageando o clássico All About Eve (A Malvada de Joseph Mackienwiks) ao mesmo tempo que abusa do melodrama, mantendo um impressionante domínio da imagem, nesse que é talvez o seu melhor roteiro e possivelmente o mais sensível de seus filmes. Filme ainda com forte toque feminino, Tudo Sobre Minha Mãe é, entretanto, uma mudança forte na carreira de Almodóvar, em que ele parece mais sóbrio, lidando com temas mais caros, mais fortes, abusando do melodrama e da metalinguagem pra homenagear o cinema e sua mãe, numa de suas obras-primas mais bonitas, que fazem brotar lágrimas dos olhos sem muito esforço.

Mas é com Fale com Ela - na minha opinião, seu melhor filme - que Almodóvar irá chegar ao ápice de seu talento como fazedor de imagens que é. Ele parece estar num equilíbrio impressionante entre estética e conteúdo, nesse que é o seu primeiro filme efetivamente masculino, ainda que diga muito sobre as mulheres. Almodóvar nessa história monstruosamente humana e delicada, irá criar um filme denso, triste e riquíssimo, nos brindando ainda com seqüências inesquecíveis como a da tourada ao som de Elis Regina e da magistral cena do cinema erótico mudo, em que um dos personagens adentra uma imensa genitália feminina.

Má Educação é o encerramento de um ciclo de um Almodóvar mais sombrio, forte, emocionalmente mais violento e contundente. Nesse que é o seu filme mais pessoal, ele irá numa abusada homenagem aos filmes Noir, criar sua obra mais obscura e visceral. Um filme que escancara os fantasmas de seu passado, numa crítica contundente à igreja, mas antes de qualquer outra coisa, uma homenagem ao cinema, porque, com seus planos meticulosamente filmados, no seu uso impressionante de vários tipos diferentes de janelas ao longo do filme e na montagem absurdamente impecável ele irá criar o seu filme mais seu, mas inquestionavelmente o mais singular de toda a sua carreira.

Chegamos então a Volver, novo filme do mestre espanhol em que ele parece encerrar sua brilhante fase dark, pra nos confrontar com a leveza do universo feminino (ainda que leveza para Almodóvar seja algo como incesto ou coisas do tipo), repleto de cores que só mesmo ele consegue pintar com tanta beleza, num retorno a seus temas do início da carreira, às suas antigas musas – Carmen Maura e Penélope Cruz excelentes – e a sua maneira bem particular de tratar de dramas humanos. Volver é indiscutivelmente um belo filme, mas não chega a ter a potência dos filmes da recém terminada segunda fase de Pedro.

Se Volver não é a obra-prima que passamos a esperar de Almodóvar depois de uma sequência impressionante de filmes geniais, é na pior das hipóteses, um dos melhores filmes do ano, o que quer dizer que Almodóvar não precisa se superar filme a filme pra fazer cinema de alto nível. Até seus filmes menores são maravilhosos. O que faz de Volver uma pequenina e formidável pérola pintada lindamente com as cores de Almodóvar.
Rafael C. Parrode.
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quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Sessão de cinema



Acaso não construímos dia-a-dia nossas próprias tragédias?


"Não me conheço com certeza suficientemente bem para saber se poderia escrever uma verdadeira tragédia; porém me assusto só de pensar em tal empresa, e estou quase convencido de que a simples tentativa poderia destruir-me”.
(Goethe)


Fazer tudo como se fosse a primeira vez
Eu vi pichado naquela parede fria
Porque cada livro, filme ou tato
É um achado inverossímil
Nessa dormência.

Pra quem já quis mil peças
Numa mesma imaginação,
Pedir uma presença é dureza.
Agora eu só sei que o acaso
Tem suas verdades incontestáveis.

Esses lugares-comuns da existência,
As brotoejas de um corpo carregado,
São os poucos espaços que ainda possuo.
Talvez tudo seja só um passado
Que continua afetando meus pulsos
Por ser o que me sustenta.

Cada cena daquele espetáculo
É um pedido de carência.
E eu já tenho tudo, menos satisfação.

Acostumei-me a pedir sem cobrar
E a receber sem recibo.
Na verdade eu nunca o quis,
Mesmo clamando na janela de Deus
Um gole dessa piedade sem adjetivos.

Maria Clara Dunck.
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Então é natal...

É incrível como as coisas mudam rápido. Num dia você dorme com sua cidade apagada e com a aparência rotineira. No outro, ela já está toda enfeitada com ornamentos cafonas e luzes douradas. É nessa hora que você se dá conta que o final do ano chegou e que o Natal está prestes a acontecer. Nada mais normal se essas mudanças não acontecessem no meio de outubro, mais de dois meses antes do dia 25 de Dezembro.
A cada dia parece que o “clima de natal” chega mais cedo. Já em outubro pode-se perceber que pessoas estão mais felizes. Os adultos estão ansiosos com o depósito da primeira parcela do 13º salário e as crianças já estão com suas extensas listinhas de presentes prontas. Mas, certamente, os mais radiantes com a chegada dessa data tão especial são os comerciantes.
Afinal, é nesse período que a maioria dos trabalhadores está recebendo um salário a mais. Um rendimento que teoricamente deveria ser “extra”, mas que quase sempre está comprometido há tempos. Isso devido às dívidas acumuladas no ano (o que de certa forma inclui as despesas do natal passado) ou aos gastos previstos para o natal que está para chegar.
Mas por que é no natal a época em que o comércio está mais movimentado? Para responder a essa pergunta podemos utilizar inúmeras explicações históricas e religiosas, as quais não nos interessa abordar nesse artigo. O mais sensato é pensarmos no caráter capitalista do natal. Assim como todas as outras datas comemorativas, o comércio e a cultura consumista construíram o evento como sendo uma desculpa para se gastar. Para você fazer parte da sociedade comum, você tem que dar presentes e consumir uma ceia farta nessa época. Ou então você é um alienígena e está fora do jogo.
Mas para tornar o natal a melhor data para o comércio brasileiro, foi preciso forçar um pouco mais a barra que nas outras datas. Para chegar a esse ponto, apelou-se para a força da família. O natal é uma data especificamente familiar. Não se ouve falar de grandes festas ou comemorações públicas na noite de natal. O dia 25 é uma data para se passar com os familiares. Família que é feliz de verdade tem que distribuir presentes entre si e passar a noite se fartando de comida.
A indústria cultural norte-americana tratou de criar o estereótipo das comemorações natalinas. Famílias reunidas num momento feliz, comendo o tradicional peru, cantando músicas natalinas e distribuindo os presentes depositados em baixo do frondoso pinheiro enfeitado com artefatos decorativos. Tudo isso sob a neve do inverno rigoroso.
Como bons subdesenvolvidos que somos, tratamos logo de copiar esse modelo, ainda que com algumas adaptações. A família reunida permanece, agora acrescida de alguns parentes mais distantes. O peru não é tão tradicional, mas também continua firme, podendo ser trocado pelo Chester®. As músicas natalinas se resumem ao CD da Simone lançado há décadas, mas que insistem em nos atormentar anualmente.
A distribuição de presentes também acontece. Entretanto, agora possui o nome de “amigo secreto”, uma maneira econômica de se distribuir presentes, já que normalmente pelo menos um item todo mundo recebe. O pinheiro decorado é bem semelhante. Porém, agora ele deixa de ser natural e passa a ser sintético. Alguns até com pontinhas de tinta branca simulando neve. A decoração permanece, agora acrescida de luzes piscantes coloridas que, às vezes, até tocam alguma música. Por fim, por incrível que pareça, até a neve nós tentamos copiar. É uma anomalia que no Brasil, em pleno verão tropical, as lojas enfeitem suas fachadas com espumas brancas que, acreditam os comerciantes, dão efeito de neve. Tudo extremamente cafona. Alguns lugares ainda forçam seus empregados a usarem gorros e jaquetas semelhantes ao que o Papai Noel usa. Isso em lugares em que ar-condicionado só existe na sala do chefe. Não consigo entender o motivo de tal escolha. Tudo bem que o Papai Noel é do pólo norte, mas será que não existem maneiras mais criativas de se representar o natal? Com certeza sim. Basta usar um pouquinho da criatividade.
Paulo Henrique dos Santos.
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Ser Inteiro e Não pela Metade



Por que não namoramos nossos melhores amigos?


''...somos feitos de silêncio e sons,
tem certas coisas que eu não sei dizer''
(Lulu Santos)

Boa parte das pessoas passa a vida a procurar a metade da sua laranja, a tampa da sua panela e outras expressões que igualmente denotam que somos apenas parte de algo que se completa só com outro. A busca fica cada dia mais difícil, porque no momento em que procuramos no outro a complementação de nós mesmos, projetamos nele nossa outra metade.
Sim, a meu sentir – e não estou sozinha – as metades que devem se encontrar são nossas metades. Porque todos nós somos feitos de antagonismos e complementaridades. Somos sim e não, somos côncavo e convexo, somos razão e emoção, posto que a metade racional não existe sem seu antagônico-complementar: metade emocional. Ao encontro harmonioso destas nossas duas partes, chamo de 'Ser Inteiro'.
Ser inteiro pressupõe aceitar, com todos os paradoxos inerentes ao encontro das metades que nos complementam e que são parte de nós. Ser inteiro é integrar-se pelo auto-conhecimento e pelo amor-próprio. Ao ser inteiro, interajo com o outro, troco, compartilho, entrego-me. Ao ser inteiro, aceito o outro tal qual ele é, e não espero que seja um modelo idealizado por mim, não tento encaixá-lo a todo custo em algo que existe só porque criei.
A simples busca de nossa metade ideal, já é problema na certa, mas a confusão não pára por aí.
Pois bem, nesse ponto começa o maior dos paradoxos. Temos amigos do gênero oposto (ou do mesmo gênero), com os quais temos uma relação de entrega total, de aceitação plena. Com tais amigos somos inteiros, não tememos mostrar nosso lado sombra, nem sorrir, nem chorar. Não tememos ligar no meio da madrugada, só para contar a grande besteira que fizemos e ouvirmos ''eu te avisei!”. Tais amigos nos conhecem do avesso, nos protegem, nos acolhem, brigam conosco, nos aceitam como somos – com todos os nossos defeitinhos chatos.
Por alguma razão não os vemos com olhos de sedução. São como irmãos - é comum dizermos. Por que não nos apaixonamos por eles? Por que não os namoramos? Se são eles que nos ouvem quando mais precisamos, que nos acompanham – mesmo de longe – nos bons e nos maus momentos?
Nosso melhor amigo é nosso parceiro perfeito. Está conosco haja o que houver, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, nas baladas e nos sábados chuvosos em frente ao dvd. Não raras vezes, é nosso companheiro nas viagens, nas histórias – são nossa história. Somos inteiros com eles, eles são inteiros conosco. Gostamos de nossos amigos do jeitinho que eles são, sem tirar, nem pôr.
E me perguntarão ''Como poderia namorar meu amigo?''. Respondo, usando a resposta de um grande amigo ''E quem quer namorar inimigo?''
''Com você sou eu mesma, sinto-me inteira'' (Amiga ao amigo, 03 de Dez de 2006)
''Não me sinto à vontade para falar algumas coisas com meus amigos homens, com algumas amigas, eu falo'' (Amigo à amiga, 03 de Dez de 2006).
Maria Claudia Cabral.
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Mídias ambientais também têm seu preço.


Cada vez mais cresce o número de jornalistas e outros profissionais que se interessam pela divulgação de temas ambientais, a conscientização ecológica alastra-se pelo universo da comunicação. No entanto, as mídias são verdadeiros problemas para os profissionais que pensam ambientalmente.
As pautas ambientais sofrem todo tipo de resistência, retaliações e, como não poderia deixar de ser, divergências entre os modelos implantados pelas cartilhas econômicas ortodoxas que reproduzem a mentalidade de países industrializados. As mídias ambientais produzem uma quantidade enorme de informação, mas acabam sendo obrigadas a pesquisá-la, traduzi-la, estudá-la, para reduzir tudo isso e enquadrar no espaço pequeno que lhe é disponibilizado na grande mídia. Quando conseguem um espaço maior, esse é disputado a tapas com as pautas convencionais nos cadernos de economia, ciência, agricultura, entre outros.
A falta de mídias especializadas deriva de um modelo jornalístico que acompanhou toda evolução do capitalismo. O público precisa de informações rápidas, úteis e em rápido prazo. Não há mais o interesse por avaliação de temas e por isso os profissionais da comunicação não tem mais o compromisso de educar e conscientizar. E quando nos referimos a uma mídia especializada, como são as mídias ambientais, estamos, em primeiro lugar, nos posicionando como "educadores". Aqueles que formarão quadros para liderar, estimular e orientar jovens para assumir responsabilidades e representar as futuras gerações.
O jornalismo diário é essencial para o mundo de hoje, principalmente para oferecer empregos para todos os que estão aí, saindo das faculdades e procurando oportunidades para estarem na mesma pirâmide social que o atual modelo de consumo aspira. No entanto, é necessária a existência de mídias especializadas, principalmente as ambientais, elas procuram no seio das redes eletrônicas a estratégia para suas organizações, a fim de implantar um modelo econômico sustentável.
Para quem ousa participar, ou mesmo incentivar veículos de comunicação especializados, há muito a se fazer, uma vez que todo modelo que vigora foi construído sobre uma perspectiva ultrapassada, com as necessidades de consumo, velocidade extremamente rápida e capacidade de se obter a matéria prima extraída predatoriamente do meio ambiente.
A mídia ambiental é uma potencial forma de fomentar uma economia sustentável. Seus profissionais muitas vezes pagam e, na maioria dos casos, com voluntarismo, boa vontade, compromisso e abnegação para verem a consolidação e a democratização da informação ambiental. Tudo isso porque os amantes da ecologia acreditam que só uma revolução sócio-ambiental pode dar uma nova chance à sobrevivência e a boa vivência da humanidade.

SEU JEITO DE OLHAR

Com um olhar mais atento
Verá o Planeta em agonia
Verá a vida ameaçada
Verá destruição da ecologia
Verá água e ar contaminados
E entenderá a minha teimosia

Q seu olhar, atinja seus sentimentos
Q sua reação seja de preservar
Q assumas compromisso pessoal
O que foi destruído ajude a recuperar
Q o meio ambiente seja protegido
Q seja cidadão, o seu jeito de olhar
Para que as flores não sejam de papel
arvores não deixem de existir
Para que a vida prevaleça no amanhã
A consciência precisamos difundir
Para que os animais não sejam dizimados
Precisamos urgentemente reagir

Sem amor não haverá sensibilidade
Sensibilidade é condição para o agir
Sem o respeito à diversidade da vida
O equilibrado, não vamos conseguir
Se o homem não parar para pensar
Que aguarde
O pior está por vir

Virgilio - Ecologista

Eula Lôbo
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quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Editorial nº 6 : Acho que estamos todos muito sentimentalistas....

Essa edição da Arca Mundo vem para refletir sobre os sentimentos humanos: existência, poesia, felicidade, simplicidade, preconceito, inclusão. Num ensaio mais subjetivo que informacional, ovacionamos nossos sentimentos, particulares e universais. Numa expressão bonita e sincera! A cada edição, trilhamos um caminho, e que assim seja sempre!
Pedimos desculpas pelo atraso da sexta edição! E sem mais demoras: leiam-nos!

Camila Pessoa.
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Uma homenagem ao mestre Fernando Pessoa

Vou me limitar essa semana a divulgar um poema do mestre Fernando Pessoa que tem me consumido a mente há alguns dias. Provavelmente alguns já o conheçam, mas vale a pena ser reafirmado e relembrado aqui por ser uma expressão única e maravilhosa de sobriedade diante das angústias humanas acerca de nossa existência. É realmente, uma expressão muito mágica e, ao mesmo tempo muito lúcida de uma noção que acho que todo ser humano, em algum momento de sua vida tem de si e talvez, de sua insignificância, diante das coisas do mundo e de sua finitude....

      TABACARIA

    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

    Janelas do meu quarto,
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
    (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
    Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
    Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
    Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,
    E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

    Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
    Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

    Falhei em tudo.
    Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
    A aprendizagem que me deram,
    Desci dela pela janela das traseiras da casa.
    Fui até ao campo com grandes propósitos.
    Mas lá encontrei só ervas e árvores,
    E quando havia gente era igual à outra.
    Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

    Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
    Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
    E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
    Gênio? Neste momento
    Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
    E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
    Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
    Não, não creio em mim.
    Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
    Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
    Não, nem em mim...
    Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
    Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
    Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
    Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
    E quem sabe se realizáveis,
    Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
    O mundo é para quem nasce para o conquistar
    E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
    Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
    Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
    Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
    Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
    Ainda que não more nela;
    Serei sempre o que não nasceu para isso;
    Serei sempre só o que tinha qualidades;
    Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
    E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
    E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
    Crer em mim? Não, nem em nada.
    Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
    O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
    E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
    Escravos cardíacos das estrelas,
    Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
    Mas acordamos e ele é opaco,
    Levantamo-nos e ele é alheio,
    Saímos de casa e ele é a terra inteira,
    Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

    (Come chocolates, pequena;
    Come chocolates!
    Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
    Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
    Come, pequena suja, come!
    Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
    Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
    Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

    Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
    A caligrafia rápida destes versos,
    Pórtico partido para o Impossível.
    Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
    Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
    A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
    E fico em casa sem camisa.

    (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
    Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
    Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
    Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
    Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
    Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
    Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
    Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
    Meu coração é um balde despejado.
    Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
    A mim mesmo e não encontro nada.
    Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
    Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
    Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
    Vejo os cães que também existem,
    E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
    E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

    Vivi, estudei, amei e até cri,
    E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
    Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
    E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
    (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
    Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
    E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

    Fiz de mim o que não soube
    E o que podia fazer de mim não o fiz.
    O dominó que vesti era errado.
    Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
    Quando quis tirar a máscara,
    Estava pegada à cara.
    Quando a tirei e me vi ao espelho,
    Já tinha envelhecido.
    Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
    Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
    Como um cão tolerado pela gerência
    Por ser inofensivo
    E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

    Essência musical dos meus versos inúteis,
    Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
    E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
    Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
    Como um tapete em que um bêbado tropeça
    Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

    Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

    Sempre uma coisa defronte da outra,
    Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
    Sempre o impossível tão estúpido como o real,
    Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
    Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

    Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
    E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
    Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
    E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

    Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
    E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
    Sigo o fumo como uma rota própria,
    E gozo, num momento sensitivo e competente,
    A libertação de todas as especulações
    E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

    Depois deito-me para trás na cadeira
    E continuo fumando.
    Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

    (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
    Talvez fosse feliz.)
    Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
    O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
    Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
    (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

    Álvaro de Campos, 15-1-1928
Camila Pessoa
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A FELICIDADE

Com força e com vontade
A felicidade há de se espalhar

Há de mudar os homens
Antes que a chama apague
Antes que a fé se acabe
Antes que seja tarde.

(Ivan Lins e Vitor Martins)

Esta semana fui surpreendida por uma indagação curiosa. Um amigo especial queria saber com que livros fiz minha receita de felicidade. Isto porque quando nos conhecemos, afirmei que me considero uma pessoa feliz. Haverá receita de felicidade?

Refleti um tiquinho sobre o meu sentido de felicidade. Acho que qualquer coisa que eu diga vai soar muito clichê. O fato é que, sendo ''clichê'' ou sendo acadêmica, a noção de felicidade passa pela noção de amor, portanto, farei uma viagem indo do teórico ao empírico, e quem quiser que conte outra.

Falar de felicidade é lembrar de Ortega y Gasset, filósofo espanhol do século XX. Acho fantástico como ele coloca o amor no centro das coisas, como mola propulsora. Acho interessante o seu ''eu sou eu e minhas circunstâncias'', que eu diria ''eu e minhas possibilidades''.

Falando em possibilidades, não poderia deixar de citar o ótimo documentário, que assisti recentemente: ''Quem somos nós?'' Afinal, é ciência - portanto ainda estamos na academia - física quântica, a física das possibilidades e a nossa capacidade de criar realidade. O meu sentido de felicidade passa pela idéia de escolha, de optar por criar a felicidade dentro e em torno de mim.

Mesmo não sendo afeta a livros de auto-ajuda ou fórmulas prontas, citaria algumas frases, que embora bastante clichês – não há como fugir - são verdadeiros ''mantras sagrados'' no caminho da felicidade que criei para mim. Ei-las:

1. A dor sempre vai existir, o sofrimento é opcional; Eu escolhi aceitar a dor, quando inevitável, mas escolhi também não sofrer. Como diria Roberto Shinyashiki, ''Ter problemas é normal, ser derrotado por eles é opcional''.

2. A felicidade depende exclusivamente de mim, de mais ninguém.

Essa é uma de minhas prediletas, porque realmente acredito que nossa felicidade afetiva não está nas mãos de outra pessoa, seja amigo, namorado, marido, seja quem for. A responsabilidade por nossa felicidade está em nossas mãos. Não é justo transferí-la para os ombros de outro.

3. Sou responsável por minha vida, por minhas escolhas, por meus sentimentos e por meu comportamento diante da vida. Só posso mudar a mim mesmo. Mudar a mim mesmo é escolher mudar minha atitude diante da vida, e isso já é um passo bem grande (e difícil).

Aqui vale uma observação: Sou dona das minhas ações, das minhas escolhas, mas não sou Deus. Isto significa que não tenho o controle de tudo a minha volta, ao contrário, tenho governabilidade sobre nada, salvo minha forma de reagir aos fatos. Isto é muito importante, ajuda a evitar a ansiedade. Tendo feito minha parte, aguardo os acontecimentos.

4. Ninguém dá aquilo que não tem. Amar-se é fundamental, só então posso realmente amar outra pessoa.

5. Sou minha melhor companhia. Se eu não me acho uma boa companhia, como posso esperar que os outros gostem de estar comigo?

6. Faço coisas inéditas, extraordinárias, ao menos uma vez por ano.

Resolvi fazer coisas extraordinárias no Reveillon de 2003. Decidi que no Reveillon de 2004, em lugar de estar na frente da TV assistindo a queima de fogos no Rio, eu correria a São Silvestre. Preparei-me durante todo o ano de 2004, e no dia 31 de dezembro, lá estava eu – uma ex-sedentária – correndo os 15km do percurso da 80ª São Silvestre. Cruzei a linha de chegada, depois de 1h53min da largada, exausta, na presença de milhares de pessoas que aplaudiam os grandes vencedores daquela prova. E entre eles, estava eu, que venci minhas próprias limitações. Acreditei, investi e realizei algo extraordinário. Dali em diante tenho feito isso sempre, ao menos uma vez por ano realizo algo inédito em minha vida.

5. Auxiliar os outros é uma grande forma de ser feliz. Vale a pena experimentar.

O que mais posso dizer? Não sei, sinceramente sou Maria Cláudia, não sou Dalai Lama. Não sou perfeita, estou longe disso. Ainda tenho um longo caminho a percorrer. Estou percorrendo o caminho, ''porque o caminho só existe quando a gente passa''.

''Acho que a 1ª vez que nos falamos, você disse que era feliz.''(Um amigo, 20 de novembro de 2006).

"Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito". "Ela é feita de pequenas coisas". (Roberto Shinyashiki)



Maria Claudia Cabral

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Caminhada



Das privações que a vida pode impor ao ser humano, creio que a incapacidade de andar é uma das piores. Depender de alguém ou de algo, além das próprias pernas, para locomover-se fisicamente nesse mundo que parece não ter fim é avistar um fim de perto: o olhar facilmente se perde quando não se pode mais andar para fingir ou concluir que ainda se tem muito chão para vislumbrar. Mas, penso comigo, que talvez o incapacitado seja aquele que tem pernas e não as usa: tem fôlego e não age, pensando que o pôr-do-sol finda qualquer resquício de esperança, mesmo que de fato não exista.

Por isso, ou por nada, vi a necessidade de transformar em poesia o andar nosso de cada dia e todas as suas farpas adquiridas ao longo do caminho; ou pelo menos uma tentativa, pois para o bom brasileiro, ou não, talvez o melhor slogan seja caminhar é preciso, pelos olhos de outros poetas: os de nós mesmos.

Caminhada

Hoje eu aprendi o significado do “caminhar para espairecer”

Que sempre me disseram entre rugas,

Mas nunca pude compreender.

Porque minhas pernas inquietas, chatas e estranhas

Não conseguem mais suportar toda a angústia

De quem pouco tem a ansiar ou desistir.

Pois eu sei, mais do que meus próprios ossos,

Que andar é negociar com os sentimentos,

E eu ando.

Então descobri, que além de escrever

Pra estragar e consertar,

Posso caminhar e respirar o orvalho.

Então direi aos interessados

Que as lágrimas vieram da madrugada,

Das pessoas que entoavam preces nas esquinas,

E das que paravam em fila dupla pra fumar um cigarro.

E eu que não sabia que às vezes é preciso parar...

Eu cantei e esqueci que o dia veio

Pra que eu pudesse ver claramente a realidade.

Deitei e esperei a noite chegar

Pra sonhar aquilo que eu não consegui ver.

Insista, me disseram, nesse eterno espairecer.

Ontem eu insisti, e por volta das 20 horas eu morri.

Volto inadequada, insana e veloz pra lhe dizer

Que não dura, aqui, a hipocrisia,

Pois ela é cansativamente esmiuçada em segredo.

Ordem, calma e regresso.

No outro dia é preciso acompanhar a volta,

Mesmo que tardiamente:

Já que nem mesmo no caos eu me acho

Devido à minha incapacidade de lidar com o incoerente.

Maria Clara Dunck.

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A representação dos negros nos quadrinhos

Pensar os quadrinhos no Brasil, bem como a questão racial no país, é uma tarefa complexa e delicada, sempre margeada pela problemática da exclusão e consubstanciada pela indiferença. No âmbito da discussão racial a problemática toma contornos maiores, tocando questões como direitos humanos, transformação e redimensionamento histórico das formas de preconceito, a apropriação simbólica de um grupo, o negro, pelo outro, o branco – esse outro portador dos meios e canais de difusão comunicacional – capaz de construir hegemonicamente não somente o discurso sobre si mesmo e demais grupos, mas apropriar-se da realidade social e histórica, redimensionando-a para criar simbolicamente um universo moldado pelo seu olhar.

Em relação aos quadrinhos, a questão da marginalidade, menor em dimensões pragmáticas, mas também importante nos limites desse editorial, configura-se igualmente no universo da apropriação discursiva: as mídias surgidas em fins do século XIX e difundidas durante o século XX são vistas pela maioria como instrumentos de massificação, moldadas dentro da lógica da utilidade econômica, diluídas em termos de profundidade teórica e submetidas ao compromisso com a lógica do prazer demandada pelo capital, em detrimento do compromisso com o conhecimento. Essa visão academicista e textualista sofreu transformações à partir da década de 70, com o advento da semiótica. Á partir daí, a imagem alcançou novo patamar na compreensão dos processos da produção de sentido, antes limitada à análise do texto.

O binômio quadrinhos e representação do negro pode ser bem percebido no Brasil em Ziraldo e Maurício de Souza. Maiores produtores de quadrinhos no país desde a década de 70, conseguiram superar as sérias restrições a quem tenta sobreviver de HQ's por aqui, criando universos significacionais de relações extremamente complexas. No primeiro, destacam-se as histórias da Turma do Pererê, publicadas à partir de 1960. Do segundo, a Turma da Mônica, de 1970.

A Turma do Pererê é um universo mitológico criado por Ziraldo, claramente ancorado no nacionalismo modernista. Herdeiro da tradição lobatiana, também influenciado por outros nomes do modernismo – a exemplo de Mário de Andrade – o autor foi capaz de discutir a realidade nacional de forma extremamente crítica através de um universo lúdico infantil, protagonizado por Saci-Pererê, mito do folclore brasileiro redimensionado pelo autor e inserido em um universo cujo epicentro espacial é a Mata do Fundão. Aí, Pererê convive com um grupo composto por duas negras (além do próprio Pererê), Boneca-de-Piche e Mãe Docelina e dois Índios, Tuiuiú e Tininim, além de um grande grupo de animais típicos da fauna brasileira humanizados e batizados com nomes como Moacir (jabuti), Galileu (onça) e Alan (macaco). Os dois brancos presentes no núcleo principal de personagens, o caçador de onças Compadre Tonico e seu companheiro Sêo Neném, são dimensionados com características típicas de vilania, apresentando-se como antagonistas no universo em questão.

A Turma da Mônica de Maurício de Souza, universo quadrinizado mais popular do país, apresenta características bastante distintas da realidade forjada por Ziraldo. As quatro personagens principais, Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão, são construídas através de estereótipos e características muito bem definidas, de onde é extraído o humor nas tiras. A primeira, dentuça e com enorme força física, sempre carrega um coelho de pelúcia azul. È freqüentemente almejada por planos infalíveis que sempre falham de Cascão e Cebolinha, o primeiro com aversão a água, o segundo, troca a letra R pela letra L ao falar. Magali, companheira de Mônica, tem um apetite voraz e insaciável, sem, com isso, engordar. A habilidade com que Maurício constrói estórias baseadas nos estereótipos supracitados é notável.

Além das personagens centrais, destaca-se ainda um enorme núcleo de personagens secundárias, acionadas em momentos muito específicos, normalmente quando é necessário para a história formar grandes grupos. Servem, portanto, como um universo de reserva. Nesse núcleo secundário, encontram-se diversas personagens que se encaixam no que podemos chamar de minorias: O mudo Humberto, o japonês Nimbus, os negros Jeremias e Pelezinho (esse já não publicado), a deficiente visual Dorinha e o cadeirante Luca, estas, personagens recentes.

O que se vê portanto, é uma configuração base seguida por Ziraldo e Maurício de Souza, centrada na utilização de um núcleo central de protagonistas que atua como agente causal. Entretanto, Ziraldo, ao fazer a Turma do Pererê, tomou o cuidado de adequar suas personagens à realidade étnica do país, enquanto Maurício de Souza fez justamente o contrário. As minorias de Maurício de Souza são mera propaganda social, enquanto a turma do Pererê assume contornos muito maiores. Jeremias só é utilizado quando são necessárias personagens secundárias que dêem continuidade à cadeia de acontecimentos da trama. A função dele na Turma da Mônica, nesse sentido, é muito precisa: ser negro. Ele não tem nenhuma característica destacada ou excentricidade como as outras personagens, serve somente para o autor se mostrar politicamente correto. Obviamente, isto não deve ocorrer de maneira proposital. Entretanto, é mais uma daquelas lacunas quase imperceptíveis, involuntárias e mesmo inocentes, em que percebemos que a problemática do racismo e da exclusão está muito longe de seu fim.

Cesar Henrique Guazelli.

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